Pensamento da semana


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“O nacionalismo não só levou, de facto, historicamente a Europa à beira da ruína, como contradiz ainda o que a Europa é pela natureza espiritual e política, embora ele haja dominado as últimas décadas da história europeia. Daí que sejam necessárias instituições políticas, económicas e jurídicas supranacionais, que certamente não pretendem construir uma super-nação mas que, ao contrário, devem devolver, fortalecidas, às diferentes regiões europeias o seu rosto e peso próprios. Instituições regionais, nacionais e supranacionais devem imbrincar-se de tal modo que tanto o centralismo como o particularismo sejam excluídos.”

(Joseph Ratzinger, Os Fundamentos Espirituais  da Europa. Leça da Palmeira: Letras e Coisas, p. 32. Texto da conferência “Uma herança responsabilizante para os cristãos”, 1979.) 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

93 comentários em “Pensamento da semana”

      1. Luís Naves escreveu, num post de há uma ou duas semanas:

        o nacionalismo não foi a causa directa de nenhuma das três calamidades europeias no anterior milénio (peste negra do século XIV, guerras religiosas do século XVII ou fascismo e comunismo no século XX)

        Ratzinger escreveu:

        O nacionalismo […] levou, de facto, historicamente a Europa à beira da ruína

        Parece-me evidente que Luís Naves só pode discordar de Ratzinger.

          1. Por acaso, quando estou na minha casa da aldeia no inverno cozinho a lenha. E é um facto: a comida fica muito mais saborosa.

  1. Uau, é sempre bom saber! Discordo de muitas coisas ditas pelo Ratzinger/Bento XVI mas essa parece-me muito avisada.

    E também achei muita graça quando a propósito dos conclaves ele disse que existia a presença do divino Espírito Santo em muitos mas, estudando a história, não em todos.

    1. Ele disse isso?! Uau!!!

      Parece-me extremamente espantoso como, estudando bem a História, se consegue discernir a presença do Espírito Santo em certas ocasiões, noutras não. Para que serve o estudo da História!!!

      (E eu que pensava que Deus estivesse em toda a parte…)

      1. eu sou ateu e nada sábio em coisas teológicas, cristãs ou outras. Mas tenho a ideia, Luís Lavoura, que o catolicismo não nega a existência do livre-arbítrio e não a opões à omnipresença divina. Se assim for (e pode ser que algum visitante me possa esclarecer sobre este ponto) o seu (malévolo?, demoníaco?, blasfemo?) comentário não terá grande fundamento.

      2. É muito fácil, Lavoura, pois é pelos frutos que se conhece a árvore, pois não se pode colher figos de abrolhos.

        Exemplo: Se o meu caro pretender fazer comunicar computadores com linguagens diferentes, do tipo linguagem EBCDIC e Linguagem ASCII, você necessitará de um tradutor para poder estabelecer a ligação.

        O Espírito Santo é isto mesmo, um tradutor. Uauuu!, tão simples e tão complexo!!!!

          1. Sentimo-nos sempre excluídos quando desconhecemos. Mas a Sabedoria é para todos. Basta procurar;
            “Batei e abrir-se-vos-á; procurai e encontrareis; pedi e ser-vos-á dado”.

      1. Fui agora à procura da observação do então cardeal Ratzinger, foi produzida em 1997, era papa João Paulo II, Bento XVI foi papa de 19Abr2005 a 28Fev2013, e encontrei a referência ao comentário em mais do que um sítio, designadamente neste da Time (https://ideas.time.com/2013/03/11/does-the-holy-spirit-choose-the-pope/ ) onde consta:
        «
        Ironically, one of the most famous comments about the actions of the Spirit in a conclave came from the person who is now the Pope Emeritus. In 1997, when asked on Bavarian television whether or not the Spirit chooses the pope, the then Cardinal Joseph Ratzinger answered:

        “I would not say so, in the sense that the Holy Spirit picks out the Pope…I would say that the Spirit does not exactly take control of the affair, but rather like a good educator, as it were, leaves us much space, much freedom, without entirely abandoning us. Thus the Spirit’s role should be understood in a much more elastic sense, not that he dictates the candidate for whom one must vote. Probably the only assurance he offers is that the thing cannot be totally ruined.”

