Pensamento para o dia de hoje


Pedro Correia,

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«Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.»

 

Fernando Pessoa, Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional 

18 comentários em “Pensamento para o dia de hoje”

  1. Tem toda a razão Fernando Pessoa.
    Falta dizer que isto se deve a o povo português ter uma personalidade e uma forma de estar na vida fortemente femininas. Tal como as mulheres, o povo português procura essencialmente seguir os costumes da geração anterior (as mulheres copiam sempre as suas mães) e tem muita atenção às opiniões das outras.
    Ao contrário dos povos do norte da Europa, que são muito masculinos (e machistas), o povo português é muito feminino, e na sua organização social as mulheres são preponderantes.

    1. (aquilo da “Lavourada” foi uma belíssima ideia, mas o dito excede-se a soi-même a cada momento. acho que é falta de carências…)

    2. Interessante o seu conhecimento de Fernando Pessoa e da natureza feminina, Comendador Lavoura, curioso até…
      Maria

    3. Ia jurar que quem não move uma palha para mudar a forma de estar dos pais, são os homens. Sobretudo se mudar for coisa de bom-senso.
      Hoje desiludiu-me Lavoura, e olhe que leio este Blog há anos e os seus comentários há meses; são sempre os que mais me animam. Sorrio sempre.
      Acho, aliás, que o Lavoura devia ser convidado a fazer parte deste Blog plural.

      Quanto a Fernando Pessoa, a lucidez e clarividência de sempre.

  2. Será assim. Mas temos, não há como negá-lo, excelentes “existências individuais”. Conhecidas, generosamente financiadas e até ver, apesar de um ou outro sinal, ainda maternalmente protegidas pelo regime presente. Que cuida de recolher sem contemplações os fundos (também) para tanto, nesse “exército”.

    Exército que assim deixa acontecer porque fundamentalmente se dedica à quotidiana prática do desenrascanço, ela mesmo um sinal de “existência individual”. Uma utilíssima arte, se bem que não para quem a pratica. Antes para quem, por acção ou omissão, e dotado do poder, a torna necessária.

    O resto é egoísmo e cobardia. Que não se resolve com coletes amarelos. Resolver-se-ia talvez nas urnas. Mas não com este povo.

    Costa

    1. RODA DE SOMBRAS
      Destruir o céu com bolas de fogo
      Invadir o inferno com lanças de papel
      Partir a janela penetrar no espaço;
      Empenar o piano e fazer um poema
      Apagar o sol engolir o mar
      Erigir um marco no centro do mundo
      Ensaiar alturas rastejar servil
      Ocupar palácios esmolar a fome
      Cercar o castelo e servir o rei
      Empunhar a bandeira de novo senhor
      Correr em círculo e gritar em frente
      E contemplar inerte
      As sombras do esbracejar grotesco

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