Pensamento da semana


eventhorizon,

A  morte é o último refúgio dos deuses.

Os avanços da ciência todos os dias privam o divino dos seus poderes de criação do Universo – teorizámos o Big Bang e a Relatividade, pisámos o solo lunar, enviámos sondas aos vários planetas do Sistema Solar (duas delas encontram-se nas nossas fronteiras estelares), e ainda há dias tivemos a oportunidade de contemplar com assombro, pela primeira vez na História, o ambiente que envolve um buraco negro a 55 milhões de anos-luz de distância no tempo e no espaço. Um feito científico e tecnológico notável, para nos mostrar algo que reside a uma distância incompreensível. Também a criação humana escapou ao domínio dos deuses, por Darwin e por todos os que se lhe seguiram – não fomos criados pelo sopro divino mas pela evolução dos primeiros organismos a residir no lodo primordial, que aos tropeções pelas eras nos permitiram chegar aqui, milhares de milhões de anos volvidos. A vida será um milagre, talvez, mas menos pelas suas múltiplas interpretações divinas do que pela sua fascinante improbabilidade.

Resta a morte, absoluta na sua inverosimilhança e no seu mistério. É nela, e não no espaço, que reside a fronteira final. O derradeiro abismo. Como o horizonte de eventos do buraco negro M87* – nem a luz lhe escapa, e tudo o que ultrapassa as suas fronteiras cósmicas esvai-se para lá do nosso conhecimento. Sabemos da existência da morte e da sua inevitabilidade; tentamos não pensar nela no nosso dia-a-dia, e tentamos preparar-nos para ela sempre que se nos impõe. É um exercício fútil: não há doença incurável, acidente irreparável ou velhice prolongada que nos permita antecipar o fatidico momento em que o coração de alguém que nos é querido pára de bater e a sua pessoa, única e irrepetível, desaparece para lá do nosso alcance. Resta o vazio que essa pessoa deixa, as memórias que nos acompanharão até ao fim, e o desejo improvável de a voltarmos a encontrar. É aqui que as respostas da ciência se revelam insuficientes, incapazes que oferecer consolo ou de alimentar uma esperança que escapa à lógica e a razão. E é neste vazio tão vasto e diminuto, e nesta esperança impossível, que sobrevivem os deuses.

 

Este pensamento acompanhou o Delito durante toda a semana.

0 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Isto não é um pensamento.
    Isto é um tratado de filosofia.
    E com um final literariamente brilhante.
    Uma ótima maneira de começar o dia e a semana.
    João de Brito

  2. Einstein teorizou a respeito dos buracos negros não porque os conhecesse, não por ciência, pois a ciência só pode comprovar, mas pela capacidade que tinha de perceber a existência do invisível. Foi ele, Einstein, que afirmou: “Deus não joga aos dados”. Significa isto também que o invisível não significa inexistência. A ciência não evoluiu, comprovou.
    A diferença entre o Homem e o macaco reside na sopro do Espírito, consciência universal e atributo único e singular em cada pessoa irrepetível e única. A isto chama-se personalidade, mas personalidade que está em cada pessoa em sua nascença e que se desenvolve segundo as circunstâncias e opções. Também nisto a ciência não evoluiu, simplesmente constatou.
    Em conclusão, a ciência é uma espécie de caça-fantasmas que vai em busca do que lhe dizem, mas pretende comprovar.
    O buraco negro não prova nada na matéria em apreço; e Darwin também nada provou.

    1. Concordo. Sendo a ciência o oposto da religião e venerando esta fantasmas é natural a ciência dedicar-se à caça de fantasmas. E Einstein disse que “deus não jogava aos dados” não por ser um homem de fé, mas por não aceitar as conclusões de uma nova Fisica que despontava, tendo em Böhr, Heisenberg e Shrödinger os seus arautos. A Realidade passaria com a Fisica Quântica a ser subjectiva, ilusória, contraditória, probabilistica e por isso incerta ( ex: a famigerada teoria do colapso da função de onda).

