Há coisa de duas semanas escrevi um post sobre a reforma do Estado. Nele escrevia que em qualquer discussão deste género deve estar sempre subjacente um objectivo geral. As reformas não devem ser feitas ad hoc, mas com um pensamento (uma ideologia, se assim o quisermos) que as orientem.
No que me diz respeito identifico-me logo à partida: sou de centro-esquerda. Que quer isto dizer? Bom, tal como a definição pode mudar com o país (alguém de centro-esquerda nos EUA seria facilmente de direita na maioria ds países europeus), também pode mudar com cada pessoa. Apresento assim as minhas coordenadas.
Vejo, de forma muito genérica, a esquerda e a direita da seguinte forma. A Esquerda tem como princípio orientador a busca de uma igualdade entre todos os seus cidadãos com esperança que nesta igualdade nasça também prosperidade. A Direita opta por partir em busca da prosperidade, confiante que esta acabará por ser extensível a todos. Claro que nesta definição removo quaisquer desejos de totalitarismos ou corrupções, por isso peço aos trolls blogosféricos que se abstenham de apontar o dedo ao elefante. Está na sala, já o sabemos, obrigado.
Dentro disto como me coloco no Centro-Esquerda? Bom, embora prefira uma sociedade o mais igual possível, reconheço as diferenças entre indivíduos e aceito, por uma questão pragmática, que o comércio-livre terá feito mais pela prosperidade e evolução da sociedade que qualquer outro mecanismo socio-político ou socio-económico. Vejo como tal a importância que os privados (ou indivíduos, se quisermos, por oposição ao Estado) terão para com a sociedade e a utilidade do seu uso em substituição do Estado onde possível. Onde o meu pensamento resvala inevitavelmente para a Esquerda é em dois aspectos: os serviços públicos devem ser sempre garantidos pelo Estado (mesmo quando prestados por privados) e no caso extremo prefiro um Estado gigante a um estado mínimo. Não é uma questão prática ou pragmática: é uma questão de preferência.
Assim sendo, fica claro para mim o caminho geral: o Estado deverá ter como primeiro propósito garantir a segurança, a liberdade, a prosperidade e a felicidade dos seus cidadãos. Do meu ponto de vista isto deve ser garantido apontando à igualdade dos cidadãos, mas criando mecanismos que permitam às suas elites (não tenhamos medo deste termo) ser recompendadas pelo seu trabalho positivo (caso contrário o incentivo é mínimo). A garantia dos serviços públicos deve estar sempre nas mãos do Estado, mas sem necessidade de os prestar directamente. Onde o serviço for prestado de forma mais eficiente sem perda de qualidade, o Estado deve permitir que os privados o façam. Deve, contudo, existir sempre um mecanismo de salvaguarda que permita ao Estado substituir os privados quando estes falhem ou quando não prestem certas facetas do serviço (os não lucrativos, por exemplo).
Estas são obviamente linhas gerais de orientação. Caso a caso podem ser revistas ou adaptadas. Tenho um pensamento de esquerda, mas sou essencialmente um pragmático. Com o tempo tentarei abordar casos mais concretos. Mesmo que acabe a pregar aos e-peixes.

Gostei de ler.
“(…) o Estado deverá ter como primeiro propósito garantir a segurança, a liberdade, a prosperidade e a felicidade dos seus cidadãos”
Segurança e Liberdade pode garantir através da Justiça (um dos nossos maiores problemas).
Prosperidade? Como pode o Estado assegurar prosperidade?
Felicidade?! < acho que é aqui que está a ser de esquerda 😉 Como é que se garante uma coisa destas?…
Ah, já sei! Podiam abolir o AO para sempre! Ficávamos todos um bocadinho mais felizes.
Quanto à felicidade tem uma certa razão, fui excessivamente optimista relativamente à “procura da felicidade” americana. Mas é nesse sentido, garantir que os cidadãos tenham os meios para procurarem a sua felicidade.
Já agora, estou a ser certamente lento, mas o que é o “AO”?
O “AO” não é de facto nada .
Há quem lhe tenha chamado Acordo Ortográfico mas , tal como as coisas estão , devia ser “DO”.
Ah, agora entendo, não estava à espera dessa. Talvez porque não lhe ligo muito… 😉
E faz o meu Amigo muito bem !
Eu não lhe ligo nada quando escrevo mas , com netos no liceu , não o posso infelizmente ignorar .