        Then the German theologian got to the heart of the matter: “There are too many contrary instances of popes the Holy Spirit obviously would not have picked!”
        »

        Os cardeais pedem a ajuda do Espírito Santo e a intercessão dos Santos quando estão a entrar no Conclave mas nem sempre são ouvidos…

        1. Pois, é um pouco aquilo a que acima aludi, à tal coexistência entre a omnipresença divina e o livre-arbítrio humano, algo que alguns outros comentadores renegam, ao que parece.

  2. Falta dizer como.

    É como um cardeal dizer que basta termos amor todos uns pelos outros que o mundo se torna um melhor lugar. É verdade, mas não serve para nada, porque não se pode obrigar ninguém a amar ninguém.

    1. jo não percebi bem o seu comentário mas avanço, ainda assim, face ao seu “falta dizer como” que isto é um breve excerto de um pequeno livro (mas lê-lo poderá ajudar a suprir algumas das suas dúvidas, sobre esse “como …”, pelo menos sob alguns pontos de vista). E ainda mais, é um “pequeno livro” inserido numa vasta bibliografia do autor. Posso portanto dizer que é algo injusto dizer, sobre uma breve citação – que é o adequado a uma rubrica como este “pensamento da semana”, aqui não se espera que eu deixe ligação para um pdf de documento extenso – que “falta dizer como” como se isso apoucasse o expresso.

    2. Tem toda a razão, jo. O amor só pode ser mandado se antes nos tivesse sido dado. E este amor, que é promovido por Jesus e aceite também por cristãos, não se trata de um sentimento. Mas antes promover o serviço ao próximo. Ama-se também quando se veste o nu, se oferece água a quem tem sede, cuida-se de quem está doente, abriga-se o sem tecto… E para isto não é necessário sentimento, mas o Amor que importa descobrir.

          1. Endógena é a revolução interior, exógena é a acção fruto do despertar.

          2. Aludi a endógena pois esse “despertar” ao invés de “revolução” é um discurso cristão, endógeno. Outros dirão, sem acinte, “revolução” (cultural, se o termo não estivesse poluído por “chinesices”)

  3. O Papa emérito, Ratzinger, sabe sobre o que escreve, pois o tão célebre “aggiornamento” promovido pelo Papa Bom (João XXIII) no Concílio Vaticano II é disso mesmo prova de sucesso ( a ICAR está no mundo todo). Ainda que existam umas franjas nacionalistas, como é o caso chinês, que pretendam corromper a vida dos cristãos no seu interior, e também muitos dos países árabes e/ou muçulmanos.

    Na vertente secular, as instituições supranacionais começaram por impor o contra-senso e serviram para aprisionar nações e adulterar os princípios ontológicos e antropológicos da humanidade, fazendo prevalecer os ideais de grupos marginais sobre o comum.
    Prova disto foram também as tentativas feitas pelo clube de Bilderberg na edificação da “nova ordem mundial”. Ordem esta que ruiu com a tomada por parte da Rússia, por ter sido ameaçada, da Crimeia, parte da Ucrânia e com a operação de sucesso no médio oriente ao derrotar o isis e restabelecer as fronteiras da Síria. Procurando, assim, devolver aos países circunvizinhos, como é o caso do Iraque, a possibilidade de retomarem as suas origens e fronteiras na prossecução de uma ordem estável e respeitadora da diferença.

    O caminho não está concluído. Queiram os servos das instituições supranacionais, como também é o caso da dita esquerda que hoje se constitui directa e indirectamente em Portugal (PS/BE/PCP/LIVRE/PAN) como pseudo-governante, ter a dignidade de respeitar a dignidade de uma nação, começando também por não ceder à especulação imobiliária que aí está também para servir os interesses financeiros, aqueles mesmo que construíram a célebre bolha, promovendo nova corrida ao crédito à habitação e despojando tantos outros de suas habitações.
    Isto também é corromper a dignidade de um povo.