      O Vento até numa torrada deve ver Deus.

      1. Vamos lá à dança.
        “Para punir o meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim uma autoridade” Albert Einstein.
        Portanto, caro Pedro, não se atropele em matéria que não lhe compete.
        Einstein, ao derrubar as teorias de Newton sobre o espaço e o tempo, fez da física uma série de notitas de rodapé para serem consultadas por quem se pensa cientista.
        Até na relação com as mulheres, a fuga constante de Einstein da existência pessoal para o mundo da percepção e compreensão objectivas era uma razão determinante.
        Isto para dizer-lhe que Einstein foi bastante taxativo na sua afirmação. E só alguns parolos entendem que falta objectividade na matéria que originou o comentário. Uma coisa é acreditar e não acreditar, outra é fazer de parolo nas (des)crenças que se apresentam.
        Do I make myself clear? Or should I draw a better picture?

          1. Se para sua resposta tem necessidade de recorrer à ligação que anexou, então, não há muito para certificar.
            Acontece que Einstein foi taxativo em sua afirmação, mesmo na perspectiva científica. Mas não vou anexar ligações atrás de ligações para colocar pessoas a refutar virtualmente uma afirmação feita.
            Recomendo que busque livros adequados, onde se inclui biografias credíveis, e certamente encontrará respostas à minha afirmação.

            Todavia, a questão substantiva encontra-se em meu primeiro comentário. Se puder, refute-o e esqueça Einstein.

          2. Que me diz ao desabafo de Einstein para sua enfermeira no leito de sua morte?: “Talvez Deus não queira ser observado. Penso que Ele não gosta de curiosos”.

          3. “Talvez Deus não queira ser observado. Penso que Ele não gosta de curiosos”

            Presumo que goste ou não escondia a verdade para ser revelada. Da verdade escondida, provem a imaginação, a curiosidade e o pensamento. E o Logos é pensamento…

            E talvez Einstein o tenha dito num ataque febril, ou precedido/antecedido por uma valente gargalhada….

          4. Presumo que “deus” goste da verdade escondida, para ser revelada pela Razão humana, atributo de deus. A linguagem universal, o Esperanto Cósmico é a matemática. E sendo a matemática puro exercicio da razão, não existirá puro acaso na origem de tudo….

            Peço desculpa pelo “pertuguês”, mas comprei um Alcatel que é uma autêntica bosta….não dou mais de 100€ por um telemóvel…mas já ando arrepenfido…arrependido, queria eu dizer

          5. Como já um comentador por aqui sublinhou, o deus de Einstein tem pouco ou nada a ver com o das religiões e da enxúndia de significados que os humanos lhe
            foram atribuindo ou surripiando ao vento das conveniências epocais e pessoais.Era o Deus de Espinoza , há que ler-lhe as obras para entender o conceito em nada contraditório com o Conhecimento do Universo.

      2. O Einstein escreveu algures que se acreditasse num Deus seria o de Spinoza. O deus dos ateus, de acordo com as línguas mais aceradas.

        1. Aqui tem, Miguel:
          “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas acções dos homens”.
          Porém Spinoza faz uma interpretação errónea sobre o que aprendeu.

          1. Creio que não o escreveu na intimidade, mas que o li na sua autobiografia científica incluída no volume ‘Einstein, philosopher-scientist’.

            ‘na harmonia de tudo o que existe’ terá sido a ideia que inspirou a sua vida dedicada à tentativa de compreender os mecanismos do mundo natural . Parece-me uma convicção suficientemente digna, inspiradora e que se justifica a si própria. Para quê pedir mais? Ou outra coisa?…

          2. Ninguém pode conhecer a harmonia e estar em harmonia se não por seu sentir. Torna-se, assim, perceptível concluir que o Homem é parte de um fenómeno. Logo, o Deus que Einstein buscava era aquele que se importa com a sorte e a acção do Homem.

