Penso rápido (48)


Pedro Correia,

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão, ao que consta, nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da vida. Marx influenciou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também — dizem que até influenciou um certo cabo que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon influenciaram tanto (e tantos) que personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais conhecidos do que os autores. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia…
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto — é sobretudo isto — que faz o fascínio da literatura.

38 comentários em “Penso rápido (48)”

          1. A referência era obviamente a brincar.

            Mas tem um fundo de verdade: para quem, como eu, numa altura em que Salazar era vivo e governava, andou num liceu só de rapazes, teve aulas de “religião e moral” onde impingiam as mais inacreditáveis ameaças e temores, e assim por diante, a leitura de Vilhena ficou na memória…

          2. Não duvido. Vilhena, que ainda é vivo (tem 87 anos), merece a homenagem daqueles que receberam o que escrevia e desenhava como uma lufada de ar fresco num país asfixiado. Não foi o meu caso, só por motivos geracionais. Mas respeito, naturalmente, quem tenha uma perspectiva diferente.

  1. Concordo com tudo o que escreveu, Pedro, e em particular com esse fascínio originado pela literatura.

    Creio que foi em um dos posts de Luís Naves que terei comentado que o leitor não quer saber o que ler, ou não sabe o que quer ler (algo assim), ele simplesmente quer ler e sentir-se tocado.

    Pensava exactamente nesse fascínio, que certamente pode conduzir a uma perigosa identificação surreal com o(s) personagens.

    Como exemplo, recordo-me do fascínio que me despertou, aos 18 anos, um livro de Celine, autor com quem não me identifico, que não procurei:” Voyage au bout de la nuit”. Mas também do fascínio com que li “A barca dos sete lemes” e “Gaibéus”, talvez pelo estilo literário e pela descoberta de um país, que é hoje meu, e que me era totalmente desconhecido. Mas também, aos 14/15 anos, o livro “Ressurreição” de Tolstoi e também o “verão do Lobo Vermelho” (Summer of the red wolf) de Morris West. E tantos outros.

    http://fr.wikipedia.org/wiki/Voyage_au_bout_de_la_nuit

    1. Peço desculpa não ter colocado o nome do autor dos livros “A barca dos sete lemes” e “Gaibéus: Alves Redol.

  2. Caro Pedro, gosto de viajar e já dei umas quantas voltas por aí…
    O primeiro livro que me lembro de ler, bem no início da escola primária, foi ” A Maravilhosa Viagem de Nils Holgerssons através da Suécia “.

    Terá sido por isso ??

    Grande abraço

  3. A edição de “O Príncipe” dos “Livros de Bolso Europa-América” inclui os 773 comentários de Napoleão, quase todos conjugados na 1ª pessoa, como era de esperar, pois vai comentando os usos que fez, faz, irá fazer ou talvez faça dos ensinamentos colhidos na obra.

    Considero que o livro nunca mais foi o mesmo se desligado dos ditos comentários, há qualquer coisa que falta ali.

    Este foi certamente um êxito editorial daquela editora pois uma 1ª edição de 50 mil exemplares em Fevereiro de 1972 não era vulgar, mesmo a preço mais económico.

    Teve uma 2ª edição de 6 mil exemplares em Maio de 1976 (tenho as duas, daí esta sabedoria toda…).

    Ao contrário do que era irritantemente hábito naquela colecção, o tamanho da letra é muito normalzinho pelo que se pode continuar a encarar a sua leitura à medida que os anos passam e a vista se cansa.

      1. Caro Vento

        Eu estou sempre bem, felizmente, também é verdade que não dou grandes oportunidades a ninguém para que me encontre algo de mal…

        Quanto à minha “cara-metade”, os grandes sustos já passaram mas nestes casos nada volta a ser como era e o controle da situação não se pode nunca desleixar.

        Muito agradeço a sua atenção e o seu cuidado.

        Um abraço para si

          1. Muito agradeço o seu abraço e o seu presente, que desconhecia (ainda que conhecesse a história recente da localidade)

      1. Aqui em casa deixou um enorme “rasto”, poupava todos os tostões para comprar livros e entre essa, a Unibolso e a RTP ía muito do meu vencimento “livre” à época (é que já tinha filhos, o meu “filme” já era outro, para devorar como o fazia só nestas edições de bolso).