Isso de o Estado tentar assegurar felicidade poderia traduzir-se, por exemplo, em instalar redes sem fios gratuitas em todo o País (e acabar com os preços abusivos dos operadores, mais o seu miserável serviço de dados). Seria um bom serviço público. Ao contrário, andarmos todos a pagar o INATEL para estimular a pequena ganância de secretaria – imaginem a guerra de cunhas que aquilo é para marcar um fds em qq lado – não nos traz grande felicidade. WI-fi à borla por todo o lado, sim.
Caro anónimo, muitas formas existirão certamente e estarei provavelmente certo ao dizer que raras seriam as potenciais medidas que agradariam a todos. Pessoalmente gostaria de ter WiFi em todo o lado, mas isso é inviável. Já exercer controlo sobre os operadores para evitar abuso de posição e cartelização de preços, isso deveria ser perfeitamente exequível.
Como passo 2/3 do mês numa pequena vila da Beira Alta e ando por ali nas redondezas , posso dizer que o Wi-Fi está mais difundido do que parece pois mesmo a nível da pequena vila e até aldeia há cada vez mais espaços com esse acesso (mesmo muitos mais , em proporção , que nas grandes cidades) .
É uma forma de chamar as pessoas e tirá-las de casa , muito importante para a sobrevivência de pequenos negócios locais .
Mas de facto o número de pessoas que o utilizam é pequeno pois nem todos têem portáteis e a poucos apetece saír de casa para o efeito mesmo que os tenham.
Agora se vamos pensar num Wi-Fi “público e seguro” a que se aceda de casa ainda vamos ter que esperar muito (e sentados…)
O Wi-Fi “na rua” não chega a atingir 100 mts com sistemas normais e é bastante permeável a ataques “menos honestos”.
Isso é que era o que se chama “deitar dinheiro para o penico” …
“A prestar aos e-peixes”?
“pregar” em vez de “prestar”. Está corrigido, obrigado pela chamada de atenção.
Estou completamente de acordo. Vou estar atento aos exemplos…
Também estou de acordo. Não me interessa/serve, rigorosamente para nada, um estado que me presta serviços duma forma medíocre, imprecisa, burocrática e desumana. Se entidades privadas prestarem os ditos, de uma forma mais capaz, que venham … desde que existam mecanismos de salvaguarda, nada a opor!
Exactamente Maria, a questão dos mecanismos de salvaguarda são fundamentais. E mesmo que de forma ineficaz, considero por vezes preferível ver o Estado a cumprir certas funções que os privados.
Se (por hipótese) uma empresa privada de transportes eliminasse muitas das linhas ou dos horários, isso poderia trazer benefícios à empresa, mas não necessariamente à sociedade. Nesses casos deveria ser o Estado a garantir o serviço ou, em alternativa, a pagar à empresa para o fazer. Isto é, obviamente, apenas e só um exemplo.
Mas isso não pode ser assim. 1º definir o que se quer, depois tenta-se chegar ao objectivo. Não pode ser o que dá lucro, é do privado, o que dá prejuízo pagamos todos! Não. O que dá lucro tem de compensar o que dá prejuízo.
E já agora não resisto a esclarecer uma coisa. Os serviços do estado só dão prejuízo porque os seus administradores/gestores assim o querem ou permitem. Quem nomeia as administrações? Somos nós? Não! São os Políticos. Tipos que não percebem um boi do que vão gerir, que nem se preocupam em tentar perceber, e por serem políticos, nunca tomam decisões para não perderem o tacho. Este é o maior problema na gestão do estado.
Porque uma coisa é certa, um serviço de um privado fica sempre mais caro que um serviço prestado pelo estado. Porquê? Porque o privado tem investidores ou accionista aos quais tem que entregar lucro. 30, 40 ou 50%…
Vejam o caso da empresa onde passou o Passos Coelho, do Ângelo Correia. Ficava muito mais barato tratar os lixos do que as empresas ou serviços do estado, só faltava uma coisa: TRATAR EFECTIVAMENTE O LIXO!! Está em tribunal….
“Claro que nesta definição removo quaisquer desejos de totalitarismos …”
É evidente que não remove. Aliás estão todas aqui. Porque o que conta para si são os Resultados.
Ou seja caso as suas receitas não funcionem o caminho é para si o Estado Máximo por definição o Totalitarismo.
Vamos a caminho depressa.
