Penso rápido (52)


Pedro Correia,

Várias vezes, nos mais diversos paradeiros, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada “videovigilância” estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro — as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite detectar onde levantámos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando até já um Procurador-Geral da República admitiu ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de se sentir preocupado. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar aqui.

20 comentários em “Penso rápido (52)”

  1. Infelizmente Pedro, o grande risco nem está na informação específica que é recolhida dessa forma. Isso seria demasiado para as bases de dados. O problema é a meta-informação, aquela que não identifica o indivíduo com mais que um número mas que também por isso é ainda mais perigosa.

    E é uma informação muito perigosa: a esmagadora maioria das pessoas não se apercebe da informação que vai espalhando sobre si mesmo sem o saber. Um telemóvel fornece indicação sobre onde está mesmo sem GPS (e por vezes mesmo desligado). Um computador ligado à internet está constantemente a fornecer informação a agências de publicidade (e sabe-se lá que mais) sobre o sites visitados, compras feitas, “likes” e “tweets” para construir um perfil virtual daquele número. Quando se cruzam estas informações (coisa extremamente fácil) é quase possível traçar um perfil completo de uma pessoa sem que esta o tenha autorizado ou esteja sequer consciente que isso é tecnologicamente possível.

    O mundo de Orwell não chegou. Aquele que chegou é um mundo muito mais perigoso, onde o Big Brother não é estatal (e como tal não identificável) e não nos diz que nos está a observar.

    1. É isso, João. Como dizes, vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria – e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.
      Infelizmente entre nós estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Mas não são. E todos os alertas são bem-vindos. Sugiro-te, também por isso, que transformes o teu oportuno comentário em ‘post’.

  2. O respeito pela privacidade – antes de tudo, a própria – é coisa em franca decadência. Num tempo em que os jovens e mesmo os já não tão jovens se expõem com verdadeira avidez exibicionista, sob todo e qualquer (ou nenhum) pretexto, nas “redes sociais”, cobrindo-se por vezes de orgulhoso e patético ridículo, este seu texto há-de parecer uma bizarria anacrónica. O que, permita-se-me, só abona a seu (texto e seu autor) favor.

    As fronteiras da liberdade individual são ameaçadas, temo bem, muito antes de o serem pelo estado, em nome do combate à delinquência comum ou ao terrorismo, ou ao que seja, e muito antes de o serem pela acção de estratégias empresariais discutíveis, pelo desprezo que por estes dias as pessoas têm pela sua própria liberdade. Pela sua absolutamente exclusiva individualidade.

    Não essa “liberdade” de, pelas redes sociais, se convocarem desacatos sob a capa de encontros (porque a essa “liberdade” se reduz à confrontação – porque sim – com a autoridade policial, pelos vistos cada vez mais uma espécie de estúpido rito iniciático; e à contestação pueril do que é, só porque é), mas a liberdade do exercício de uma cidadania que vai bem para lá do voto: o exercício disso que é ser-se Homem ou Mulher.

    Coisa que por estes tempos vale bem pouco. O que não permite depositar especial esperança no tempo que virá.

    Costa

    1. Toca num ponto central. Nesta época em que tanto se fala em direitos humanos, alguns desses direitos vão sendo diariamente comprimidos ao que parece sem surpresa ou escândalo de quase ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, por exemplo. O narcisismo exibicionista sobrepõe-se a tudo o resto. Como há-de o Estado – mesmo o Estado democrático, já nem falo em Estados totalitários – respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los?

      1. Precisamente. Convém não ignorar que os governantes de amanhã (de hoje, já), são produto – perverso – do facebook. Facebook que invoco não por ódio de estimação, mas por me parecer – tal o uso dele feito – ser a epítome de um tempo.

        Um tempo em que direitos fundamentais, verdadeiros privilégios, afinal, que deveriam ser acarinhados por todos, são por tantos – cada vez mais, temo – tomados como bizarrias anacrónicas.

        Terreno fértil para coisas más.

        Costa

        Ps.: releio por estes dias as conversas de uma Lenina e uma Fanny, o que pensa um tal Bernard; a doutrina desses anos depois de Ford (culpa sua, em boa parte).

  3. É a tecnologia, aquela coisa que muda a política e a sociedade que todos os monoculturais da política não percebem ou não querem perceber porque lhes tira a importância.

