Penso rápido (35)


Pedro Correia,

Alguns opinadores — felizmente para eles — têm estômagos de betão: não sentiram a mais leve azia perante a humilhação a que o representante máximo de Portugal, o Presidente da República, e o máximo representante do Governo português, o primeiro-ministro, foram sujeitos na cimeira de Díli, à qual não deviam ter comparecido por elementar decoro.
Era fácil antever que aquilo só podia terminar mal.
Ambos acabaram por fazer figura de corpo presente numa farsa: a adesão da Guiné Equatorial foi anunciada antes da indispensável anuência prévia de Portugal, ainda que para efeitos meramente formais, e o ditador de Malabo viu-se entronizado como novo membro da CPLP sem que tivesse havido ao menos um simulacro de votação à volta da mesa onde figurou desde o primeiro minuto como convidado de luxo. E sem que se desse ao trabalho de pronunciar uma só frase em português.
Eu, confesso, tenho um estômago muito menos resistente. E não gosto de engolir tudo quanto me servem. Daí o meu protesto, agora reiterado. Que Obiang seja um tirano, condenado por todas as organizações de direitos humanos, parece para alguns ser uma atenuante: daí entoarem-lhe hossanas em blogues e redes sociais. Parece até que desejariam ter um “líder” destes no Terreiro do Paço.
Lamento, mas sou muito antiquado: para mim ser ditador não é atenuante. É agravante.

8 comentários em “Penso rápido (35)”

  1. Sabe Pedro, as pessoas que realmente se importam, sentem o apelo desde novas e seguem carreiras em que pensam que poderão fazer A diferença. Um jornalista isento, cujo ADN significa Actualidade Desenganada da Notícia, teria forçosamente que não ficar indiferente perante a farsa da CPLP.
    Todos os que seguiram uma carreira que não os realizou com a intensidade e o protagonismo que esperavam alcançar, mais cedo ou mais tarde acabam por enveredar pela política.
    Como diria Ramalho Eanes em relação a Manuel Alegre, “sempre tivemos grandes poetas, mas maus políticos”.
    Creio que a presença portuguesa na CPLP não passou duma triste tentativa para dar a conhecer David Mourão Ferreira, tendo acabado por mostrar apenas o lado negro do barco.

    1. O ditador Teodoro, agora promovido a estrela da constelação “lusófona”, é incapaz de entender os belos versos de Mourão-Ferreira, Dulce. A menos que sejam cantados assim: “Son locos… son locos…”

  2. Para quem teve “estomago de betão” para aguentar um ditador durante 50 anos… que mal faz mais um, que nem sequer vive por cá?

    É tudo folclore!

  3. realmente eu acho mais grave os chineses, israelitas, qatar e sauditas assumirem posições chave em sectores estratégicos de Portugal.

    1. Caro Tric , mas este ignóbil caso da CPLP é precisamente a cereja no topo do bolo, é o colmatar uma série de situações só próprias de vendilhões do templo.

  4. De pleno acordo. Portugal tem aquilo que merece. Ter um Primeiro Ministro e Presidente da República que dizem sim, a tudo, sem contrariarem nada, nem ninguém, o resultado só podia ser este. Vergonhoso, deplorável, onde as regras, do bom senso deram lugar à total libertinagem de actos e pensamentos. Deprimente……….

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