            Coloquemos de outra forma: a perspectiva cosmoteândrica deixaria de ser cósmica, global, se o Homem não participasse dela. Portanto, ninguém pode ver e acreditar na Harmonia se não for tocado pela mesma. É o Uno e o Todo.
            É este o equívoco de Spinoza e a afirmação leviana, por modismo, de Einstein.

          3. Although various pantheisms can be found in Hindu philosophy, Buddhist cosmology, and ancient Greek Stoicism, the idea also has its modern scientific precursors. Just before the turn of the 17th century, the philosopher Giordano Bruno proposed that an infinite God could produce nothing less than an infinite universe filled with infinite worlds. Bruno’s universe was the unmediated pouring-out of God—not into the universe, but as the universe. Bruno realized that this infinite universe with its infinite worlds was the source of all things, the life in all things, and the end of all things, or in other words, “God.” For the heresy of equating the creator and creation, Bruno was executed by the Inquisition. A few decades later, the philosopher Baruch Spinoza developed a similar idea, which his critics equated with atheism, that led to his excommunication. Spinoza argued that if God is infinite and self-subsistent, then everything in existence must be an expression of God. Spinoza’s God is nature itself: all pervasive, impersonal, and unmiraculous.

            https://plato.stanford.edu/entries/pantheism/

            E tal como hoje a Fisica Quântica parece confirmar Brüno com a Teoria dos Multiversos

            https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Multiverso_(ciência)

          4. Miguel, lembrei-me repentinamente que talvez não tenha incluído na minha resposta a este seu comentário um pormenor relevante: A transfiguração de Jesus, que nos é relata nos evangelhos sinópticos e referida na II Carta de Pedro, é o marco deste encontro entre o temporal e eterno. Resumindo, a exclusão da sorte e da acção do Homem por parte de Deus determinaria um ponto de ruptura com esta Harmonia, pois não existe harmonia sem sintonia. É num estado consciente de que existe a Consciência da consciência que se pode compreender a semelhança com o Princípio; eu disse semelhança e não igualdade.
            O alto da montanha, onde ocorre a transfiguração, está aí para indicar que esta elevação simbólica é o ponto onde o Homem se encontra com Deus. Significa isto que existe um percurso de subida que é determinado pelo querer, vontade, do Homem. Pois este encontro, ou transformação, só se pode realizar em liberdade.

          5. “Porém Spinoza faz uma interpretação errónea sobre o que aprendeu”

            ….o Vento num tipico e puro exercicio de humildade…

            O Deus de Spinoza faz lembrar o de Marco Aurélio e dos Estóicos. Um tipo de Panteismo. Somos parte de um todo que contemos e nos contem….tal como no hinduismo/ budismo.

            A tradição judaico-cristã inovou ao colocar o Homem no Centro e o Todo ao seu serviço. É uma cosmovisão detestável.

    2. Uma vez que hoje inicia-se a celebração de um acontecimento, designado por tríduo pascal, que afectou o cosmos, pois, no momento da morte de Jesus, o véu do templo rasgou-se, o sol escureceu, ocorreu um tremor de terra e os corações amarguraram-se, certamente como prenúncio da Luz que o Ressuscitado ainda viria oferecer, desejando a todos votos da celebração de uma Feliz Páscoa (passagem da escravidão para a Liberdade), deixo aqui uma observação última e complementar a esta minha primeira intervenção:

      «Assim como a voz é a matéria das palavras, e as palavras indicam a voz já formada, pois aquele que fala não emite primeiramente uma voz informe, que depois possa reunir e formar em palavras, assim o Criador não fez a matéria informe num tempo anterior e depois, segundo a ordem de cada natureza, formou-a como que por uma segunda reconsideração. Criou, pois, a matéria já formada.» (Santo Agostinho, De Genesi ad Litteram, I, XV, 29 PL 34,257) cf. também S. Tomás de Aquino, sum theol. I, q. 45.