  4. Infelizmente, creio que a semente totalitária já germinou, disseminou-se por toda a parte. O direito à privacidade foi uma mera ilusão da liberdade que nunca chegou verdadeiramente a acontecer. Estamos continuamente debaixo de um cerrado escrutínio que vende a nossa informação pessoal a quem nos compra a alma por um seguro de vida ou os nossos sonhos com um cartão de plafond surreal.
    O mais assustador, é que o poder desligar, não é decisão que nos assiste.

    1. Acho particularmente chocante a indiferença com que tudo isto é acolhido, Dulce. Tanto faz sermos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados, vigiados ou não em toda a parte.

  5. Penso nisso muitas vezes. Tudo na vida é feita de trocas, estes tempos que vivemos são apenas mais um sinal disso mesmo. Poderíamos aqui enumerar milhares de problemas inerentes à inexistência das tecnologias que temos hoje, secalhar, devido a estes é que estas foram crescendo em nós e por nós. Trocamos umas incertezas por outras incertezas; o “onde estará ele” pelo “quem também saberá dele?” Tínhamos isto mas não tínhamos aquilo, hoje com quase tudo na mão parece que nos apetece abdicar de algumas coisas, no entanto estas são pares de outras…

    A nossa incansável forma de ser, tanto na busca da suposta perfeição como na prevaricação impede que ambas se equilibrem, apesar de eu (ingenuamente) acreditar (como acho que todos nós) que houve um tempo em que esse equilíbrio existiu, ou então, a nossa memória ou ignorância desses tempos (agora ou na altura) nos permitam viver a nostalgia soluçando o ambiente do presente. Acho que somos um produto dessa inquietude, do facto de em outros tempos (não interessa quais) alguém num dado momento não estar suficientemente confortável para sentir a sede da evolução…

    É certamente angustiante a ponderação destes assuntos, mas tenho em crer que ,mais uma vez, a onda que nos cobre hoje de incertezas certamente o terá feito em moldes semelhantes ao dos nossos antepassados.

    1. Em vez de a tecnologia servir para libertar o ser humano, vai servindo muitas vezes – demasiadas vezes – para lhe diminuir e reprimir a liberdade. Este é um dos mais sérios problemas dos nossos dias.

  6. Eu não gosto muito destes alarmismos, talvez porque não tenho nada a esconder. Mas também porque não vejo por aí nenhum big brother. Se calhar, estou a precisar de óculos…

    «Quando até já um Procurador-Geral da República admitiu ser alvo de escutas telefónicas ilegais…»

    E um Presidente da República…

    1. Estou consigo: a proliferação de escutas ilegais não deve suscitar “alarmismos”. Mesmo quando um PGR se queixa disso mesmo. Teria ele “algo a esconder” para parecer tão alarmado?
      Tudo na boa. A chuva amainou. E o D. Sebastião até é capaz de voltar para a semana.

  7. Na realidade, Pedro, isto transformou-se numa sociedade de voyeurs. Também em nome da segurança justificam tudo isto, mas a insegurança aumenta.

    Há muito que sei que é assim. E mesmo quando não era assim tudo faziam para que fosse assim. E quem sabe que é assim, se for maldoso como esses outros, sabe como dar a volta a isso.

    Não acredite que eles têm poder para seguir tudo e todos e traçar o perfil de tudo e de todos. Isto só incomoda às pessoas comuns. E olhe que as pessoas comuns, nas suas atitudes diárias, conseguem ser tão “mortais” quanto essas outras. É destes que nos devemos proteger no dia-a-dia.

    A questão afigura-se-me muito simples: Vale a pena viver e ser livre, tracem ou não tracem perfis rastreiem ou não rastreiem um gajo. O que é preciso é deixar sementes.
    O jogo da liberdade tem suas recompensas, que é fazê-los revelar que sabem muito a nosso respeito. E quando fingem não saber também devemos fazer-nos ingénuos.
    Viva a liberdade. Para os voyeurs, com sua licença, mando-os para a puta que os pariu.

    1. E manda muito bem, caro Vento. Mas olhe que são muitos. São milhões. Como bem diz, vivemos cada vez mais – e não me refiro apenas a Portugal – numa sociedade de ‘voyeurs’.

  8. Realmente aterrador caro Pedro é que a semente desse totalitarismo é regada de forma voluntária; é impressionante como as pessoas revelam tudo e mais alguma coisa nas redes sociais, alegremente e de forma voluntária. O voyeurismo como escravidão. 1984 é hoje.

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