    1. Vento, partir desta citação deste autor para contestar a bolha imobiliária, a qual aparentemente liga à fluida geringonça actual, é obra …

      1. O meu caro leu mal. Eu critico o Papa emérito no que respeita à vertente secular e enalteço o “aggiornamento” (actualização) edificado pelo Bom Papa João.
        A especulação imobiliária é um exemplo que serve para demonstrar que os erros do passado são os mesmos do presente, embora os discursos aparentem ser mais “limpos”. Portanto, o supranacionalismo não serve e não servirá os povos, porquanto retira aos povos a sua especificidade e identidade. É também este gerador de tensões, como o foi no caso da Crimeia, Ucrânia e médio-oriente.
        Tem de voltar a ler o texto; não só o texto como também o contexto.

        1. Sim, disparei antes da minha própria sombra. Eu não concordo (não “trabalho”, não penso) com as suas categorias – “nação” como princípio ontológico e antropológico, é o que depreendo do que escreveu, o que não implica que ilegitime as nações (e os Estados actualmente existentes). E também me parece que a globalização desregulada (acima de tudo economicamente desregulada) não é caminho seguro e profícuo para nada (que é o que depreendo quando fala da bolha ). Quanto ao resto, e aí volto à minha primeira morteirada, neste campo não me parece que o problema seja a geringonça actual

          1. Meu caro jpt, nação não é um conceito abstracto. É um conjunto de pessoas em torno de uma identidade. Não obstante a existência de uma identidade, há conceitos de uma identidade comum em cada pessoa: o amor, a bondade, a generosidade, o acolhimento…; sendo estes Universais e não supranacionais.
            Aqui chegado, e na vertente da supranacionalidade, entendo que nada pode estar acima quer da identidade quer dos conceitos identitários supra referido.

            Assim, internacionalização e universalidade não possuem o mesmo significado de supranacionalização. Porque a primeira, inserindo-se, respeita o comum e o diferente (identidade) e a última sobrepõe-se. E sobrepõe-se porque, como se tem verificado, subjuga, também através dos supostos governos, e viola os princípios enunciados em favor de interesses económicos claramente particulares: ainda que possam ser particulares de um grupo ou instituições.

            Finalmente, a bolha serve exactamente para referir que o discurso em torno do ataque aos especuladores encapota a realidade de que esses mesmos especuladores voltaram.
            Em Portugal, o ano passado, uma instituição bancária viu sua taxa de concessão de empréstimos à habitação subir 34%. Sabendo como se sabe que o dinheiro que a banca empresta vem de outros banqueiros externos, e conhecendo-se a realidade imobiliária da nação, bem como as lei em torno da habitação e rendas, será fácil depreender que eles regressaram depois da miséria semeada, que ainda não acabou, e por consentimento.
            Mas também para confirmar o ditado que tanto “é ladrão o que rouba como o que fica à porta”. Logo, a economia não pode e não deve ser só para uns; e não importa legalizar porque a legalização jamais subverterá o(s) princípio(s).
            Porém existem muito mais exemplos para além do imobiliário.

          2. Pois, sobre os processos de “supranacionalização” ou “globalização” ou outro termo financeiro-económica não estamos em radical desacordo. Há uma desregulação política dos sistemas económicos que é um “imperialismo” sem bandeira, tornando países e regiões em meros protectorados (como antes se dizia).
            Quanto às dimensões substantivas, com características ontológicas (naturais, se quiser), das “nações” aí vou diferente. Países são invenções, ainda que reais, e as nações, sempre sacralizadas nos discursos e sentimentos, também – para nós, portugueses, país e nação de longa duração, isto torna-se menos normal de aceitar. Com isto não as ilegitimo, bem pelo contrário, mas esta visão impede-me (e ainda bem) de proceder à sua absolutização (naturalização) que as noções que V. convoca permite (e até convoca).

          3. Não existe nada de absoluto em termos de identidade nas nações, pois esta constrói-se.
            O que se torna absoluto são os restantes aspectos comuns extra-nações. É o que habita o ser (ontologia) que determina a universalização.

