Pensamento da semana


Maria Dulce Fernandes,

Depois de perder a minha mãe e verificar que já estou na linha da frente, não há dia sem que as mais estranhas ideias de quando e como me revirem o juízo. Pudesse eu escolher, comprar um bilhete e partir? Não me parece que a teoria tão em voga de poder sair de acordo com as condições de cada um prevalecesse no final.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

27 comentários em “Pensamento da semana”

      1. Simples, assim. Só “morremos” quando desaparecemos da memória dos vivos, os filhos são a nossa imortalidade. Camões e outros famosos pensam que são imortais, estão enganados, deixarão de existir quando desaparecer o último ser humano, destino do qual Deus não se livrará.

        1. Existiremos enquanto de nós houver memória, Manuel. É uma forma de conforto saber que tocámos muitas vidas e que o tempo esbaterá os momentos mais tristes e deixará apenas as lembranças felizes. Faz parte do processo .
          É por tudo isto que saber que estamos na primeira linha não traz qualquer aceitação ou sequer paz de espírito.

  1. Na minha maneira de ver a Vida, nós só estaremos na linha da frente enquanto formos filhos ou netos (ou sobrinhos).
    Quando somos os mais velhos na Família, passamos a ser os titulares do mais alto nível: reis, raínhas, autoridades. Os mais novos dependem de nós: pelo exemplo, pela sabedoria.

    Com estima,
    ao

    1. Aí é que se engana! Na linha da frente estão os vigaristas, os bandidos, os aldrabões…estão bem firmes, fazem o que querem, resistem a tudo e a todos com a justiça sempre do lado deles. É assim, aqui, neste país onde os sérios, correctos e verdadeiros são arrumados de lado e na maioria das vezes são castigados, para que os outros sejam vangloriados.

      1. Mas no final, anónimo, é tabua rasa.
        Não há grandes nem pequenos. Somos todos chamas que se apagam.
        E o fim chega , os vigaristas, os bandidos, os aldrabões não são mais do que ninguém. Quem sabe o braço da justiça funcione realmente in the big yonder…

  2. Cara Dulce Fernandes
    Já estou na linha da frente há tantos anos que já nem me lembro dela.
    Infelizmente, para um filho meu essa linha chegou antes da minha. Talvez por isso eu julgue que “o futuro é sempre hoje”.
    E hoje, acredite, devemos fazer tudo o que nos apetece e dá prazer. Não há linha da frente que se aposse dessa alegria!

    1. E quando a vida por mais correcta e séria que a levemos, não nos permite viver fazendo o que nos apetece e dá prazer porque alguém sem escrúpulos não nos deixa viver assim? Que nos resta da vida além do sofrimento?

  3. Ficarei por cá até que se cumpra integralmente a promessa escatológica. Assim não colocarei o SNS em risco de ruptura, e isto ser-me-á tido em linha de conta por boa conduta.
    Por outro lado, como gosto de trabalhar, quando Jesus vier contará comigo para reunir as ovelhas do seu redil e, pelo serviço prestado, arranjar-me-á um espaço condizente com o meu perfil. Quero ir para uma ilha onde haja cocos e eu possa expressar a minha bondade oferecendo a água do fruto às veraneantes. Estas quotas são legitimas.

      1. Nãoooooooooooooo, Dulce. Refiro-me ás quotas da bondade!

        Por falar em bondade, estou aqui em pulgas à espera que chegue a hora, pois é o jogo do Flamengo com o Atlético Paranaense, e eu quero ver como o nosso Jorge Jesus se sai neste jogo. Ele está a treinar o Flamengo.
        No Brasil o jogo começa às 9H30m, que corresponde à 1H30m da manhã em Portugal.

        1. Eh pah! Então por “lá ” também funciona por quotas? Estou bem arranjada, porque sempre me insurgi contra essa politiquice.
          Bom , vá torcendo para que este Jesus dê a volta por cima. Sempre vai treinando com um homónimo.
          Bom jogo

    1. Onze anos de esperança vã.
      Pergunto-me o que teria o próprio Vincent decidido se a escolha fosse sua?
      Partir com a tão apregoada dignidade ou agarrar-se a toda e qualquer réstia de vida que lhe oferecessem ?
      Eu franamente não sei.
      Neste momento e à luz deste caso, penso que viver assim não é viver, mas e se acontecessesse comigo ? Pois é…

  4. Dramático mesmo é quando alguém decide apressar-nos a morte!
    Mas será que alguém tem, nos dias de hoje, poderes para apressar a morte de alguém que nem sequer é doente!?!
    Como é que há gente que decide abreviar a vida de outro ser humano assim do pé para a mão??!!
    Mas há, sim…

  5. Bom dia, Maria Dulce.
    Hesitei bastante comentar este postal devido ao desaparecimento da sua mãe, que lamento e compreendo a sua dor, mas desde há muito tenho uma opinião sobre o assunto, nascimento e desaparecimento, e emito-a.
    Acho que as pessoas vivem de mais. Acho que a vida actual se prolonga para lá do que seria desejável, para todos. Para quem se agarra à vida como se pretendesse ficar cá para semente infernizando a vida de quem tem a infelicidade de os aturar.
    Estimo que entre os 75 80 anos é uma excelente idade para morrer.
    E isso já condescendendo muito por cima.

