Na mesa ao lado do restaurante onde almoço, um casal ainda jovem — na casa dos trinta — está sentado frente a frente. Mas em silêncio. Ambos de olhos mergulhados na respectiva tablete — que não é de chocolate, mas electrónica. Visivelmente concentrados na função, alheados de tudo quanto se passa à volta.
Alheados, desde logo, de quem têm pela frente.
Imagino-os, assim concentrados, em ameno paleio com parceiros ou parceiras de Facebook. Sem cessar de me espantar com esta sociedade que gerámos em pouco tempo, cheia de gente tão nova e já ligada à máquina.
O que havemos de esperar deste admirável mundo novo que troca o ser humano pelo ecrã digital? Sentimentos mecanizados. Emoções virtuais. Distância maquinal. Tudo se acende com um clique para se apagar logo depois, à mercê de outro clique.
Num mundo assim, a única atitude rebelde é estar off line. Olhar nos olhos, falar de viva voz, tocar como se costumava fazer há anos, antes de o virtual se apossar do real e as paixões andarem diluídas de tecla em tecla.

vamos esperar o mesmo que o meu avó esperava de mim – um rapazola que não tem habitos de trabalho e só quer esssas modernidades das boites e cabelo comprido. Concordo que o melhor investimento que podemos fazer é numa juventude culta e bem formada – as vezes assusta-me ver jovens obesos sem cuidado com a saude e conversas sobre as socialites e dramas telenovelscos, mas a seguir recordo os velhos do restelo que tenho ouvido toda a vida e não estamos pior que quando era jovem e só bancarotas já vamos na terceira.
O que seria se tivessemos eleito gente competente para gastar sabiamente o ouro que o botas nos deixou?
Sim, meu caro, só bancarrotas já cá cantam três. E nada nos garante que não venha outra.
Pedro, também sou de opinião de que o mundo devia ser menos virtual. Mas sempre houve (e sempre haverá) casais, novos e velhos, cujas partes nada têm a dizer uma à outra. Antigamente, na zona onde eu vivia (Gaia/Porto) viam-se muitos casais dentro do carro, à beira-mar, ao domingo à tarde, ele a ouvir o relato, ela a tricotar. Assim chegavam, assim regressavam a casa, sem se olharem, sem trocarem uma palavra.
O ecrã digital piora essa situação? É possível…
Isso é verdade, Cristina. Também testemunhei diversas cenas dessas. Mas em regra passavam-se com casais mais velhos. Agoro noto o mesmo fenómeno com casais cada vez mais novos que parece não terem nada a dizer um ao outro. O computador ou o telemóvel são apenas o efeito, não a causa.
Excelente “Penso rápido” e não me admirava nada que estivessem a teclar um para o outro de “tão ligados que estão à máquina”.
Talvez. Já quase nada me espanta, Fatyly. Obrigado pelas palavras tão simpáticas.
Tal como dizem os Xutos, não tenho um tablet mas o meu país não deixou.
Porquê?
É só ver carga de impostos e os subsídios que nos retiraram.
Se o engenheiro, agora filósofo, por Paris, mandasse nisto, em vez dos Magalhães estavam a dar aos miúdos da escolas tabletes, talvez com o nome de Camões, mas com a obrigatoriedade do antigo OA.
Só sei que nada sei, meu caro. De tabletes, então, percebo muito pouco.
Sorte que os humanos ainda – ainda – não se podem reproduzir pelo world wide web.
Contra mim falo, que só vou a casa da minha mãe que tem quase 80 anos cerca uma vez por mês, porque lhe instalei o Skype num portátil antigo e “vêmo-nos” todos os dias e conversamos imenso… e ela só mora a 10 minutos a pé da minha casa…
Mas este penso foi para a ferida certa.
Nunca deixarei de me espantar com a proliferação de casos como este, Dulce. Nestas alturas – e só mesmo nestas alturas – sinto-me alguém de outro tempo.
Caríssimo,
Chocou-me imenso, nos meses que passei este ano no País irmão e ainda antes da Copa, a generalização de situações idênticas a esta que encontrei e que considero – e trato como – de uma pura falta de respeito e educação.
Forte abraço.
É bem verdade, caríssimo. Mas disso já nem falo: conceitos como boa educação e urbanidade nas mais elementares relações humanas, incluindo no próprio reduto familiar, estão tão fora de moda que quase parecem remontar ao Palelolítico.
Um forte abraço. É sempre um gosto recebê-lo por cá.