Hoje em dia, qualquer obra artística que não cumpra determinadas quotas ou que não siga determinadas narrativas arrisca-se a ser considerada qualquercoisaógina, qualquercoisaista ou qualquercoisafóbica. Há quem consiga ver racismo no Pulp Fiction, misoginia nos Kill Bill e transfobia no Silêncio dos Inocentes. Estive há poucos dias a rever alguns episódios de Coupling, uma série britânica de humor que segue a vida amorosa e sexual de seis amigos: os seus protagonistas, três homens e três mulheres, são todos brancos e heterossexuais. Vinte anos depois da sua exibição, quantas produtoras arriscariam produzir algo semelhante sem a exigência, à laia de caderno de encargos, de alguma diversidade?
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Eu já não sei se é a isto que chamam o novo normal. Quando consideram normal promover o que não é normal começo a ficar complexado e chego à conclusão que sou um grande anormal.
Será que se eu organizar uma parada de orgulho macho ainda terei fêmeas femininas ou já estarão todas geneticamente modificadas?
Não precisa de autorização das autoridades para organizar uma parada? Se sim, boa sorte com essa: tenho a certeza de que lhe seria vetada por “discurso de ódio” ou coisa parecida.
Pode ser novo … mas normal não é … que eu saiba a “norma” biológica ainda não mudou.
Lamento informar mas a ” norma “biológica mudou, já não é como antigamente.
Parece que o género agora já não é só binário, também há o género não-binário.
Modernices, o que é que se há-de fazer?
Joana Sousa tem o espírito enviesado de quem cresceu encarando com naturalidade histórias de assédio como a Branca de Neve ou a Bela Adormecida, leu na infância o racista Tom Sawyer ou os Cinco, em que o Tim era subalterno dos seus familiares humanos. O João perpetua a ideia que só o Leão pode ser Rei, quando o Simba podia e devia escolher o seu género livremente.
Caramba… essa bateu-lhe forte.
Vi há uns tempos um documentário sobre os Monty Python e é incrível como a BBC lhe entregou um temporada de programas, apenas a partir de uma maquete com poucos minutos.
Actualmente isso é possível através do Youtube, mas nenhum canal, muito menos público, teria coragem ou liberdade para fazer algo parecido.
Nem é preciso ir à BBC e tão longe no tempo. Este sketch dos Gato Fedorento passaria hoje?
O nome BBC tornou-se uma ideia abstracta que, amiúde, está distante daquilo que é agora o canal de televisão que usa esse nome. Quando a BBC, depois do despedimento de Jeremy Clarkson, anunciou o painel de apresentadores para a nova temporada do Top Gear, li muitos nos fóruns (incluindo vários que concordavam com o afastamento de Clarkson) pessimistas com aquelas escolhas que “tresandavam a comité tentando satisfazer o máximo de demografias”. E a verdade é que aquele grupinho, mesmo tendo lá gente muito estimável (esqueçamos Chris Evans), não tinha qualquer química no ecrã.
Este também não passava…
https://www.youtube.com/watch?v=3wkML-H WgP4
Saudades dos Gatos Fedorentos.

Muito bons estes vídeos.
engraçado, engraçado, é que o RAP é agora um acérrimo defensor de todas as tretas woke. tinha piada desenterrar esses vídeos, à moda dos EUA, e acusá-lo de racismo e xenofobia, a ver se o gajo era cancelado… estou farta de hipócritas.
Quando o corpinho se habitua a um certo estilo de vida burguês, alguns descobrem quão flexivel consegue ser o espinhaço.
Sempre houve críticas e perseguições a quem era considerado fora da norma. A norma mudou e agora os perseguidos são outros.
A palavra censura em português pode ter dois sentidos, o sentido de proibir e o sentido de considerar não aceitável, sem proibir.
Se proibir é mau só quem está mal habituado confunde as duas atitudes.
Quando sinto a tentação de considerar como um fenómeno recente aqueles que andam sempre por aí de martelo na mão à procura de algo que faça as vezes de prego, recordo-me dos críticos e académicos negros americanos que criticaram o Shaft original por “se mostrar demasiado confortável no meio dos brancos”.
Por isso hoje as séries e os filmes do novo normal desaparecem de cena a toda a velocidade.ninguém os vê.
Desaparecem, muitas, depressa porque com a multiplicação de plataformas de exibição e a democratização dos meios de produção, as produtoras criam imenso barro para atirar à parede e ver o que pega. Continua a haver qualidade mas está mais diluída na quantidade.
Sem dúvida. E essa moda está a matar a sétima arte. Se há algo imprescindível na arte é a liberdade de criação. Hoje vemos nas séries e filmes uma diversidade metida a martelo, que se topa à distância, e não deixa de ser injusta para com os actores negros (que parecem estar lá só para cumprir a quota). Na saga de livros “The Witcher”, escrita pelo polaco Andrzej Sapkowski, surgiam duas personagens femininas cujo traço distintivo era possuirem longas traças louras. Na adaptação da Netflix essas personagens são protagonizadas por … atrizes negras. Pois claro, faz todo o sentido.
As melhores séries de comédia (Monty Python, Seinfeld, Blackadder, Allo Allo, All in the Family, Friends, etc) nunca seriam aprovadas actualmente nos mesmos moldes. Aliás, numa entrevista relativamente recente o John Cleese reconhecia que no actual estado de coisas os Monty Python nunca teriam visto a luz do dia. Seria um mundo bem pobre se os Monty Python nunca tivessem existido.