    1. É um ponto de vista, Corvo.
      A minha mãe advogava que quando entendesse que a vida lhe pesava e se tornasse um peso para os outros, tomaria providências. Tinha 82 anos no princípio de 2018 quando dores não identificadas a começaram a torturar e a cansar. Em Fevereiro finalmente soube-se o que era . Tratou-se e estava em franca recuperação, cheia de planos e de alegrias com a bisneta. No dia 8 de Março, com uma tarde de compras planeada, sentou-se a descansar. Foi assim que a encontrei, a descansar serenamente.
      Não acredito que quisesse sinceramente deixar tudo para trás.
      Já pensei como ela pensava e, á medida que o tempo me empurra para a barca da travessia e que já sou quase das das frente na fila de embarque, mais me agarro mais às pequenas coisas que me fazem feliz.
      Não acho que 80 anos seja uma boa idade para partir.
      Também entendo que quando se está farto de viver nos moldes em que se vive e pouco ou nada nos prende aqui, a vontade seja maior e aí qualquer que seja a nossa idade, o peso da existência torna-se insuportável.

      1. Não sabe, Maria Dulce, se na verdade a sua mãe quisesse deixar tudo para trás.
        Não disse que a senhora sua mãe advogava que quando entendesse que a vida lhe pesava e se tornasse um peso para os outros, tomaria providências?
        E foi encontrá-la a descansar, tranquila e em paz sem incomodar ninguém, não foi?
        Acho que a sua mãe era um espírito lúcido e temendo poder vir a ser um peso para os outros, quis morrer com dignidade. Recorda-a com carinho, e pode orgulhar-se dela.
        Mas nem todos os velhos encaram a morte com dignidade e, antes disso, deixam a sua marca que envergonha os familiares que cá ficam.
        Velhos prepotentes exigindo dos filhos aquilo que é dos netos, rebelando-se contra todos quando as suas exigências não são satisfeitas, só neles pensando sem se preocuparem com os esforços dos filhos em levarem a vida para a frente, por vezes, a maior parte das vezes com sacrifícios de toda a ordem, mas tudo passa ao lado desses prepotentes egoístas.
        Outros pelas esquinas com as sebentas camisas abertas exibindo as suadas barrigas até ao umbigo, em torpes e insultuosos piropos a senhoras com idades para serem suas filhas e salivando como porcos a meninas de 15 anos com idades das suas netas.
        No primeiro caso desses egoístas que só pensando neles sacrificam filhos e netos, são aqueles que passaram toda a vida estendendo a mão para receber e nunca para dar.
        No segundo caso nem adjectivação encontro para os qualificar.
        Morram que o coveiro também tem filhos para criar.

        1. Que negativismo, Corvo, credo.
          Há muita gente boa que gosta de viver e não é um fardo para ninguém.
          Garanto-lhe que tanto a minha minha mãe como o meu pai que partiu há já muito tempo, adoravam a vida.
          A minha mãe tinha estas tiradas filosóficas, mas não acredito nem por um minuto que tenha “tomado providências”.
          Estava bem, estava feliz e tinha planos. É talvez esta a beleza disto tudo, ela ter partido feliz e sem dar por isso. Adormeceu e não acordou. Acredito piamente que sim.

  6. Passam hoje 5 anos sobre a morte da minha mãe. Cinco anos sem que passe uma hora em que não me lembre dela, de tanto que tinha para lhe contar, da falta que me faz, das saudades que sinto e que, ao contrário do que me haviam dito, não atenuam com o tempo.
    Faz hoje cinco anos que estou na linha da frente…

    1. Dou por mim tanta vez no trabalho, a pegar no telefone para ligar à minha mãe. Ela gostava tanto de conversar. Contava as mesmas coisas um sem número de vezes e eu por vezes, de cansada que estava, abreviava a conversa.
      Quem me dera poder continuar a ouvir as mesmas coisas vezes sem conta, Cristina.
      Um beijinho.

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