Pensamento da semana


Teresa Ribeiro,

Sempre desconfiei da “felicidade que se constrói”, embora reconheça que há pessoas que são felizes por uma questão de sobrevivência. Falo de  casos em que os motivos de infelicidade são tão avassaladores, que se fossem assimilados, tornar-se-iam incapacitantes. Mas esses são exemplos extremos e em todo o caso não estamos a falar de verdadeira felicidade, mas de terapia de choque. Acredito que a regra é as pessoas realmente felizes serem-no por circunstâncias que não controlam: como terem níveis elevados de serotonina no cérebro ou simplicidade de espírito, factores que as predispõem para ver a vida sob o melhor ângulo.

Aquela emoção a que chamamos felicidade, aquela que depende da satisfação de desejos, é sempre fonte da angústia residual que consiste no medo da perda, no medo que se cumpra o destino transitório de tudo. Portanto na prática, a felicidade em estado puro não existe. E muito menos se constrói, como se fosse um lego. Isso é fantasia inventada pela Psicologia Positiva para vender livros de auto-ajuda.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

40 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Verdade, a felicidade em estado puro não existe. Como não existe nada humano que se possa dizer em “estado puro”. Também não sei se a felicidade se constrói, mas – e talvez seja o mesmo – treina-se, o que não significa que se chegue a estar em forma para, apto. É o caminho que importa, sempre foi. Curioso, não associo felicidade à satisfação de desejos, mas é inegável que proporciona algum bem estar momentâneo.

    1. Há desejos e desejos, Bea. Há aqueles que uma vez realizados nos fazem sentir em estado de graça. Refiro-me a objectivos muito difíceis de alcançar no plano pessoal ou profissional.
      Nisso de treinar a felicidade não acredito. O mais que se pode treinar é a atitude perante a vida (mais positiva, mais optimista) o que pode gerar bem-estar, mas só.

  2. Acredito que a regra é as pessoas realmente felizes serem-no por circunstâncias que não controlam: como terem níveis elevados de serotonina no cérebro

    Eu acredito que quando as pessoas que, confrontadas com o SARS-COV-2, ficam doentes, isso ocorre por motivos que são peculiares delas, e não propriamente do vírus, como eventualmente terem alguma deficiência no sistema imunitário. É que, de outra forma não se explica que um vírus possa ser perfeitamente inofensivo para 80% da população. Deve ser algum defeito que os restantes 20% têm.

      1. Pois já, Teresa.
        Mas, o facto de uma pessoa ser considerada, ou parecer, muito saudável, não quer dizer que o seja. Ela pode ter (grandes) fragilidades.
        Por exemplo, os homens em geral são mais fortes do que as mulheres. Mas são mais frágeis perante a generalidade das doenças (perante a covid-19 em particular, mas perante quase todas as outras também). Têm um sistema imunitário mais fraco que elas. O parecerem fortes não significa que de facto o sejam.
        A covid-19 veio expôr a fraqueza do sistema imunitário de algumas pessoas. Que, no entanto, felizmente são uma minoria.

        1. E também veio expor o delírio de muita gente, que prefere acreditar em teorias da conspiração do que na objectividade dos números, que nos revelam que as vacinas são um sucesso e que as políticas públicas que visam a contenção da propagação do vírus fazem sentido.

          1. As vacinas não impedem a transmissao do virus. É um facto cientifico. E já agora , chalupas sao os que não acreditam no virus. Negacionistas são os que estão vacinados e mesmo assim não largam a máscara nem na rua ao ar livre.

          2. Jorge,
            Sim, as vacinas defendem-nos apenas de desenvolver doença grave. Concordo que andar na rua de máscara é pecar por excesso, mas prefiro cruzar-me com esses do que com os que fazem gala em estar sem máscara dentro de recintos fechados.

          3. A objectividade dos números diz-nos que não teria sido necessária esta histeria. Se não concordar comigo pesquise. E já agora, explique-me como é que se passou de 3400 mortes por gripe em 2018/2019 para praticamente 0. E explique-me porque motivo um vizinho meu, que caiu de uma escada sobre umas pedras e perfurou um pulmão, “morreu de covid”. E explique-me também porque é que ninguém fala do caso sueco. E explique-me porque um tal de Froes anda a ser investigado por ligações a uma farmaceutica. E explique-me porque motivo só se fala das mortes com covid quando morrem em média 300 e muitas pessoas por dia em Portugal. As pessoas que morrem de outras causas são menos importantes? E não pense que não sei o que é a dor da morte de um familiar próximo, porque anteontem foi o funeral do meu pai. Que morreu por causa de uma bactéria que o infectou no hospital! Esses casos (e infelizmente são muitos) não são passíveis de ser investigados e noticiados, para que alguém seja obrigado a fazer alguma coisa? Enfim, poderia continuar por muitas mais linhas, mas não quero ser rotulado de “negacionista”. E pode ter a certeza de uma coisa: não sou adepto de teorias da conspiração, mas espero que esta pandemia do medo, fabricada por alguns para benefício de alguns, venha a ser julgada no “tribunal da História”.