    2. O Iraque é ele próprio um produto desse supranacionalismo, uma construção artificial centrada na antiga Mesopotâmia juntando sunitas, xiitas, curdos, árabes dos pântanos, etc. De qualquer maneira, é difícil conceber a ausência de entidades supranacionais, como a ONU e a CEE/UE, ou admitir que estaríamos melhor sem elas.

      Também não acho, sinceramente, que o PCP seja um “servo das instituições multinacionais” (actualmente é bem mais nacionalista), ou que possa ser colocado ao lado do PAN sem mais.

      1. Pois, acho que deixei num dos comentários a este postal (respondendo aos leitores) uma alusão a isso: a ideia de que ao país corresponde uma nação é muito recorrente nos portugueses, quase epidérmica, pois o nosso Estado-Nação assenta num uninacionalidade desde há séculos. Mas de facto imensos países, mais antigos ou de XX, são construções supranacionais, moldando muitas vezes um artefacto “Estado-Nação” outras nem tanto. Mas o discurso “nacionalista” – por vezes anti-europeísta – não atenta nisso.

        O PCP abandonou há muito o m-l do “internacionalismo proletário” e assenta numa espécie de nacionalismo defensivo, um “soberanismo” que partilha com várias forças de direita e esquerda por essa Europa. Nem sequer é “o socialismo num só país”, é mesmo uma perspectiva defensiva avessa ao transnacionalismo. O que também é interessante, pois as confederações partidárias (a Comunista, e a Socialista) desvaneceram-se nesta era de globalização, uma aparente contradição.

      2. Com referi, João Pedro Pimenta, a identidade constrói-se. A antiga Jugoslávia, de Tito, também ela foi considerada uma elemento agregador até que tudo se desagregou com a queda do muro. E a Jugoslávia não podia ser considerada uma serva da URSS, pois ela, com Tito, demostrou muito bem a sua autonomia e estabilidade social.

        Cito anterior exemplo para dizer-lhe que o Iraque encontrava-se em uma situação semelhante, até que os supranacionalismos de Bush filho transformaram no Iraque de hoje. E a ONU, se tivesse esse poder que refere, não seria suplantada pêlos USA/França/Inglaterra e uns quantos outros.

        Tal como na Jugoslávia, Iraque, Ucrânia, Crimeia, foi o supranacionalismo ao serviço de interesses particulares que acabou por desagregar populações que outrora viviam pacificamente.
        Portanto, o supranacionalismo é um factor desagregador e não estabilizador.

        Portugal também recebeu várias influências. Celtas, Iberos, Visigodos…, e construiu sua identidade. OS USA são exemplo de muitas influências, e mantêm-se unidos e federados. Mas não por causa de um supranacionalismo, antes por um nacionalismo com fundamento. As regiões Ameríndias, não obstante focos de descontentamento, hoje agregam-se em torno de um nacionalismo saudável e não de um supranacionalismo (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai…).
        Bem, o Canadá também possui a mesma diversidade, e nnão vejo que seja o supranacionalismo a reger suas vontades como ocorre na UE com o eixo Paris-Berlim para salvarem do imbróglio em que a sua banca se meteu.

        O PCP, infelizmente, caiu nas redes do PS e encontra-se num imbróglio para manter suas bases. As derrotas sofridas por ele em termos de número de votantes, bem como o que aconteceu com o PS, BE e PSD, revelam que se os partidos estão enredados, os peixes querem liberdade.

  4. “a Deus o que é de Deus a César o que é de César”
    numa altura em que não uma , uma , instituição em que possamos confiar , eu diria ao Papa Bento para se dedicar à oração.

    1. Presumo que o faça. E não serei eu, ateu, ainda que não anti-clerical, que a contestarei quando aqui clama, de modo tão convicto, que o Papa (Emérito) se deve calar.

      1. esqueci-me de um “há”..não há uma instituição.

        A Europa não começou com a cristianização , não percebi de que Europa fala o Papa Bento : da Europa céltica ? da eslava ? ou da germânica? se calhar da romana?