  3. João, a bem dizer faltam ainda elementos que comprovem de onde provem o Homem, a tal busca pelo elo perdido mantem-se. Até agora a árvore geneológica do Homem não passa de uma hipótese. Darwin “apenas descobriu” a Lei da Evolução/Selecção Natural, não havendo nela uma necessidade de Progresso, mas apenas de mudança, de adaptação. O mais apto não é necessariamente o mais forte, ou o mais inteligente ( estas são ideias posteriores de Spencer e outros, inseridas com propósitos ideológicos – ex: racistas/politicos e economistas). Quanto ao caldo primordial também nada está provado. É um hipótese tão válida como a Panspermia ( Stephen Hawking) . Fica a sugestão (faz pensar):

    https://youtu.be/16GbZa0c0BA

    https://blogs.scientificamerican.com/guest-blog/the-origins-of-directed-panspermia/

    Quanto ao Buraco Negro, o que lhe parecem as ideias dos Buracos Brancos?

    1. Conceptualmente parece-me fascinante (note, Pedro, que não sou cientista; apenas curioso).

      É cada vez mais raro acontecer, mas esta caixa de comentários tem sido interessantíssima.

  4. Boa tarde.
    Quando diz: “Os avanços da ciência todos os dias privam o divino dos seus poderes de criação do Universo – teorizámos o Big Bang e a Relatividade”
    Não vou alongar-me em longa dissertação, e cingir-me estritamente à ausência do divino pelo emergir da ciência que tudo explica.
    O Big Bang. A ciência provou??? que uma bola minúscula condensando em si toda a matéria do universo conhecido, flutuando no nada, ao explodir libertou toda essa matéria dando origem ao universo conhecido, e, quiçá, outros ainda do nosso .
    A ciência provou e portanto nada mais há a discutir, o universo nasceu daí, a vida veio pela feliz associação de uma proteína qualquer e dum bocado de carbono que por acaso se encontraram, e a explicação a ciência também a deu.
    A explicação que eu queria que a ciência me desse, no caso do Big Bang, por exemplo, é de onde veio toda essa matéria condensada na tal bolinha que ao explodir deu origem a tudo isto.
    E depois que me dissesse também de onde veio essa tal proteína que originou a vida.
    Enfim; o que eu queria que a ciência me mostrasse era o início, e não assumir uma posição de certeza para o inexplicável com um Big Bang, que em meu entender, nada prova e não passa de suposição.
    Quanto ao Divino, e sendo eu profundamente crente, também não acredito nele. Pelo menos de como a religião o apresenta, como um ser criador sentado no seu trono celestial, julgador das suas criaturas.
    Mas acredito numa inteligência poderosa, imensa, tão grande de dimensão infinita preenchendo todo o espaço conhecido, e aquele que nunca será conhecido porque, conhecendo-o, o homem teria desvendado o enigma da eternidade.
    Uma inteligência, apenas; que para todos os homens do mundo, em qualquer cor ou crença, à falta de melhor é denominado Deus.

    1. “Mas acredito numa inteligência poderosa, imensa”

      Pelo facto de as leis universais serem leis matemáticas, traduzidas por formas matemáticas ao alcance do nosso entendimento(Einstein e outros previram pelo exercicio puro da inteligência fenómenos que só agora se confirmam) também desconfio que o cosmos não foi criado por um acaso sem sentido. “Deus” sabe contar”