        A estes havia que adicionar os “Livre de Poche” e os “Penguin Books”.

        Tenho-os todos “no campo” e passo dias inteiros por lá a reler-lhes passagens, deliciado com aquilo, a maioria deles nunca mais foram reeditados.
        A grande vantagem de os ter fora da cidade (e numa casa sem humidade) é que os livrei dos enormes estragos que a poluição urbana neles vai causando.

        Por acaso até reencontrei agora alguns que estavam numa fila de trás, andei á procura de “O bravo soldado Chveik” da mesma colecção (letra minúscula!) pois só encontrava a edição francesa da “Poche”.

        De qualquer modo vou adquirir a edição da colecção do Ricardo Araújo Pereira, que é a obra completa pela 1ª vez traduzida do original e com as gravuras originais de Joseph Lada.
        Esta edição tem os 4 volumes da obra (ainda que o último já tenha sido acabado por um amigo de Hasek), enquanto que a da EA e a da Poche só têm o 1ª volume.

        1. O meu caro Amigo é um verdadeiro bibliófilo. O seu apontamento fez-me interrogar sobre a colecção Unibolso: foi, sem dúvida, uma das melhores do género que se publicaram entre nós. Tenho dezenas de exemplares dessa colecção que ainda não consegui (re)encontrar, mesmo quando levantei a casa quase de alto a baixo para arrumar enfim a minha biblioteca (faz agora um ano).
          Hei-de encontrá-los. Até porque entre eles se encontram três livros da minha vida: ‘Moby Dick’, ‘O Americano Tranquilo’ e ‘Mau Tempo no Canal’. Quero falar deles na série Grandes Romances.

          1. Sem prejuízo de cá voltar mais logo para a parte mais sumarenta, justifica-se dizer que no caso do Chveik a minha memória foi atrás do título francês “Le brave…” quando as versões portuguesas dizem “O valente…” na Europa-América e “O bom…” nesta última (e completa) que referi.

          2. Considero a colecção Unibolso a melhor que se publicou entre nós.

            Como o meu Amigo bem sabe, sou frequentador quase diário de alfarrabistas variados e, ainda que dos Livros RTP ou da colecção de bolso da Europa América vá aparecendo aqui e ali muita coisa, desta nunca vejo nada, pelos vistos quem os tem não se desfaz deles e aconselha os herdeiros a não o fazer (*).

            Por curiosidade fui ver o que haveria por aí e encontrei isto :

            http://www.alfarrabista.com/coleccao-detalhe.php?idColeccao=100080

            Ainda que não esteja lá tudo, dá-nos uma ideia geral.
            Mas eu acrescentaria que há ali pelo meio livros que hoje pouco dizem mas à época eram edições em formato de bolso de livros bastante recentes.

            Tenho um número considerável deles, como já dei a entender, curiosamente em bastante bom estado geral quando comparados com outras colecções (o papel está uniformemente amarelado, quando noutras é variável o estado).

            Como acompanhei dia-a-dia a sua “odisseia” de arrumação, devidamente suportada por aquele jazz de que nós gostamos, muito me espanta que não saiba desses (mas a si ainda deve espantar muito mais!), ainda por cima tendo eu ficado com a ideia que teria eliminado segundas filas.

            O “Mau tempo no canal” deverá ter tido o seu maior impacto nesta altura, muito ajudado pela extraordinária prestação de Vitorino Nemésio no programa “Se bem me lembro” da RTP.
            A maneira como ele “conversava” connosco é inesquecível, lembra-me sempre a frase de Einstein “Se não consegues explicar algo de forma simples é porque não o compreendeste”.

            (*) Quando volto dos alfarrabistas comento muitas vezes “Deve ter morrido outro gajo da minha geração, o … tinha uma quantidade de livros iguais a muitos que temos aqui em casa e que os herdeiros não sabiam o que lhes fazer”, observação que irrita a minha mulher, leitora compulsiva…

          3. É verdade, meu caro, cada vez se vê maior número de ‘bibliotecas’ domésticas transpostas para as prateleiras dos alfarrabistas. E há também cada vez maior procura desses livros oriundos de colecções privadas.
            Concordo consigo: a Unibolso foi provavelmente a melhor colecção de livros em formato ‘de bolso’ que tivemos. Muito antes houve outra, a Miniatura, também muito boa embora não tão variada (da editora Livros do Brasil). Gostei também da colecção Ficção Universal, da D. Quixote, que a certa altura terminou abruptamente, como é costume acontecer em Portugal. Mas esta já não era em formato ‘poche’. Os livros da Miniatura, por exemplo, cabiam em qualquer algibeira mediana.

