Há muitos que, por terem apenas um martelo como ferramenta, pretendem ver em tudo um prego a precisar de ser martelado.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.
Há muitos que, por terem apenas um martelo como ferramenta, pretendem ver em tudo um prego a precisar de ser martelado.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.
O problema é que há pregos que têm a mania que são parafusos.
Se quisermos ser exaustivos, até há aqueles que nuns dias se acham parafusos e noutros se dizem pregos.
Se quiséssemos mesmo ser exaustivos não dávamos marteladas com um martelo figurado.
Se fossem só os juízes não vinha mal ao mundo, mas mesmo assim podiam ser mais céleres no fecho dos processos.
Os processos, estou convencido, são demorados porque o sistema, com os seus labirintos legais e as sucessivas camadas de “direitos e garantias”, para isso está concebido. Quase me faz pensar que a deputação, em grande parte vinda da advocacia, assim vai garantindo muitas horas de facturação para a sua profissão.
E são todos também muito processuais.
Ouvi há dias uma opinião que me pareceu fazer sentido embora não seja praticável. Os códigos que regulam os processos da justiça deveriam ser formulados por engenheiros, claro que teriam de ter assessoria de juristas, mas seriam os primeiros a ter a última palavra. Que tal?
Quem já tentou fazer fluxogramas com procedimentos jurídicos sabe que nada daquilo faz sentido no mundo da engenharia. Que se rege por regras definidas.
É uma ideia com piada mas eu, que trabalho em informática, estou convicto de que os engenheiros são tão capazes de complicarem aquilo que devia ser fácil como os advogados e juristas. Mais: há demasiados maus produtos de tecnologia porque os engenheiros em questão, apaixonados pelo seu próprio engenho, preocuparam-se mais com o “se podiam fazer” do que com o “se deviam fazer” (parafraseando o dr. Malcolm de Parque Jurássico). Na minha opinião, as actuais smart-tvs são atrozes produtos de engenharia/tecnologia – e estremeço ao pensar num equivalente legislativo feito por engenheiros.
Os advogados e juristas não resolvem o esparguete legal porque não o querem fazer, não é por incapacidade. Um cliente, inglês que mora cá há décadas, contou-me certo dia como, pouco tempo antes de ele se divorciar da ex-mulher, a legislação inglesa relacionada aos processos de divórcio foi “limpa e simplificada” – e num dia, preenchendo alguns impressos e pagando uma centena de libras, os dois fizeram aquilo que antes precisaria de semanas e advogados.
Tenho demasiados anos de D.R. para pensar que aqueles legisladores sabem o que estão a fazer (ou escrever). Cheguei a apanhar 2 alíneas consecutivas que se anulavam, tudo porque metia questões relacionadas com matemática, e quem redigiu percebia tanto desses conceitos como eu da plantação de cenouras.
Mas o que sempre me “entusiasmou” não foi tanto a complexidade dos processos (piners, como diria o outro), mas sim a arbitrariedade com que aqueles aconteciam. As coisas aconteciam não por que fossem despoletadas por acções mas “porque sim”, sendo que tanto podia ser assim como não, conforme.
A terminologia é outra situação fascinante. Certa vez, enquanto parte interessada, tentei que um advogado me explicasse como um contrato que nunca fora denunciado ou quebrado por qualquer das partes deixara de estar válido. Mas também não estava inválido, tendo de ser cumprido. Estava num limbo (não me lembro do termo, apenas que nunca o ouvira antes), sendo que o que levou à mudança de estado também nunca teve explicação lógica.
“… quem redigiu percebia tanto desses conceitos como eu da plantação de cenouras.”
Provou o ponto: cenouras são semeadas, não plantadas.
com a ressalva de que eu admito, não me comprometo a ajudar alguém a fazer as suas saladas, e portanto mantenho-me afastado dos cenourais.
Joao Sousa, enquanto engenheiro tenho algumas (bastantes/imensas) dificuldades em perceber aquela diferença entre a letra de lei e o espírito da lei. Se calhar é porque para além de não ter formação jurídica, me falta aquela ligação ao Iemanja.
Pois é João,
Mas quem acha que os divórcios são complicados em Portugal, é porque nunca tentou despedir um empregado. Isso sim, é um acontecimento jurídico de primeira grandeza.
Tantos… e tantos que acreditam genuinamente ver pregos em todo o lado.
O culto da híper especialização, o ensino secundário dividido já por áreas muito limitadas (uma imbecilidade), e a fragmentação inevitável dos cursos superiores não são isentos de culpas nisto. Acabamos por ir afunilando a forma de pensar desde muito cedo, viver nas nossas bolhinhas, e achar que sabemos o suficiente para opinar sobre as bolhas alheias.
O ensino é uma causa na vertente técnica. O fenómeno, ampliado pela facilidade de comunicação das redes-sociais, de “tribos” que se cerram em si mesmas e auto-alimentam, parece-me outra importante causa e raramente abordada.
Não sei como está agora mas enquanto andei no secundário não achei que a divisão estivesse mal feita, já no ensino superior a profusão de cursos era já na altura por demais evidente e agora ainda deve ser pior.
Ideias simples são uma coisa, ideias simplistas são outra e penso que este pensamento ilustra bem isso.
WW
No Rui dos pregos são bem martelados, saiem apetitosos, acompanhados com uma imperial fresquinha é um manjar dos deuses.
Estou a ver que o Anónimo é um epicurista.
Os piores são aqueles que além do martelo também têm a foice, cruzes canhoto!
Não é uma ideia isenta de mérito.