    2. Marina, a oração é a password para a comunicação com o que habita no núcleo de cada ser. É aí que se descobre a essência muito procurada pêlos filósofos.
      “A César a que é de César e a Deus o que é de Deus” somente nos indica algo muito simples: renunciai a César o que não pertence a César. Tem de aprofundar a sua busca.

        1. Se ler o contexto bíblico em que tal afirmação foi proferida por Jesus, compreenderá que um grupo de fariseus perguntou a Jesus se era legitimo o pagamento do imposto a César. Procuravam eles com isto encontrar em Jesus uma negação para que pudessem dizer que era um acto de rebelião contra Roma e, como tal, segundo o costume da legal da época, podiam denunciá-lo aos romanos que, por isto, caso Jesus afirmasse que não deviam pagar o imposto a César, o condenariam à morte.

          Todavia, Jesus perguntou-lhes: “Que imagem vedes nessa moeda?”; César, responderam.
          E Jesus continua: “Dai a César o que é de César…”.

          Tem toda a lógica: quem cunhava a moeda era César e a imagem de César também se encontrava na moeda.
          Portanto, e traduzindo para o vernáculo: Se César mandou cunhar e apôs-lhe a imagem, então, dai a merdita da moedita a César, porque lhe pertence, e fazei o que Deus em cada um cunhou: a liberdade. Foi isto que Jesus fez: livre até ao fim, em morte de Cruz.

          1. Ok, assim percebi melhor, obrigado. Corresponde à ideia que eu tinha. Não ironiza, de facto não percebera a sua formulação no comentário anterior.

        1. Tenho que confessar que ler o comentador Vento comparar “oração” com “password” me pareceu de uma (pós)modernidade surpreendente

        2. Vorph, O Espírito Santo nunca fala sobre si mesmo, mas sobre o Pai e o Filho. É ele que traduz a linguagem do espírito e do mundo.
          Acontece que Jesus afirmou de uma forma simples e categórica, isto: “Se vos falo das coisas terrenas e não as compreendeis, como compreenderíeis se vos falasse das coisas celestiais”.

          Em resumo, até para decifrar as coisas terrenas necessitamos do Espírito Santo, o tradutor. Pois conhecemos o mundo sem nos conhecermos a nós. E deste, do mundo, falamos como entendido sem nos entendermos. Para nos ligarmos a isto é necessário password, oração.

    3. “a Deus o que é de Deus a César o que é de César”

      Uma frase que Jesus terá dito e que terá sido muitas vezes pessimamente interpretada.

      Segundo Reza Aslan, Jesus estaria simplesmente a querer dizer que “Roma é a terra de César e portanto César tem direito a ela, mas a Palestina é a terra dos judeus (que são o povo de Deus) e César não tem direito a ela”. Tão simples quanto isto, Jesus estaria somente a dizer que Roma tinha que se pôr para fora da Palestina.

      1. Uma interpretação que me parece um bocadinho a la carte, não acha? Tipo apropriação para dissertar sobre os tempos de hoje

        1. Uma interpretação que me parece um bocadinho a la carte, não acha?

          Tão à la carte como a interpretação usual, a qual também é à la carte.

          Segundo Aslan, Jesus seria, basicamente, um judeu muito ortodoxo que queria, basicamente, expulsar os romanos da terra que Deus tinha dado aos judeus. Na linha, aliás, de muitos outros judeus zelotas dessa época.

          apropriação para dissertar sobre os tempos de hoje

          Aslan no seu livro não disserta sobre os tempos de hoje. E eu também não pretendo fazê-lo.

          1. Lavoura, assim a seco, e porque não conheço a obra em questão – nem sou particularmente lido sobre estas matérias ., e como tal apenas assente nesta sua resenha, tenho que reconhecer a pertinência dessa interpretação. Que me parece afrontar uma longa tradição de pensamento sobre a separação de poderes (assunto que, já agora, também é abordado por Ratzinger nestas duas breves conferências juntas em livro – e a qual é vista como estruturante da especificidade europeia)

          2. uma longa tradição de pensamento sobre a separação de poderes

            Só pensamento. Na prática, a Igreja tem uma longuíssima tradição (que remonta a Constantino, no século III) de aliança com o poder temporal e da sua utilização para os seus (dela, Igreja) fins. Dito de outro modo, a Igreja, hipocritamente, fala da separação de poderes, mas na prática procura uni-los sempre que isso possa ser a seu favor.