          4. Basta compararmos o que acontecia há um ano em Portugal (com filas de ambulâncias à porta dos hospitais) para se perceber que a vacinação fez a diferença. Na comparação entre países as estatísticas também revelam que há uma relação clara entre a percentagem de população vacinada e o número de mortes e internamentos por Covid. Isto basta-me e faz-me confusão que não seja o suficiente para convencer os mais desconfiados.
            Os exageros, como lhe chama, têm apenas o objectivo de evitar o congestionamento do SNS. Objectivo compreensível.

  3. às vezes sou feliz comigo próprio
    de resto « mais difícil ainda »

    ARTHUR SCHOPENHAUER in EL ARTE DE SER FELIZ
    EXPLICADO EN CINCUENTA REGLAS PARA LA VIDA

  4. A felicidade é um estado, nao uma construção. Ninguém “é” feliz, pode estar ou não feliz num determinado momento.
    Quem acreditar na felicidade enquanto objecto mensurável, pode sempre ir medindo a sua, e fazer um belo gráfico. Se conseguir fazer a correlação entre as métricas e factores exógenos, é coisa para uma tese. Ou um livro de auto-ajuda.

  5. dá-me ideia que as pessoas felizes são as que se contentam com pouco . desfrutam sempre . simplicidade de espírito , ausência de ambição , nascer sem sentido de poder , é uma boa receita para a felicidade

    1. A felicidade está directamente relacionada com as expectativas.
      As expectativas estão relacionadas com o conhecimento.

  6. O que é a felicidade senão o somatório de experiências pessoais. Cada um tem a sua, e não podem ser comparadas.
    A felicidade dos himbas não pode ser comparada à felicidade dos alentejanos, são diferentes.
    A cultura também distingue as diferentes felicidades. A felicidade de um escritor é diferente da felicidade de um analfabeto.
    A raça também distingue as felicidades. A felicidade de um alemão é diferente da felicidade de um judeu.
    A condição económica também distingue as felicidades. A felicidade de um rico é diferente da felicidade de um pobre.
    Portanto quando se diz que a felicidade pode ser construída é só uma questão de a enquadrar na felicidade pretendida.
    Felicidade pura é aquela que se obtém sem qualquer influência exterior.

    1. Sim, há diferentes felicidades e nem é preciso ir tão longe fazendo comparação entre culturas. Mas tanto aqui como na China, quando falamos de felicidade sabemos do que falamos. O conceito é universal.

  7. A meu ver, a “felicidade” é diferente de pessoa para pessoa. Enquanto há pessoas que são felizes com pouco e conseguem aceitar as adversidades estoicamente, outras há que muito pouco as preenche de modo a poderem ser felizes com o que têm.
    Festas Felizes, Teresa, beijinho ![<<-]

      1. Bom ponto, concordo que o que não controlamos pode destruir o que construirmos. Reformulo assim, a construção da felicidade é necessária mas pode não ser suficiente.

  8. A felicidade, não certamente a felicidade pura mas a felicidade possível pode construir-se. Estamos nisso atrasados séculos em relação a orientais – filosofias zen, budista, indianas – que privilegiaram o conhecimento próprio e pagaram o preço de menosprezar o conhecimento técnico-científico (achei extraordinária a descrição histórica dos primeiros relógios apresentados aos chineses que os admiraram como curiosidades mas não lhes ligaram nenhuma).
    Os ocidentais, privilegiaram o conhecimento técnico e estão a pagar o respectivo preço, mesmo sem o reconhecerem. Têm agora a possibilidade de atalhar caminho graças a mais um português expatriado. Seleccionando um pormenor do último livro que li de António Damásio , provou que o sentimento de satisfação ou agrado, se traduz numa cadeia neurónica que transmite aos músculos da cara quer o relaxamento quer o sorriso, mas que o contrário também é verdadeiro isto é, se nós conseguirmos relaxar o rosto e manter um sorriso por algum tempo, acabamos por sentir essa mesma sensação que provoca o sorriso e o relaxamento.
    E isto não é conversa. Foi uma conclusão obtida cientificamente com medições de actividade cerebral e localização das zonas cerebrais alteradas quando se induzem estímulos; foi uma conclusão publicada em revistas científicas e submetida a avaliação dos seus pares.
    O que me deprime – rio pouco, sou pessimista e muito mais infeliz do que feliz – é que essa técnica, chamemos-lhe assim, proposta por Damásio, levará uma ou duas décadas a divulgar-se, se porventura chegar a divulgação geral enquanto, logo me lembrei dos monges budistas do Tibete, máxime o Dalai Lama, que guardam um leve sorriso permanente.
    Bem sei que a aparente passividade dos orientais, máxime dos chineses, se deve a terem menos músculos faciais mas perguntei-me se isso não seria uma evolução genética por uma cultura milenar que louva a tranquilidade e desaprova esgares, momices, etc.. E também me lembrei de Agostinho da Silva de quem recordo o ar tranquilo e o sorriso fácil embora com ocasionais gargalhadas.

