O léxico é importante. Importantíssimo. Desde que na semana passada foi atribuído o Nobel da Literatura a Abdulrazak Gurnah que vai por aqui e acolá uma acesa discussão. Escritores e proto-escritores, literatos e candidatos a tal estrado, e até jornalistas, botam sobre a “condição” “identitária” do premiado, questão que consideram sumamente importante. Nessa já polémica duas características partilham os opinadores: nada leram do autor; confundem “representante” com “representativo”. Insisto, o léxico é importante. Importantíssimo. E mais o deveria ser para estes núcleos de “identidade” laboral.
ADENDA: (meu pensamento do ano) Sobre este assunto a Lusa (agência noticiosa estatal) noticiou que Gurnah é o primeiro escritor africano a receber o Nobel nos últimos 30 anos, saudando que ele “quebrou o “jejum”, depois do nigeriano Wole Soyinka ter sido laureado em 1986“. O facto de que em 2003 o prémio tenha sido atribuído a Coetzee – um daqueles raros casos em que é curial afirmar ter o Nobel sido galardoado com o Prémio Coetzee – é apagado. Não se trata de um erro, até porque o escritor é muito conhecido e bastante traduzido em português. E porque também apagam os anteriores Mafhouz (1988) e Gordimer (1991). É mesmo uma proclamação, a invectiva ao “branco” – a usual e lamurienta auto-invectiva, neste caso da agência estatal portuguesa. E é essa a sede desta pobre polémica de aparência literária: do que toda esta gente anda a falar é de “raça”. Cada um com os seus dislates. A quererem-se assertivos. A assertividade da vacuidade.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Nobel morre anualmente de desgosto
Ateu que sou estou ciente de que o homem se morreu para sempre logo à primeira vez.
Ignorantes, pois, nesse caso, também não deviam contar com o Abdulrazak Gurnah, que é árabe. E com a diferença que o Coetzee nasceu e viveu em África até aos 62 anos, enquanto o Gurnah foi “retornado” (na lógica dos bantus do Zanzibar) aos 18 anos.
Nem é apenas uma questão de ignorância, é mesmo de atrevimento.
Mas ninguém diz que a Lusa é “extremista”…
Não sei, não acompanho o que se diz sobre a agência.
Eu não sei se o léxico é assim tão importante, desde que vi o Bob Dylan receber o Nobel da Literatura quer-me parecer que o mais importante é mesmo a cacofonia.
É o seu gosto. E se os gostos se discutem vou crente que não vale a pena, pois nisso não se chega às conclusões.
Se me conseguir explicar porque é que o prémio Nobel da Literatura é dado a um músico talvez eu consiga compreender a importância da discussão da atribuição do prémio Nobel.
Carlos Sousa não posso mentir, ao longo dos anos fiz parte de um punhado de júris de premiação, num largo espectro de actividades, desde artes plásticas a concursos de beleza feminina, para demonstrar a abrangência dessa minha costela avaliativa. Mas, mesmo assim, infelizmente ainda não fui contactado pela Academia Sueca para integrar o júri daquele Nobel literário. Como tal não me competirá a mim dissertar sobre as razões que conduziram a esse prémio.
Apenas posso comentar a sua opinião que remete a obra de Dylan para uma cacofonia. Repito o que acima disse: “É o seu gosto. E se os gostos se discutem vou crente que não vale a pena, pois nisso não se chega às conclusões.”
« Dario Luigi Angelo Fo [ˈdaːrjo ˈfɔ] (Sangiano, 24 de março de 1926 – Milão, 13 de outubro de 2016)[1] foi um escritor, dramaturgo e comediante italiano.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1997
Cumprindo, o Dario Fo, uma velha tradição literária.
Porquê frisar/necessitar de no esclarecer que a Lusa é uma agência noticiosa estatal.
A Lusa, descendente da ANI, sempre foi estatal. Estatal ou pública?
Qual seriam as diferenças se a Lusa fosse uma agência noticiosa privada? Será que os acionistas não dariam a mesma notícia?
Todas as instituições, empresas ou não, obedecem a códigos. E nisso, seja sob o ponto de vista jurídico ou ético, nos convoca avaliações. Mas quero crer que há uma diferença entre uma empresa privada de notícias asneirar devido a implícitos ideológicos (ou submissão a uma agenda política) ou que isso aconteça numa agenda estatal (ou público, nessa destrinça jurídica a que apelou). Ou seja, eu posso lamentar o asneirame das privadas mas tenho que me opor a que a empresa pública (ou estatal) de notícias siga a vilania do aldrabismo.
Certo.