Personagens secundárias pouco mais importantes do que figurantes glorificados sempre houve, por isso não creio ser aí que a coisa piora. Transformar personagens é algo que detesto, mesmo coisas simples como numa série recente baseada num livro de Agatha Christie em que o Poirot, representado por John Malkovich, aparecia de barbicha: eu tendo sempre a ser maximalista no respeito pelas opções do autor e/ou do contexto histórico das obras em adaptação.
Mais injusto é ver nomeações destes artistas para um qualquer prémio e ficar a questionar se isso se deveu ao seu trabalho ou à intenção de satisfazer uma qualquer quota. É verdade que eu há muito relativizo os prémios, principalmente os de Hollywood: nunca me esqueço de que Michael Moore foi premiado como “documentarista”. Mas recordo-me de quando Denzel Washington recebeu o Óscar de melhor actor, ou Kathryn Bigelow recebeu o prémio de melhor realização, eu pensar na cor da pele ou no sexo como um simples detalhe estatístico sem relação com as respectivas nomeações e atribuições. Este ano, parecia ter havido um formulário com quadradinhos para preencher – como os formulários online que têm “campos obrigatórios”.
Sim, tem razão.
Mas pior que o Poirot de barbicha é o Sherlock Holmes como herói de filmes de acção…
Ui, nem me fale nisso. Eu gosto bastante do Guy Ritchie mas aquele Sherlock Holmes meio avinhado e mitra faz-me urticária. A parte da acção nem me perturba demasiado porque, se lermos as histórias originais de Doyle, percebemos que o Holmes dele é, além de analítico, um homem de acção: hábil com a pistola e a espada, conhecedor de boxe e artes marciais, e capaz de passar dias seguidos a investigar um caso sem ir dormir a casa.
Há uma imensa falta de coragem (e preguiça criativa) e muitos filmes em que se “reinventam” ou “actualizam” os clássicos fazem-no por nenhuma outra razão senão garantir retorno financeiro com nomes reconhecidos. Que se criem personagens novos, mesmo se inspirados nos clássicos: Gregory House, por exemplo, é em parte inspirado no Sherlock Holmes – mas não precisou de se chamar Sherlock Holmes para se tornar um sucesso.
Ja tivemos a Lady Marian versão amazona. Ou o van helsing a empunhar metralhadoras besteiras.
Quando fala no Val Helsing, penso ser o filme de 2004 com Hugh Jackman. Van Helsing é o pior filme da história do cinema: isto não é uma opinião, é um facto matematicamente demonstrável. Eu não sou um homem complicado: se a Kate Beckinsale está lá, eu vejo. Eu consegui até ver o atroz remake de Total Recall. Mas apesar de Van Helsing ter a Kate Beckinsale no pico da forma aos pinotes numas calças de licra, eu já tentei duas vezes e nunca terminei o filme: meia-hora foi o meu recorde. Aquilo é um falhanço tal que nem chega a ser um guilty-pleasure: só vergonha alheia.
Eu, que até filmes do steven seagal vejo, nao completei esse. Ja vi início, partes, talvez tenha visto o final. Nunca completo. A reinvenção de heróis adaptando-os aos tempos modernos é do pior que se faz. Mas deve haver quem goste.
O resultado erá o deserto cultural histórico de qualquer sociedade marxista.
Digo com frequência: as distopias escritas como avisos por autores clássicos de ficção científica são lidas por alguns como se fossem manuais.
Agora percebe-se porque é que Tarantino disse que não faria muitos mais filmes.
Isso talvez também seja porque Tarantino já não tem muito mais para pilhar. E digo aqui “pilhar” em bom sentido: Tarantino faz-me lembrar os produtores musicais que misturam uns samples de discos velhos e esquecidos em algo novo e coerente.
O último, o Era uma vez em Hollywood, é um bom exemplo – e é talvez o seu melhor trabalho.
Em resumo… “Cala-te e obedece” 😉
Grande Abraço 🙂
Para um filme ser financiado, precisará de ter uma determinada “pontuação social”.
Isto já vem de longe, muito longe. Lembro-me perfeitamente que esta realidade me atingiu como um piano em queda livre em 91, em plena sala de cinema, a ver o Robin Hood com o Kevin Kostner e a Mary Elisabeth Mastrantonio. Que Marion era aquela a despachar soldados do Xerife de Nottingham a soco? É que Robin era aquele, pesadão e a fazer discursos motivacionais? O meu Robin Hood é rápido como um falcão e elegante como uma raposa. Foi assim que o li e foi assim que o Errol Flynn o interpretou nas longas tardes da minha infância. Nessa noite percebi que estavam a matar (reinventar, imagine-se!) os meus heróis.
Imagine o que seria uma hipotética versão moderna do Scaramouche.
Seria,sem dúvida, uma espécie de Joker atormentado pela sua própria sombra e permanentemente deitado no divã.
Valha-me a série Bridgerton, que dentro do gênero é muito boa. A série tem multiculturalismo racial? Tem, mas não precisa de vender “ideologia” a cada episódio.
Não conheço a série – e admito que ser produzida pela perpetradora do interminável Anatomia de Grey colocar-me-ia logo de pé atrás.