          3. Pois, essa tensão histórica, entre o princípio de separação e as tentativas de ambos cavalgarem a esfera alheia, é um dos tópicos do pequeno livro que cito.

      2. Não sei não … Jesus respondeu , quando lhe perguntaram , os ávidos , se tinham de pagar impostos a César , que a César o que é de César , e a Deus o que é de Deus , ora , traduzindo : Deus não tem nada a ver com assuntos mundanos , tem mais que fazer.

        1. Marina, neste mundo entramos todos, excepto os abortos; no d´Ele só alguns: “Buscai o reino de Deus e sua Justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Tolstoi – in Ressurreição – afirmou: “Mas nós buscamos o acréscimo e é natural que não o encontremos”.
          Em conclusão, Ele não se mete nos assuntos do mundo. Deixa que sejamos nós a fazer um mundo melhor, também para nós.
          Deus deixa-se encontrar pelos seus. É só com estes, os seus, que ele tem muito que fazer, para que não fiquem confusos.

  5. Ratzinger escreveu esse texto em 1979. Não sei se hoje terá a mesma opinião. Nessa altura, eu subscreveria essa posição. De há 10 anos para cá que verifico que se trata de uma ideia perigosa.

    1. Isabel s. a.,
      citar é (sempre) truncar, por boa-fé que se tenha no acto. Também por isso fiz questão de deixar título e data da conferência (dar o maior número de dados autorais para potenciar a interpretação alheia, julgo que é um saudável exercício). Agora citar é também um apelo à leitura: trata-se de uma conferência (20 e tal pequenas páginas) e a argumentação – que quase conclui neste trecho – defende uma tese. A qual, lhe garanto, não é assim tão “temporal” como V. a diz. Pelo menos para um católico (e um cristão também, julgarei). Ou então agarramo-nos ao que medeia as aspas e pomo-nos a discutir, de modo chão, o dia de hoje segundo as atabalhoadas ideias da “espuma do dia”. Quanto ao resto não vejo mesmo o perigo que anuncia no que está entre aspas, mas isso se calhar é minha cegueira.

      1. O perigo está, como sempre, na natureza humana. Quanto mais poder tem um ser humano mais tende a querer ainda aumentá-lo. Diz o texto que refere » certamente não pretendem construir uma supra-nação ». É ezactamente aí que está o perigo que, se não existisse, não teria sido mencionada essa hipótese por Ratzinger.

        1. O primado das instituições (e seus tratados) e o escrutínio democrático contornam o “perigo” da deturpação política. Mas Ratzinger está a falar de mais algo do que isto.

          1. Os tratados, as instituições e o escrutínio democrático são elaborados e regulados segundo os interesses dos humanos que neles interferem. Isto é, são imperfeitos.
            Se acredita no que escreveu, eu invejo-o. Vive muito mais tranquilo do que eu.

          2. Eu acredito no que escrevi, não precisa de invejar. Falei no “primado”. Desfeito, torpedeado ou minado, esse então essa natural imperfeição exponencia-se. Ou seja, a intranquilidade que refere é fundamental e não defeito, pois é um estado de alerta para sustentar esse tal “primado”.

    2. Isabel s a
      Todo o poder é perigoso. Um poder supranacional é, portanto perigoso. Mas um poder nacional também o é.
      Parece-me, porém, que um poder nacional é ainda mais perigoso do que um poder supranacional, na medida em que o primeiro muito facilmente cede a corporações, entidades, culturas e pressões de cariz nacional, as quais têm pouco ou nenhum poder a nível supranacional.