      1. Tenho de acreditar nalguma coisa, exijo-mo a minha racionalidade.
        Não posso aceitar, como ser pensante que sou, que seja um acaso a justificação para o meu aparecimento neste mundo. Nem eu, nem a humanidade nem o universo.
        Um acaso? E o que é um acaso? Um acaso é um argumento muito fácil para nos desembaraçarmos de perguntas incómodas. Foi o acaso e está feito.
        Mas mesmo que fosse: vamos hipoteticamente aceitar esse acaso como a criação de tudo. E o que é? Quem tornou esse eventual acaso uma realidade criadora? De onde surgiu? como se formou? De onde veio e apareceu?
        Para mim, e unicamente para mim sem questionar nem contraditar opiniões contrárias, portanto para mim e para o que a estrutura da minha racionalidade diz, dado que do nada se obtém nada, então houve alguém ou alguma coisa que criou.
        E só encontro uma explicação. Inteligência. Uma inteligência muito grande, imensa, de enormidade tremenda e infinita preenchendo todo o espaço cósmico, o nosso e aquele que não conhecemos.
        Assim, em meu entendimento, faz algum sentido a religião quando diz que Deus, (Inteligência) está aqui, está ali e em toda a parte.
        E nós também fazemos parte dela porque, vá-se lá saber porquê, parte dessa inteligência, uma migalha como uma gota de água derramada nos oceanos, foi-nos concedida. Chamemos-lhe alma, ou espírito, como quisermos
        Volta a ter algum sentido para mim quando a igreja diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
        Não vejo muito bem para quê se só a utilizamos para destruir, e provavelmente seria muito melhor se fosse aplicada numa mosca ou numa barata, mas pronto. foi assim e assim será.
        Talvez para que possamos ser responsáveis pelos nosso actos. Deve ter sido. Ninguém pede responsabilidades a um gato que saltou e rasgou a cortina.
        Isto é Deus para mim. Inteligência. Não o será para outros, pois tudo bem. É na mesma respeitável todas e quaisquer ideologias, assim como penso a minha será respeitável.
        Desejo-lhe uma Feliz e Santa Páscoa.

  5. Entre as dúvidas (muitas) e as certezas (poucas) que os comentários encerram, apenas me ocorrem perguntas, descabidas talvez.
    1) Antes da bolinha que “explodiu” e de que resultou “isto tudo”, o que existia?
    – O nada?,
    – Ou a “bolinha” sempre existiu?,
    – E se sim desde quando?,
    – E, nesse desde quando quem a criou, foram deuses, quando o quiseram?
    – E esses deuses sempre existiram e decidiram o desde quando?
    2) O “buraco negro” onde a energia, logo a matéria com velocidade, se “esconde” ou dissolve, constituirá a anti-matéria?
    3) E, se a anti-matéria tem significado, não seremos nós uma espécie de “holograma” dela emergente que os deuses (quaisquer que eles sejam) manipulam, criando-nos, transformando-nos e “matando-nos”?
    Perguntas decorrentes de tortuosos pensamentos, reconheço.
    Atentamente
    Rui Carlos

  6. Schrodinger contribuiu com uma equação célebre com que pretendia,ao interpretá-la,repor a Física ante-Planck. Bohr,Born,Heisenberg fizeram-lhe ver que a interpretação era probabilística levando-o a lamentar ter contribuído para tal.O mesmo afirmou Planck. Hoje qualquer físico(dos tenho lido) afirma ser essa tal de Quântica e seu formalismo a que melhores resultados dá nos cálculos.Funciona,escreveu Feynman,não adianta perguntar porquê mas sim COMO.

  7. A vida, o nascimento também não será um refúgio dos Deuses?

    —-

    A imagem do buraco negro é mais uma exemplo de Fake News do jornalismo.
    A imagem não existe no espectro visível humano, foi aliás tirada por um rádio telescópio.
    Aliás boa parte das imagens do espaço nunca mostram o que uma pessoa pode ver. Mas isso nunca é dito.

    lucklucky

      1. Pelos vistos não quis entender…

        A representação dos electrões é artificial o suficiente para as pessoas o perceberem.

          1. O mais giro é que tudo o que vemos é o passado achatado no plano visual — porque é fotografado com lentes telescópicas — e que vamos na direcção contrária…

            …para onde não há ainda nada?