          4. É natural, a geração dos compradores de livros em papel está a desaparecer e os herdeiros não os querem porque não gostam de ler, porque não gostam daqueles livros de que os pais gostavam, porque já têm os seus próprios livros e o espaço é precioso para futuras aquisições ou porque para se desfazerem um dia dos livros herdados custará mais que não ficarem logo com eles.

            Eu próprio fiquei com algumas colecções raras hoje, os Clássicos da Sá da Costa ou as obras completas de Victor Hugo em francês ou a obra completa de José Rodrigues Miguéis, algumas outras obras de Oliveira Martins e pouco mais, isto tudo “muito negociado” com os meus irmãos, houve que fazer cedências.

            Mas tirando uma filha e uma neta (filha dela) não estou a ver mais nenhum filho ou neto preocupado com estas questões, a que há que juntar o facto de ter livros com 50 anos e o aspecto geral não ser já sequer aceitável para efeitos de decoração de salas ou corredores…

            Tem toda a razão quando se refere à cada vez maior procura e entre 1ªs edições e livros que se imagina fácilmente que não serão reeditados há livreiros e clientes muito atentos.

            A Miniatura era irmã gémea da Vampiro mas nesses tempos o “livro sério” não estava ainda associado à ideia do bolso e o policial não era ainda considerado (estúpidamente) um “livro sério”, era mais uma coisa para passar o tempo sem pensar muito (um conhecido meu nem pensava nada, ía ler o fim para saber quem era o assassino e depois logo decidia se lia o resto!).

            Mas ao contrário da Vampiro que tinha capas ainda hoje espectaculares, as da Miniatura pareciam algo de deslavado, não o eram mas pareciam.

            A Ficção Universal foi um caso, editou o fabuloso “A cidade dos prodígios” do Eduardo Mendoza : nunca mais falhei um livro dele, passei foi a comprá-los no original.

          5. As palavras são como as cerejas, meu caro. Até nestas caixas de comentários. Lembrei-me agora, ainda a propósito da colecção Unibolso, que outro livro de que gostei muito foi ‘O que faz correr Sammy?’. Quando reencontrar estes volumes que andam com paradeiro ainda indefinido sou capaz de a reler e talvez incluí-la na minha série Grandes Romances.
            A Vampiro, ainda existente, e a colecção quase-gémea Argonauta contribuíram para grande parte da popularidade da Livros do Brasil, nos anos áureos – que foram muitos – desse grande editor que se chamou António Souza-Pinto. Não voltou a ser a mesma desde a morte dele.

          6. Até parece mal o que lhe vou contar, pois parece inventado agora “à propos”.

            Pois o livro da Unibolso de que eu melhor me lembro ainda hoje, que várias vezes me vem à lembrança e de vez em quando equaciono reler é precisamente ‘O que faz correr Sammy?’ de Budd Schulberg.

            E cheguei a pensar falar nele no comentário e depois passou-me, o raciocínio vai mais depressa que a escrita, é tramado.

            Na Wikipedia temos informação interessante sobre a colecção Argonauta completa, mas o meu Amigo já deve conhecer.

            http://pt.wikipedia.org/wiki/Colec%C3%A7%C3%A3o_Argonauta

            Infelizmente não existe este trabalho feito para outras colecções da “Livros do Brasil”(uma grande editora que nunca punha data de edição nos livros).

          7. Achei piada a esta coincidência, meu caro. Ainda hei-de escrever aqui sobre essa pequena obra-prima do romance norte-americano do século XX.
            Também eu fui leitor atento e regular, durante largos anos, dos lançamentos editoriais da Livros do Brasil. E sempre me interroguei por que raio não inscreviam a data da edição nos livros. Acontecia o mesmo às edições das Publicações Europa-América, que entretanto deixei de acompanhar pela manifesta falta de qualidade dos livros que lançavam (capas, traduções, revisão, etc).