Mas, ‘…a empresa pública (ou estatal) de notícias siga a vilania do aldrabismo’, vêm da EFE, da Reuters, da ANSA, da France Presse e doutras agências internacionais que praticamente noticiam, todas, a mesma coisa. São todas umas grandes aldrabonas.
como se costuma dizer: com a desgraça dos outros posso eu bem…
Caro jpt, não convém ser demasiado duro para com a Lusa no caso em apreço. Li a mesma notícia apresentada nos mesmos moldes em jornais de outras paragens. O que se pode imputar à Lusa é o facto de ter omitido (por prurido ignorante?) o qualificativo que os outros media evocam expressamente: negro. “Escritor africano negro”. A omissão acaba por falsificar o conteúdo veiculado.
Ao que parece, os festejos identitários acabaram estragados devido ao facto de o dito autor não ostentar uma vagina. Nem que fosse na testa. Fogueira com ele.
Sim, mas como eu digo acima noutro comentário “com a desgraça dos outros posso eu bem”. Quanto ao que refere, acertadamente, sobre a recepção do prémio de 2021 temo, ainda que não o possa afiançar, que o escritor Gurnah siga com a condição cisgender, o que a ser verdade será um verdadeiro deslustre para a Academia nobel
Irra, que o homem não é “negro”. É árabe. Salvo para racistas, um árabe escuro não deixa de ser um árabe, conceito perfeitamente evidente para os bantus locais, que os massacraram aos milhares (aos que não conseguiram fugir, como o ora Nobel), aos claros e aos escuros, na Revolução de Zanzibar em 1964.
pois, passa muito por aí
Achille Mbembe, um dos epígonos do “pensamento” que nos submerge é o autor da frase “The idea of an Africanity that is not black is simply unthinkable. Whence the impossibility of conceiving, for example, the existence of Africans of European, Arab, or Asian origin—or that Africans might have multiple ancestries”. O Africânder Coetzee, por isso, não é “africano”, apesar de os antepassados dele terem chegado ao território sul-africano há 300 anos, ou a judia Gordimer, ou os indianos que vivem no Quénia ou em Moçambique, ou os mulatos com que “povoámos” as nossas antigas colónias. E defender isto não é racismo. Mais: é o contrário de racismo. Dizer que isto é, literalmente, racismo é que é racista.
…” Lusa (agência noticiosa estatal)”
Caro senhor
No trecho copiado acima não é apenas o “léxico que é importante”: neste caso é um eufemismo em que a agência de propaganda e ideologia estatal, é dita noticiosa ( interrupção voluntária em vez de aborto, etc, etc).
Mas como os media ( outro eufemismo) perderam o sentido crítico que uma imprensa independente é suposta ter, tudo passa…!
Melhores cumprimentos
Vasco Silveira
Não é um eufemismo, é uma descrição relativamente adequada da empresa. Não se exagere, o fluxo noticioso da Lusa nao é apenas propagandístico…
É o que dá quando o racialismo, que é a sua própria ratoeira, substitui o “pessoalismo”.
O racialismo é a mãe de todos os racismos. E muitas vezes é mesmo isso, o puro racismo.
Queriam ter escrito afro-africano.
sim
Poderia mencionar-se ainda Doris Lessing, que viveu um ror de anos na Rodésia.
julgo que é um caso bastante diferente.
“Naturalidade” de Rui Knopfli
NATURALIDADE
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina europeias e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem a raíz de algum pensamento europeu.
É provável… Não, é certo, mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada, caso-me mais à agrura das micaias e ao silêncio longo e roxo das tardes com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez e planuras sem fim com rios langues e sinuosos, uma fita de fumo vertical, um negro e uma viola estalando.
…
Rui Knopfli filho de europeus “brancos”, nasceu em Inhambane, costa Ocidental de África, por acaso à época território sobre administração de Portugal, uma País europeu dito de “brancos”, como se sabe.
RK vivenciou a sua África, e tal como Camões, preza -na sua poesia- o “saber de esperiência feito”.
Além disso também foi um incomparável Poeta, em português.
Do Knopfli também gosto deste, que um dia usei como epígrafe de um texto:
Feita de lavras
em pousio e esperança adiada
pertencemos todos a esta áfrica lusitana
que pelas outras se expandiria. Por estas
andámos perdidos, ignorando então
que a passagem obrigava ao regresso.
Para um pouco de consolação, eis que o maior prémio literário espanhol, o Prémio Planeta, acaba de ser atribuído a essa grande e aclamada autora de policiais chamada Carmen Mola.
Que, veio a saber-se na hora, é afinal um pseudónimo… de três estarolas. Ahahahahah!