Penso rápido (26)


Pedro Correia,

Certos espíritos cartesianos, que fazem gala em tingir de verniz racionalista todos os segmentos da existência, mostram imenso enfado perante as paixões dos estádios. Apetece apontar-lhes o caso do alemão Mario Götze: talvez descubram nele o puro sortilégio do futebol. 

Relegado para o banco de suplentes num torneio que na sua perspectiva parecia para esquecer, a meia hora do apito final Götze entrou em campo e tornou-se inesperado protagonista de um Mundial que para sempre recordará. Ao marcar o golo decisivo — o da vitória, que muitos alemães já não esperavam — cruzou o seu destino pessoal com o de largos milhões de adeptos.

Foi, sem dúvida, um dos melhores golos marcados em finais de campeonatos do mundo. Memorável não só pela circunstância mas também pela oportunidade, pelo recorte técnico, pelo instinto vencedor. A fotografia que corre mundo mostrando Götze no final, olhando o céu ainda incrédulo no rescaldo do lance que o tornara campeão, ficará como uma das imagens icónicas deste torneio de boa memória para quem aprecia futebol.

Por muito que isso custe aos tais cartesianos, incapazes de ver nos desafios dos estádios uma metáfora perfeita dos desafios da vida.

 

22 comentários em “Penso rápido (26)”

  1. Eu gosto de ser racional, talvez cartesiano, e por isso mesmo, acho que a atitude de Götze é perfeitamente racional. Tal como era a dos jogadores brasileiros, com gestos semelhantes, ou de jogadores de outros credos.
    O futebol mantém esse elemento caótico tão necessário a uma imprevisibilidade saudável da vivência. Depois há tentativas de racionalizar isso, que são vistas como irracionais. Uma delas é ter amuletos de sorte, outra é invocar deuses, preces, etc.
    São tentativas de racionalização, de encontrar razão no caos.
    Só que a imprevisibilidade, porque precisa mesmo de ser imprevisível, não se compadece com previsões. Essa é outra forma de racionalidade – entender que há coisas que podem e outras que não podem ser previstas.
    Se o resultado do futebol pudesse ser previsto, não despertava a mesma paixão.
    É por isso que o pessoal detesta más actuações da estrutura e da arbitragem, que destroem essa parte de imprevisibilidade.
    Neste caso, se Götze abriu os braços aos céus, Neuer deveria ter aberto os braços ao árbitro.

    1. Discordamos neste ponto. Equipa com desempenho correcto, em termos disciplinares, a Alemanha – ao contrário de outras selecções – não foi beneficiada pelas arbitragens. Nem precisava: foi claramente superior às restantes selecções.
      Nada semelhante à grande penalidade inventada pelo árbitro japonês no Brasil-Croácia.
      Nada semelhante ao Brasil-Holanda, com o árbitro a poupar o cartão vermelho a Thiago Silva logo aos três minutos.
      Nada semelhante ao penálti escandalosamente perdoado aos argentinos no Argentina-Irão.

      1. Pois, discordamos.
        Sobre Neuer, e como uma imagem vale para explicar o assunto:
        http://2.bp.blogspot.com/-5hs88wmhsSQ/U8azeY0XjwI/AAAAAAAABJ4/KLnVVCSCD0c/s1600/s2.JPG
        … a imagem foi tirada por mim, deste vídeo:
        https://www.youtube.com/watch?v=Yj-V5bLjmj8
        O pé de Neuer está sobre a perna de Higuain, quando está a socar a bola, depois do soco é que vai o joelho à cara. O contacto é anterior. Ponto final.

        Pior, o problema principal é que se estes lances passarem a ser admitidos, é melhor os jogadores jogarem com capacete.
        Neuer sabia perfeitamente que iria trucidar o adversário, e mesmo assim foi com tudo, arriscando uma lesão permanente. Higuain não podia adivinhar que o guarda-redes ia tentar apanhar a bola do lado dele, saltando-lhe por cima, para jogar uma bola que estava fora do seu alcance legítimo.
        Sobre este assunto, já falei noutro post. Quem quiser distorcer a realidade, e alinhar com uma boa parte dos jornaleiros do politicamente correcto, que tentaram ignorar o facto, invente o que quiser.

        A Alemanha não teve situações graves em que foi prejudicada, ao contrário, foi beneficiada, caso aliás que é comum.
        Mas a partir daí já é matéria de opinião, e cada um fica com a sua.

        1. Discordamos mesmo da apreciação deste lance. Eu vejo Neuer a socar a bola, só depois chocando com Higuaín, como se comprova vendo o segundo plano da mesma jogada registada no Youtube.
          O contacto físico era inevitável pois o guarda-redes precisava de saltar para socar a bola. A alternativa seria ficar apático, aguardando que o argentino dominasse a bola sem oposição a 11 ou 12 metros da linha da baliza. É verdade que aos 20 minutos deste jogo Higuaín esteve isolado perante Neuer e acabou por rematar fraco e frouxo e torto, mas convém não abusar da sorte.
          Se queremos encontrar um lance em que o árbitro protegeu uma equipa de forma escandalosa, aqui está uma imagem bem esclarecedora do Itália-Uruguai. Em que o uruguaio não recebe sanção alguma – nem uma advertenciazinha verbal sequer:
          https://www.youtube.com/watch?v=nq0WXCDAOdE

          1. Pois, desse ângulo ainda se vê melhor o pé de Neuer já metade na perna, no momento do soco.
            http://1.bp.blogspot.com/-d306erAGE84/U8bsswqzyMI/AAAAAAAABKI/nHfmXu_1Xl8/s1600/s4.JPG

            É engraçado, porque isto mostra bem que mesmo com imagens, há lances, que devido à sua rapidez são de análise complicada.