          8. Espero bem que escreva (já encontrou a colecção Unibolso?).

            Estou a ver daqui 4 metros de “Livros do Brasil”, das várias colecções que se publicavam há 30 ou 40 anos.
            Quando saíu esta última edição de “A montanha mágica” do Thomas Mann (e não do Thomas More..) e começou muita gente à minha volta a dizer que era a 1ª cá na terra (e era a 1ª traduzida do original, mas não a 1ª) quis ír ver de quando datava a que tenho ali e, claro, fiquei na mesma.
            Teve que ser por aproximação e puxando da memória em relação a nascimentos dos filhos e mudanças de local de trabalho, coisas assim.
            Resumindo: continuo sem saber.

          9. Ainda vou a tempo, é P.S. que falhou no comentário anterior.

            Não resisti aos “4 metros de livros” ali na minha frente!

            Meu Pai foi cliente certo de uma conhecida livraria da Baixa durante muitos anos, só ía lá e portanto tinha alguma confiança com quem lá trabalhava.

            Isto deve-me ele ter contado teria eu 18 anos (portanto há 50).
            Era muito mais vulgar do que se possa imaginar entrarem lá pessoas a encomendarem livros a “metro”.

            Assim mesmo : queriam 40 metros de livros de autores conhecidos, tanto lhes fazia o que fôsse desde que tivessem encadernações bonitas.

  4. Em relação à versão comentada do Príncipe, que também li, já me tinha sido informado que não era real, depois li algures num livro a mesma coisa, no outro dia sobre isto mesmo a discussão la voltou à baila e deram-me os seguintes (há mais em francês pela net).

    http://www.minimaetmoralia.it/wp/il-falso-napoleone/
    +
    http://www.eurotrib.com/comments/2010/3/8/184334/6913/7
    +
    http://ask.metafilter.com/101628/What-did-the-Emperor-have-to-say-about-the-Prince

    Alguém tem info extra?

    1. Como fui eu que falei no assunto dos comentários, algo devo dizer.

      Não me é fácil comentar o que diz com “provas”, como todos sabemos na internet encontramos fácilmente gente a defender tudo e o seu contrário , muitas vezes até com os mesmos argumentos.
      E as informações fora dela não as tenho excepto as que já sabemos.

      Portanto basta escolhermos 3 ou 4 palavras-chave na pesquisa e sai-nos o que queremos, ainda esta semana poupei umas belíssimas centenas de euros numa reparação a um carro pois para os mesmos sintomas encontrei uma avaria de 300€ e uma de 1500€, quando cheguei à oficina “vieram-me” com uma e eu “fui-lhes” com outra (peço desculpa pelo àparte).

      Interesso-me pelo personagem Napoleão há 55 anos, desde os 13, algo que talvez tenha sido facilitado pelo facto do francês ser a minha 2ª língua.
      O estilo da escrita parece-me o dele se confrontado com outros escritos, mas admito nunca ter lido isto no original (mea culpa, tive mais que tempo!).

      Mas mais importante do que isso é que não estou a ver como é que uma pessoa que não tenha uma sólida experiência prática no campo da táctica e da estratégia política e militar pudesse fazer muitas das observações que dali constam sem se tornar excessivamente ridículo ou superficial.
      Ora não é isto que lá está, do meu ponto de vista e como deixei expresso atrás.

      1. Também é a versão que mais me agrada! Não digo que ficaria destroçado se não fosse verdade, mas iria retirar aquele elemento que o tornou ainda mais interessante. Portanto, se não encontra motivos, ficarei com essa certeza, visto que é mais dedicado a este que eu. Mas pela curiosidade, gostava muito de me lembrar em que livro vinha essa referência… Bom, fica para uma arrumação posterior. Obrigado!

        1. Subscrevo totalmente as suas palavras até ao “interessante” da 3ª linha.

          Mas a partir daí acho que está a confiar demasiado em mim, o que óbviamente agradeço mas tenho dúvidas que mereça.

          Portanto fica em carteira que não nos esqueceremos desta dúvida (que permanece como tal) e daremos notícias disso aqui.

          É que agora também fiquei com o bichinho, é o lado muito bom destas conversas, a procura de respostas trará inevitávelmente outras dúvidas decerto úteis e/ou interessantes.

          Obrigado pelo debate!

  5. A rovolução que se deu na crença religiosa de uma garota de 15 anos, duramente educada nos dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana, depois de ler “Eram os deuses astronautas” de Erich von Däniken foi brutal 🙂 🙂

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