O progresso. Se há palavra malbaratada, desvirtuada, pervertida, vilipendiada é a palavra progresso – sempre pronta a ser usada e abusada por todos os vendedores de ilusões. Alguns dos maiores torcionários de que há memória usaram-na em discursos e até em livros. Em nome do progresso, matou-se e torturou-se. Sob a bandeira do progresso, o homem é constantemente empurrado com excessiva frequência de regresso às cavernas. Invoca-se o progresso como se fosse um dogma, pratica-se o retrocesso como se fosse inevitável.
Nada há de tão perverso na política como esta novilíngua destinada a iludir as mais legítimas aspirações dos povos. Danton, um dos próceres da Revolução Francesa, chegou a enaltecer a guilhotina como conquista civilizacional e símbolo de um futuro radioso. «O verbo ‘guilhotinar’, notai, não se pode conjugar no passado. Não se diz: ‘Fui guilhotinado’.»
Palavras proferidas na véspera da sua morte, a 5 de Abril de 1794: foi vítima da guilhotina, na sequência de uma conspiração liderada por Saint-Just, que costumava proclamar: «Ninguém pode governar inocentemente.» Provavelmente tinha razão: o próprio Saint-Just viria a ser executado a 28 de Julho, com apenas 26 anos, acusado de ser “inimigo do povo”. De nada lhe valera o brilhantismo das suas intervenções enquanto mais jovem deputado eleito para a Convenção Nacional.
Foi a primeira revolução de grande envergadura a devorar os seus filhos – e esteve muito longe de ser a última. Porque nenhum discurso inflamado por cartilhas partidárias é capaz de alterar a natureza humana.

Isso era no tempo desse tal Danton, agora estamos no tempo do Hollande e por consequência o progresso vai de vento em popa, lá pelas Parises de França.
A propósito: os camaradas Dupond e Dupont, também conhecidos por ToZé e ToLuís, já elogiaram essas maravilhas que por lá ocorrem?
Os camaradas andam muito ocupados a preparar a ‘saison’ de bengaladas que promete ser histérica, perdão, histórica.
A revolução francesa – modelo do estado iluminista preconizado pela maçonaria instituiu o terror de estado e inaugurou o terror do genocídio como método de governo: era-se assassinado legalmente apenas por pertencer a uma classe ou professar uma religião.
Além das dezenas de milhares de mortos após processos sumários e fantoches, há CENTENAS de MILHARES de vítimas da repressão republicana na Bretanha – a que se seguiu um programa de extermínio cultural (com a imposição da língua francesa).
Convirá acrescentar que a revolução francesa não trouxe qualquer “novidade” que não existisse já na Grã-Bretanha.
Pelo contrário! E ainda hoje, em França não há habeas corpus e o voto das mulheres foi posterior ao das portuguesas. Ainda as francesas não votavam já em Portugal havia mulheres – e divorciadas! – na Câmara Corporativa, quando em França pouco mais eram, legalmente, de que menores de idade.
Convirá, no entanto, em nome da honestidade, admitir que a revolução francesa assassinou muita mulher.
Como diz, a Revolução Francesa – que vitimou desde logo os seus próprios mentores – instaurou o terror de estado e o genocídio como instrumento de governação. Entre as “conquistas civilizacionais” que legou à humanidade destaca-se precisamente a guilhotina. O regime demencial dos Khmers Vermelhos, por exemplo, bem poderia reclamar-se desse edificante precedente histórico proporcionado pelo terror jacobino, que se propunha expurgar a sociedade de todos os elementos adversos ao “progresso”.
Daí eu considerar que esta é uma das palavras mais pervertidas de que há memória.
Podemos citar as grandes batalhas da antiguidade , falar até dos crimes hediondos praticados pelos cristãos em nome do progresso da religião. Isto para não mencionar a Santa inquisição. A revolução francesa despertou ideais de liberdade, igualdade, fraternidade , ou a morte… Ou a morte, freququentemente em nome do progresso e da passagem á prática daquilo que não passavam de palavras no papel, e que até aos dias de hoje continuam lá…
Podemos aprender sobre a evolução do progresso mundial nos compêndios de história , mas principalmente nas cicatrizes profundas dum planeta ferido de morte, em nome do mesmo progresso que faz com que cada vez mais regridamos em inteligência.
O homem tornou-se o seu próprio algoz, e todos juntos condenámos Gaia a uma morte lenta e dolorosa.
No próprio mês em que escrevemos estas linhas, Dulce, a realidade desmente os dogmas do “progresso” e os mitos a ele associados, e contraria em toda a linha os arautos do optimismo histórico. Basta ler os sinais que nos vão chegando: a barbárie humana anda à solta em várias regiões do mundo. É isso que nos indicam – que nos gritam – os assassínios de civis em Mossul e Kirkuk, os meninos vitimados por bombas em Sinjar e Gaza, os moribundos vitimados pelo ébola em Monróvia e os refugiados carbonizados em Lugansk, entre tantos outros.