Aliás se bem me lembro ainda há uns tempos defendia que quem tivesse sido ajudado pelo Estado em criança deveria ser de esquerda por dívida de agradecimento…
Meu caro, já sei que nos seus pais-nossos (se os rezar) acaba com a linha “e livrai-nos do Estado” e está no seu direito. Está também no seu direito de querer acabar com o Estado ou reduzi-lo ao que considera o mínimo (que para mim provavelmente é a inexistência). Até tem o direito de interpretar as minhas palavras de forma completamente errada ou mesmo de as distorcer conforme lhe apeteça, algo que parece ser uma das suas actividades preferidas.
Repare que lhe dou tantos direitos que nunca poderia aceitar o totalitarismo. Se eu defendo que o Estado tem que ser um garante de Liberdade, obviamente que não aceito que o Estado a retirasse. É uma questão de equilíbrio. Percebe o conceito, espero.
É que o mundo não é a preto e branco. Se quiser discordar de mim, esteja à vontade, é salutar. Se quiser disparatar começo por dizer que V. quer um Estado tão pequeno que a sua ideia de paraíso é a Anarquia. Assim como assim, penso que distorço as suas ideias menos do que aquilo que V. faz com as minhas.
PS – não sei onde foi buscar essa da “dívida de agradecimento”. De mim não foi quase de certeza (digo “quase” porque não excluo nunca dizer umas asneirinhas para motivar uma discussão). Talvez essa ideia tenha vinda do seu sótão, do lado da jaula dos macaquinhos…
Mas eu não quero acabar com o Estado só quero o Estado onde diferentes portugueses possam viver – uso aqui um horrível mais ou menos porque não é possível ser absoluto- de acordo com a sua individualidade, personalidade e diferentes maneiras que julgam deve ser o seu contacto com o Estado.
Se os comunistas quiserem fazer a sua comuna que façam. A questão é porque é que não fazem?
A questão é obviamente tolerância à diferença de viver na mesma comunidade. Uns querem que essa comunidade seja toda igual. Para mim boa parte da esquerda não passa de tribalismo com capa intelectual.
Quanto mais Estado menos liberdade se tem e menos portugueses se sentiram nele confortáveis.
“Repare que lhe dou tantos direitos que nunca poderia aceitar o totalitarismo.”
Dá? Eu não quero nada de si, só quero que me deixe em paz. Dá-me “Direitos” que eu não quero mas obriga-me a pagar na mesma. É como obrigar a velhinha a atravessar rua para realizar a boa acção…cobrando um preço.
Se você aceita o Estado Máximo então aceita o totalitarismo, quer queira quer não.
O Estado Kafkiano.
E com cada vez mais leis toda e qualquer pessoa já cometeu uma qualquer ilegalidade.Que será usada contra si quando incomodar esse Estado Máximo. Pois quando toda a gente já violou uma lei a escolha do Estado é quem punir.
E é esse o caminho que trilhamos, a caminho da Democracia Totalitária.
Hoje já somos bem menos livres em muitas situações que no tempo do Estado Novo.
A pergunta que fica é porque que a esquerda precisa de obrigar quem não é de esquerda para praticar o que defende?
P.S: Peço desculpa, erro meu. O Post é de André Couto e não seu: 3154.html
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/472
“A garantia dos serviços públicos deve estar sempre nas mãos do Estado, mas sem necessidade de os prestar directamente.”
Mas isto já nós temos, é a nossa economia mista consagrada pela constituição, a qual tão bons resultados tem tido.
Não funciona, precisamente porque neste sistema não sabemos onde começa e onde acaba o Estado. Aliás não acaba, pois quando se é árbitro e jogador é óbvio a favor de quem se arbitra.
Pessoalmente defendo um Estado mínimo, limitado à saúde, educação e justiça.
Então eu deveria ter-me explicado melhor: essa garantia deve ser de facto exercida. Neste momento o Estado tem essa função (constitucionalmente) mas não a exerce, antes garantindo os negócios dos parceiros em vez dos interesses dos seus cidadãos. Isto não é de esquerda ou direita, é simplesmente um problema político.
Infelizmente não temos tanto um problema de saber onde começam ou acaba o Estado, mas antes onde entram os privados pelo Estado adentro. A promiscuidade (prefiro manter este termo asséptico) entre Estado e privados é excessiva e quem acaba por pagar é o cidadão.
Compreendo a sua posição em relação ao Estado mínimo. Como já escrevi, tenho uma visão diferente, mas é sempre bom poder discutir as visões diferentes. Até porque dentro dessas áreas, o Estado pode ser mais ou menos abrangente.