      1. Não estou nada de acordo com essa ultima conclusão, Luís Lavoura.
        Com as comunicações existentes e a mundializacão, a influência dos poderosíssimos lóbis é muito maior quando actua junto de um governo supranacional que dispõe de um apetecível mercado de centenas de milhões de pessoas do que junto do pequeno governo de um país.
        Quando comprados com o bilionário impacto das decisões que afectam os negócios das grandes multinacionais que fornecem a população planetária, as pressões de cariz nacional, na maior parte dos países da Europa, são peanuts.
        Acrescento que será sempre mais fácil, quando se quer, controlar o que é «pequeno » do que o emaranhado, complicado e complexo fundamento de numerosas operações de um órgão com centenas ou milhares de pessoas que participam em cada uma delas.
        Finalmente, chamo a sua atenção para o estado em que se encontra a Europa, quer a nível económico quer a nível social, depois da gestão à luz dos últimos tratados. Claro que estes poderiam ter contemplado diferentes disposições mas a realidade é que foram as actuais que mereceram o acordo dos governos dos 28. Um risco que para alguns países foi mal avaliado e que se vai pagar caro.

  6. Há certos conceitos que não devemos confundir – nacionalismo e xenofobia; estado e nação; soberania e imperialismo…

    E, já agora, ao contrário do que muitos insinuam, a História evidencia que são os imperialismos, e não os nacionalismos, que mais guerras geram no mundo.

    João de Brito

    1. Não me parece que um homem da densidade intelectual como Ratzinger confunda esses conceitos. Aproveito para insistir no que acima já comentei: o livrinho deve estar acessível no mercado, vale a pena lê-lo. Até porque não se restringe a este trecho – o qual não é a tese do livro, entenda-se bem, e nisso repito-me, cada citação é uma truncagem, e esta pode deixar entender uma visão muito redutora do que o autor quis dizer.

  7. Em 1979 quando eu coçava os bancos do secundário com os fundilhos das calças, contava-se a seguinte anedota:
    Brejnev e Barreirinhas Cunhal encontraram-se com Jesus Cristo (JC para os amigos). Como na altura era voz comum afirmar-se que JC foi o primeiro comuna a botar pé no mundo, resolveram questioná-Lo.
    Pergunta o Leonid:
    – Camarada JC, quando é que a URSS afirmará definitivamente o comunismo em todo o seu território?
    Responde-lhe Cristo:
    – Irmão, não será para o teu tempo, nem para o tempo dos teus netos e bisnetos.
    Ouvida a resposta, Brejnev rompe em pranto sentido e profundo (dizem que se ouviu nos gulag’s siberianos).
    Triste pelo seu camarada, Barreirinhas em jeito de consolo, pergunta:
    – E em Portugal JC, em Portugal, quando é que o PC ganhará umas eleições?
    As bagadas assaltam o rosto de Jesus e Este entre em soluços de choro aflito, diz muito desconsolado:
    – Camarada irmão Barreirinhas Cunhal, perdoa-me, mas isso não é para o meu tempo …

    Se Ratzinger tivesse frequentado a secundária do meu bairro naquele ano de 79, tinha-se poupado a escrever este disparate!

    Smoreira

    1. Obrigado. Pela anedota. E por, através deste seu comentário, me ter permitido o convívio, por breve que seja, com tamanho vulto intelectual como V. é.

  8. Não estou por dentro dos desígnios divinos , mas tendo Deus querido um mundo tão diverso e variado , a utopia de o uniformizar só pode ter sido inspirada pelo demónio…talvez para o governar ?

      1. com um governo mundial ?

        ( todos a beber coca cola e a comer macs , pagando com cartão de crédito ? sob a batuta da finança ? a cumprir regulamentos e leizinhas ,para que possamos “progredir” muito sob a luz da ciência omnipotente , largando de vez os costumes e usos ” atrasados” dos povos ? admirável mundo novo ! )

        1. Não me pareça que haja, inscrita nos processos relevantes actuais, qualquer utopia de um governo mundial. Haverá, sim, uma distopia que a isso recorre, muito literária (artística), para discorrer sobre os males do mundo. Por outro lado, também há décadas que a globalização, que foi temida como a simples macdonaldização homogeneizadora, não se resume a isso, apesar das enormes similitudes tecnológicas e destas derivadas.

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