Pensar o PS em directo (1)


Sérgio de Almeida Correia,

 

1. É público e notório que se vive neste momento um clima de grande efervescência política. No país e nos dois partidos charneira do sistema. Se no PSD aquilo que seria naturalmente transitório e efémero se tornou na sua prática quotidiana, deixando há muito de fazer sentido e sendo apenas compreensível no quadro das lutas em que o partido está mergulhado (norte/sul, interior/litoral, Lisboa/resto do país, centro/regiões, concelhias/direcção), já no PS a situação impõe uma reflexão séria e consequente.

 

2. O PS acabou de sair de eleições e viu ser-lhe renovada a confiança política, apesar da erosão do poder, dos erros cometidos ao longo de quatro anos de governo, e do crescimento de uma clientela política e empresarial amorfa que suspira pela maioria absoluta.

 

3. O início do novo ciclo político exigiria do PS, já que não foi capaz de fazê-lo nos últimos dezoito meses da anterior legislatura, uma atitude sadia, irreverente para consigo mesmo, descomplexada e capaz de assumir o desafio colocado pela governação em minoria com um inquestionável sentido de Estado, com a noção dos desafios e das necessidades do país.

 

4. Os seis meses finais do anterior executivo, em parte devido a uma desajeitada e incompetente intervenção política de Belém, assente em sofismas e desconfianças várias relativamente à seriedade e vontade política do primeiro-ministro, que condicionaram a sua actuação, criaram no país e, em particular, no PS um clima de profundo desconforto, de verdadeira incomodidade com a actuação presidencial e com o resultado eleitoral, que muitos silenciosamente já pressentiam não obstante o trágico desacerto, fragilidade e errância da direcção política do PSD.

 

5. O PS errou quando se deixou levar pelos acontecimentos, quando embalou no conflito despropositado e na criação de questiúnculas artificiais e, ainda, errou na forma, não tanto na substância, como conduziu o combate e escolheu os protagonistas para esse combate.

 

6. O primeiro-ministro e secretário-geral de PS em diversas ocasiões deixou-se tomar pela espuma dos dias, foi arrastado pela arrebentação, bem como a sua entourage política (o caso de Santos Silva foi o mais grave), para debates estéreis e questões marginais que pouco tinham a ver com os interesses do país e do PS, sendo disso mesmo exemplo a forma como se ia reagindo aos sucessivos e descabelados ataques que alguns franco-atiradores do PSD, mas também inacreditavelmente de alguns sectores do poder judicial sindical, iam desferindo, revelando falta de poder de encaixe e resposta atabalhoada.

 

7. Perante o resultado eleitoral e a escolha da nova equipa, face ao desnorte de Belém provocado pelo inenarrável caso das escutas e subsequente promoção de Fernando Lima, pensei que José Sócrates voltaria a ter as condições necessárias para se poder concentrar na tarefa para que foi eleito, a única que interessa neste momento ao país e a que pode prestigiar o partido aos olhos dos portugueses e dos seus militantes: a governação.

 

8. Porém, a gestão do caso Face Oculta, algumas desajustadas intervenções, à semelhança do que já acontecera com o processo Casa Pia e que valeu a decapitação da anterior liderança, uma crispação latente e permanente no discurso parlamentar do partido, agravada com a escolha de Francisco Assis para a liderança da bancada, o agudizar da crise económica e as dificuldades sociais geradas, a necessidade de aprovação de mais um orçamento rectificativo e a forma como o processo foi conduzido, transmitiram em muito pouco tempo uma imagem de dificuldade em acertar o passo e de relativização do esforço feito e dos sacrifícios pedidos aos portugueses nos últimos quatro anos.

 

9. Neste momento o quadro não é brilhante e de nada serve apelar, como alguns o fizeram, a uma intervenção presidencial que apenas serviria para aconchegar aquilo que poderá ser facilmente ultrapassado com capacidade de análise, escolhas criteriosas e autocontrolo. Deixemos Belém entregue a Cavaco Silva e aos seus assessores, não queiramos transformar o semipresidencialismo num presidencialismo encapotado.

 

10. O PS não tem que se preocupar com Belém, com as lideranças dos outros partidos ou de responder aos ataques e remoques pessoais nas comissões parlamentares, ou fora delas, em termos que só servem para desprestigiar o partido, acirrar os ânimos e transformar o país num lodaçal de recriminações e insultos pessoais. Era só o que faltava que o país ficasse dependente das opiniões de Fernando Lima. 

 

11. Mais, o PS só tem uma missão, a de governar e de governar bem, cumprindo o seu programa eleitoral, não fugindo do combate político, mas não o transformando no móbil da acção governativa, evitando o arrastamento para situações como a que ontem se viveu no Parlamento em matéria de corrupção/enriquecimento ilícito, situações em que apenas de si próprio se pode queixar e que poderiam ter sido evitadas se adequadamente ponderadas e levadas à prática na anterior legislatura, quando se possuía uma maioria confortável em S. Bento.

 

12. Nesse sentido, as intervenções públicas dos dirigentes, em especial dos que estão na linha de fogo, terão de ser cuidadosamente ponderadas e articuladas, evitando-se os desgarrados e radicais estilos de Assis (é tempo de moderar o discurso e temperar a verve, e não de partir a louça toda) ou Rodrigues (José Sócrates não precisa de ponto), tanto quanto for possível, seja para minorar os estragos já provocados na confiança da opinião pública e na estabilidade da governação, seja para obviar ao aparecimento de novos anticorpos, como os que foram desencadeados no passado por Correia de Campos ou Maria de Lurdes Rodrigues, mais por desacerto na transmissão da mensagem do que por erro nas políticas prosseguidas.

6 comentários em “Pensar o PS em directo (1)”

  1. “11. Mais, o PS só tem uma missão, a de governar e de governar bem, cumprindo o seu programa eleitoral”

    Deus, nos livre de tal desejo…Mais Endividamento!!?? a realidade ainda não é assim tão clara!!??

    O Partido Socialista, é um partido anti-democratico! como é que é possivel que tenham existido eleições legislativas ha apenas dois dias e que o XUXAS ( apoiados declaradamente nas ultimas eleições pela ala PASSISTA do PSD ) tenham ocultado a extrema gravidade da situação economica do país!?

  2. “desajeitada e incompetente intervenção política de Belém, assente em sofismas e desconfianças várias relativamente à seriedade e vontade política do primeiro-ministro, que condicionaram a sua actuação”

    A falta de um mínimo de pudor leva a isto.
    Afinal, o culpado das desgraças que se abatem sobre o País é Cavaco Silva.
    Nem mais nem menos. Ora, toma!

  3. E o principal culpado de todo este clima de efervescência política que se vive é Pedro Passos Coelho. Basta que abandone a sua candidatura à liderança do PSD para tudo acalmar.

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