Não é corrente, mas faz todo o sentido usar a terminologia “Guerra Mundial 1914-1945”. Uma guerra de longa duração (três décadas) entremeada por ilusórios períodos de paz e que só terminou verdadeiramente – por macabra ironia – com o início da idade atómica.
Mesmo durante o período que se convencionou chamar paz não faltaram guerras – incluindo algumas das mais devastadoras de que há memória. A guerra russo-polaca, a guerra civil russa, a guerra greco-turca, a guerra sino-japonesa, a guerra civil espanhola.
A ilusão de que haveria uma guerra que poria fim a todas as guerras ou que seria possível alcançar uma paz perpétua semelhante à do Jardim do Éden (sem serpente…) era corrente no início do século XX e não falta literatura da época a atestá-la. Uma ilusão perigosa, pois fez baixar a guarda quando se impunha toda a precaução, em sentido inverso. O primeiro passo para fazer prevalecer a paz é nunca perder a noção de que o conflito é intrínseco à natureza humana.
Penso rápido (32)
Pedro Correia,

gosto de destacar os progressos que a UE tem feito para que os cidadãos se habituem a achar suficiente discordarem por palavras e votações. Olhando inclusive para nós podemos sentir como temas meio dificeis de engulir como gays,igualdade da mulher, fascismo, capitalismo, direita reacionaria… foram sendo temas pacificos -com alguma paixão é certo, mas contidos dentro dos limites pacificos e como diz e bem o ditado = primeiro estranha-se mas depois entranha-se. E acho que deve ser raciocinado por todos se não é este um caminho positivo -por mim é muito positivo. Mesmo a UE com as suas contradições tem sido uma obra unica no mundo..e que felizmente tem seguidores fora = os ultimos arroubos dos paises do Mercosul,com o Brasil nalinha da frente bem tentam fazer parecido; assimos interesses anglofonos o deixem.
Sim, a UE é um passo civilizacional. Não tenho a menor dúvida. Contra os nacionalismos, os impulsos xenófobos, os ódios identitários.
Choca-me ver tanta gente que se diz do lado do “progresso” ter hoje um discurso fanático anti-UE.
“É mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. “
Pode ser que a diplomacia e o bom senso prevaleçam no meio de tanta alienação.
Pode ser. Mas não devemos esquecer-nos que o instinto bélico, o impulso guerreiro, estão-nos inscritos nos genes. Não devemos alimentar demasiadas ilusões sobre a natureza humana. A camada civilizacional que ostentamos é ainda demasiado fina. Basta lembrar-nos que na geração dos nossos avós e bisavós se travou a guerra mais sangrenta de toda a história. O que são três gerações na história da humanidade?
Caro Pedro Correia,
Como escrevi no comentário ao texto do Rui Herbon (e que o Pedro teve a gentileza de destacar como comentário da semana), eu não diria que a 1ª GM tenha acabado em 1945. Em termos políticos ou estratégicos, acabou 1990/1991 com a restauração da independência dos Estados Bálticos e a reunificação alemã (a dissolução da URSS foi pouco depois e também pode servir de “marco” histórico.
A 1ª GM começou com a Sérvia e, passado um século, a Sérvia regressou a 1911 (antes da guerra dos Balcãs… a primeira do séc. XX entenda-se), perdendo o Kosovo não para os Otomanos mas para os descendentes destes. No interlúdio dissolveu-se (ou foi) a Jugoslávia e voltou a águia bicéfala branca.
A 2ª GM começou pela Polónia, que só o voltou a ser, de facto, em 1989. Entretanto perdeu a leste e ganhou a oeste. A leste o que sobrou de polacos agora agitam a Ucrânia (e o que sobrou de Russos nesta, já se sabe).
Percebo essa linha de raciocínio, Carlos. Mas para mim 1945 é mesmo um ano-fronteira, irrepetível, traçando uma linha divisória. É o ano da bomba atómica, a humanidade entra na era nuclear. É o ano em que os homens tomam consciência de que a próxima guerra global põe em risco todo o planeta no seu conjunto.
Isto para mim – até como fronteira moral, se assim quisermos – é mais relevante do que todas as considerações geoestratégicas às quais também sou sensível mas já num plano secundário.