    1. Francisco, antes de mais, obrigada pela sua interessante reflexão. Também eu sou leitora atenta de Damásio e considero que há um antes e um depois de O Erro de Descartes. A tecnologia – que concordo, nos veio complicar a vida no sentido em que o afirmou – deu-nos, por outro lado, a possibilidade de finalmente “ver” o que se passa num cérebro vivo. Desde então foi possível perceber muita coisa, nomeadamente a influência da sua morfologia e das trocas químicas que ali ocorrem na nossa personalidade. Só este conhecimento serve para desmontar as teorias de que a Psicologia Positiva tanto gosta e que servem para alimentar a indústria dos livros de auto-ajuda. É que não basta querermos, para sermos. Se é verdade que o cérebro é o regulador de tudo o que se passa no nosso organismo, não é menos verdade que ele próprio depende da matéria orgânica de que se compõe.
      Devemos ter sempre isto presente. Também, em momento algum, devemos desvalorizar a importância da influência do meio na nossa psique. O exemplo que deu, dos monges budistas, entronca aqui. Sim, aquela peculiar forma de estar na vida talvez conduza à felicidade. É como se eles vivessem num ginásio sujeitos a um treino intensivo, 24h sobre 24h. Mas essa felicidade musculada só está acessível a muito poucos…

  9. E da discussão sobre felicidade e o seu atingir ou não, chegou-se ao vírus. Conclui-se que será uma infelicidade ser apanhado por ele. Há assuntos sobre os quais nunca penso muito. Um é sobre o que é a felicidade. Apenas sei o que é pela negativa. E mesmo assim… O que poderia ser motivo de felicidade para uns para outros não é.

    1. MariaFrade: É um daqueles temas que se tornam recorrentemente presentes na época mais propícia à realização de balanços de vida, como é, por tradição, o final de cada ano.
      Quanto a ter a discussão chegado ao vírus, não admira. Com a lavagem ao cérebro que levamos todos os dias através dos media, sobretudo das televisões, já não conseguimos dissociar o vírus de nada. É omnipresente!

  10. Como estado perene, em “repouso”, a felicidade será um ideal, horizonte (ou miragem, para os mais renitentes).Mais ou menos plausível, consoante se é positivo (“positivista” vou ouvindo dizer) ou negativo, optimista ou pessimista, alternativa muito dependente das opções filosóficas e das agruras sofridas neste vale de lágrimas. Nesse sentido digo-a uma “função”, “tende-se para a felicidade” (ou não) – analogia fragilizada por ter eu parado de estudar matemática aos 14 anos e ter apenas uma vaga memória do que é uma função.

    Nesse sentido julgo que ela é uma construção intelectual. A qual exige uma série continuada e coerente de operações, mais ou menos conscientes. Mas isso é bem diferente do “empreendedorismo” “felicitário” que muito bem pontapeia no postal.

    Já do que discordo é do que surge em comentários, a ideia de haver uma correlação entre “inteligência” (e, julgo que está implícito, conhecimento adquirido por educação formal e informal) e felicidade. Nisso de estarem os menos dotados (e menos formados) mais atreitos a uma felicidade, assim esta atirada para um estado boçal. É classista em demasia. E não é preciso ir para a literatura para aludir a personagens desesperançadas e infelizes que poderiam entrar nessa categoria pouco “refinada”. Basta correr o mundo.

    1. Olá, Jpt
      Percebo que afirmar que os menos dotados de inteligência estão em melhores condições para atingir o estado de felicidade pareça sobranceria. Mas nem tudo o que parece, é. Num análise fria e imparcial, mas absolutamente empírica, o que me parece é que a complexidade tende a obstaculizar o processo. Porque se é mais exigente, porque se tem um espírito mais desassossegado…

  11. A felicidade é intermitente. Quando a vida nos corre bem estamos felizes. Quando a vida nos corre mal andamos infelizes. É um jogo de equilíbrio constante , que requer treino , coragem , paciência e muita sabedoria. Sejam felizes ou pelo menos tentem. Nada é garantido .De um momento para o outro a vida muda e nem sempre para melhor.

    1. Jorge,
      Mas estar feliz não é o mesmo que ser feliz. A discussão que levantei é mais sobre este último estado, que implica uma relação com a vida de molde a alcançar essa condição de forma estável. E isso é difícil e está ao alcance de poucos. Qual o perfil desses happy few? That is the question.

  12. desculpe a grosseria
    não mando os políticos à MERDA nem para a P q P
    porque conhecem bem o caminho

    5 anos de geringonça 36 mil milhões de aumento da dívida pública

    para eles
    felice ano nuovo

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