            Por isso, na questão de tocar ou não primeiro, vale o critério do árbitro… nunca valeria era marcar falta contrária… mas o ridículo ficou bem assinalado.

            A questão não é tocar primeiro, tal como se o jogador tocar primeiro com o pé ao nível da cabeça, é sempre pé em riste. O critério aqui é o critério da violência.

            O Pedro está a admitir que uma intervenção de karaté é legal, desde que o jogador toque primeiro na bola. Não é, e foi por aí que o árbitro errou.
            A intervenção de Neuer é perigosa, consciente, e poderíamos ter Higuain com uma lesão permanente.
            Estas acções não fazem parte do futebol. Neuer estava fora do lance, e as suas incursões atempadas, desta vez falharam. Paciência, devia ter sido expulso, mas isso não impede que tenha sido o melhor guarda-redes do Mundial.

          2. Concordo consigo num ponto relevante: o árbitro não deveria ter marcado falta ao argentino. Só há duas interpretações possíveis: choque casual ou falta do guarda-redes. Em nenhuma ciscunstância há aqui falta de Higuaín.

  2. Eu entusiasmo-me imenso é com as peripécias das transferências. Felizmente que até finais de Agosto não vai haver outra conversa. E depois há o mercado de Inverno, para não cair em depressão.

  3. Götze aconteceu e em poucos minutos escreveu ouro no livro da sua vida.
    Messi aconteceu em horas e horas de indelével presença, não marcou pela positiva, marcou pela vulgaridade. No fim, foi patrocinado o melhor do Mundial. Como metáfora à ironia dos bambúrrios da vida, não me parece despropositada.

    1. Messi estava designado antes da final. Se calhar já estava antes do Mundial. Isto é mera jogada comercial, com o patrocínio de uma conhecida multinacional de calçado desportivo. Uma vergonha.

  4. se existisse um prémio para a selecção mais “cartesiana” do mundial, o prémio iria para? a selecção da senhora merkel, é claro.

    e o gotze está apenas a olhar para o corcovado e imitar o cristo rei, lá no alto…

    1. Os alemães estragaram o caldinho que já estava cozinhado pela classe dominante do desporto-rei, como bem prova o inacreditável prémio de ‘melhor jogador do Mundial’ concedido pela FIFA a Messi minutos após o apito final do árbitro.

  5. Já por aqui escrevi que não sou apreciador de futebol. Não o sendo, seja na perspectiva do fervor emocional, seja naquela dos conhecimentos técnicos e regulamentares, incapaz de citar um jogo, um nome, uma jogada de há duas semanas (quanto mais trinta ou quarenta anos), uma coisa me impressionou pela positiva: a selecção alemã pareceu ser composta por tipos normais, sem cortes de cabelo bizarros, barbas cavernícolas , tatuagens exuberantes e delírios afins. Gente normal, não exibicionista. É possível jogar futebol tendo-se um aspecto normal, lavado, decente. Sendo o jogo a estrela.

    E, parece, jogar o melhor futebol.

    Costa

  6. Quando realizamos algo que é desejado e perseguido por muitos e que por ser tão difícil e único, apenas alguns, poucos, ou até somente um, consegue o feito, a alegria, a euforia é tão grande que o sentimento de que somos escolhidos, contemplados, toma conta da razão. Se Götze tivesse marcado um entre outros golos de outros colegas, por certo olhava e agradecia em moldes mais cartesianos.
    Sim, pode significar a existência de Deus (não descarto essa hipótese, pois posso estar enganado) como pode significar que a reacção à gloria é tão grande quanto o desejo por ela, todos sabemos que o futebol é seguido e apreciado por milhões. Quando alcançamos a essência, o objecto desejado, assim tão instantaneamente, como é o caso de um golo, somos tomados por uma alegria tão grande que nos eleva, sentimos que somos únicos e como tal, no fundo, sentimos que somos melhores que os demais. Olhando o céu Götze revela isso mesmo, pois endeusa-se a ele próprio, sente-se divino, abençoado, único… a mais rara mas talvez a mais intensa pulsão da vaidade.
    Claro que à superfície a conversa de equipa, a humildade e tal e tal, fica sempre bem, mas no fundo todos sabemos que o que interessa é o golo, o resto é muita moral e muita treta.

    1. É um jogo colectivo e poucas selecções como esta Alemanha têm interpretado tão bem a essência do futebol. Mas é também um jogo que a qualquer momento pode ser decidido por um rasgo de génio individual. Aí o indivíduo é mais do que ele: é como o homem do leme no poema de Pessoa. Por um breve instante relaciona-se com o transcendente. De forma quase absurda, quase irreal, de forma quase inexplicável.
      Götze, nesta foto tão recente e já icónica, parece pensar e sentir tudo isto naquele simbolismo de braços abertos e palmas viradas para o infinito – a dimensão dos génios e dos heróis.

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