Há cada vez menos gente capaz de ver um jogo de futebol do princípio ao fim. Por manifesta – e cada vez mais preocupante – incapacidade de concentração. Incapacidade mental e motora.
Apercebo-me, em grau crescente, que entre os mais jovens – mas não só – se troca a visão integral do jogo, mesmo da equipa de que se dizem adeptos, pelo resumo de três minutos já servido para esse efeito nas redes e nas televisões.
Isto verifica-se ao vivo, no próprio estádio. Enquanto o jogo decorre, ali à nossa frente, uma parcela cada vez maior de “espectadores” passa o tempo a mirar o teclado do dispositivo móvel. Preferindo olhar em vez de ver. Preferindo olhar em segunda mão. Como se a imagem electrónica fosse mais verdadeira do que a imagem real.

É como no tempo do pequeno transístor a pilhas a ouvir o relato.
Nessa altura, ouvia-se. Agora olha-se – também sem ver.
Exactamente já tinha presenciado isso mesmo. Seja no estadio, num restaurante, num bate papo com amigos, estamos tão viciados no telemóvel que ficamos cada vez mais infatilizados. Já comecei o desmame há algum tempo e ao fim semana já consigo ir passear ou ir à praia sem levar o dito cujo.
Faz bem. Há pessoas que durante as férias ficam ainda mais agarradas ao telelé. Caso para dizer: não vêem mais nada à frente.
Eu acho bem que os putos passem o tempo todo a mexer no telemóvel. Da forma como as coisas estão é esta geração de velhos mais bem qualificada de sempre que vai ter de lidar com as reformas virtuais.
Vejo gente de todas as idades a fazer isto. Não só “putos”.
Temos de ver as coisas pelo lado positivo, se não fossem os telemóveis como é que você comia o bacalhau à Brás agora em Agosto?
Tá a ver, assim come com os olhos.
Já vi que tenciona convidar a doutora Graça para comerem bacalhau à Brás. Mas apresse-se: Agosto está a chegar.
Como dizia a Hermínia, ” Este país é um colosso, está tudo grosso, está tudo grosso “.
Era a Ivone que dizia isso.
Você é que tem razão, os telemóveis dão cabo dos neurónios da gente, mas eu também desconfio da sardinhada, estava a fazer a digestão e a comentar e depois deu asneira.
Por acaso agora marchava uma sardinhada. Com batatinhas cozidas com casca e uma salada de tomate e pimentos, bem temperada.
(Mas quando estou na praia nunca almoço.)
Esteja na praia ou não esteja almoço sempre, jantar é que é só uma sopinha, a idade não perdoa.
Quando era mais novo comia este mundo e o outro com a particularidade de não engordar. Fazia muita ginástica na escola, coisa que os putos agora não fazem, fazia musculação na garagem de um amigo, e aquilo que era mais parecido com um telemóvel era uma cabine telefónica.
Velhos tempos, muito mais companheirismo, muito mais cumplicidade e muito mais sinceridade.
Agora é o salve-se quem puder, cada um por si, e se puderem lixar o parceiro nem pensam duas vezes.
Também sigo essa rotina alimentar e dou-me muito bem com ela excepto quando estou a banhos, como é hoje o caso.
Infelizmente, com o “progresso”, tornou-se cada vez mais difícil grupos de amigos irem juntos à bola (cada um tem o seu lugar, uns no camarote, outros na superior, outros, até, em casa). Se queremos continuar as nossas charlas – que eram (e são) uma razão tão boa para ir à bola como ver o que se passa em campo – então, tem de se usar as teclas (com pena minha, que já perdi coisas que gostava de ter vir visto, apenas porque estava a maldizer o Paulinho).
Toda a realidade se vai tornando virtual.
Irreal, portanto. Passe o paradoxo.
Estão viciados em estímulos intensos. Um tempo morto no jogo ou não muito interessante, toca de ir ao tlm ir buscar um outro estímulo intenso.
Na politica há toda uma geração a reagir assim. A estímulos intensos e vertiginosos. A lógica do videoclipe contamina tudo. A lógica do penso rápido e do esquecimento célere. Até nos programas escolares se verifica isto. Quase toda a História é “contemporânea”. A cronologia é inexistente, o pensamento abstracto tornou-se raridade e todo o cálculo mental passou à clandestinidade.
Uma praga! Por todo o lado!