          2. Continua a desconversar.

            Eu critiquei a representação falsa de algo como imagem verdadeira.

            lucklucky

          3. Luck, é verdade que muitas representações de estruturas cósmicas são construções a partir de dados colectados por aparelhos – radiotelescópios, por exemplo. Mas isso não significa que não existam. Por exemplo através de um esqueleto conseguimos, por programas matemáticos, reconstruir o corpo/ fisionomia que lhe “pertencia”…. Também não vemos os números pendurados nas árvores mas eles são tão verdadeiros como as maçãs

          4. Eu não disse que não existam. O problema é os jornalistas induzirem as pessoas a acreditar que vêem aquilo se “estiverem lá”

          5. Na verdade, resta saber em que medida os próprios modelos de análise determinam a configuração daquilo que é observado. Parece-me bem provável que a ideia de um buraco negro condicione a forma como é representado porque não é um objecto tridimensional. Como a construção dos dados pré-existe às coisas observadas (neste caso um buraco negro é o conjunto de números que faltava para as contas baterem certo) pode muito bem haver uma descrição interpolada que condicionou até a própria evidência fotográfica — que é ela própria uma construção. Bom, deve haver uma cacetadona de teses sobre isto… É fim-de-semana e não estou para estar aqui a dar ao miolo.

          6. Sim e pode começar pelo nome que lhe deram: buraco negro.

            Logo a representação teve de mostrar um “buraco negro”.

            lucklucky

          7. Esse argumento “resta saber em que medida os próprios modelos de análise determinam a configuração daquilo que é observado” também se pode aplicar aos modelos moleculares usados em Quimica. Ou à representação da realidade a 3 dimensões. Ou à representação da realidade usando o espectro do visivel. O que me importa é a existência do que é representado. A representação por vezes tem como objectivo não uma representação exacta, mas uma representação entendível para os sentidos humanos. Por exemplo os aparelhos de ecografia Constroem modelos tridimensionais muito exactos dos orgãos internos usando os ultrasons (invisiveis) pela diferente ecogenicidade dos tecidos orgânicos. A imagem ecográfica seria também ela, segundo o vosso critério, “artificial”. Contudo isso é irrelevante

  8. Acreditar o homem em Deus, neste ou naquele, desta ou daquela forma, acreditar pouco ou nada, é completamente irrelevante. Somos alguns milhares de milhões de seres pensantes e dificilmente se encontrarão dois com os mesmos pensamentos.
    O importante, se estivermos dispostos ou quisermos saber, é que as coisas existem, estão cá. Vemo-las, sentimo-las e servimos-nos delas. E quem as criou? Como surgiram? Como apareceram? de onde vieram?
    Tudo tem um início. Nada adicionado a nada será sempre nada até ao infinito. Eternamente nada.
    Mas mesmo esse nada, o que é? Nada simplesmente, vazio e a explicação está dada? Não! Nada existe, é alguma coisa, é o nada!
    Se imaginarmos, por exemplo, um mundo vazio de tudo, sem referências nenhumas, sem visibilidade de nada e nele nos encontremos a flutuar, onde estamos? Estamos no nada, no vazio, logo, estamos nalguma coisa. Portanto o nada e todos os outros nada antecedentes foi uma criação.
    E levemos a imaginação um pouco mais longe. Estamos no nada e súbita e inopinadamente….uma bola flutuando contendo em si o nosso mundo, outros e todo o universo conhecido. A ciência explicou.
    Se quisermos podemos parar por aqui, as nossas dúvidas foram esclarecidas a ciência derramou-nos o conhecimento. Estás sábio, meu filho; agora vai, vai em paz tratar das tuas couvinhas.
    A ciência não disse, não mostrou de onde veio, de onde surgiu, como do nada se criou essa bolinha. Disse-o apenas e a ciência não se questiona. É ciência.
    A ciência que ainda hoje não sabe o que são os fundos oceânicos, a ciência que ainda não sabe explicar a construção da pirâmides, mas sabe explicar a origem do universo. Aplaudamos pois a omnisciente ciência.
    Quando fui para a escola a professora disse-me que dois mais dois eram quatro. Fiquei a pensar por que não seriam, por exemplo, três ou cinco, e apresentei-lhe as minhas dúvidas. Ela colocou dois feijões a um lado, e outros dois noutro lado. Juntou-os e disse-me para os contar e sim! eram quatro. A minha professora não se limitara a dizer, mas provara-mo.

    1. “A ciência não disse, não mostrou de onde veio, de onde surgiu, como do nada se criou essa bolinha. Disse-o apenas e a ciência não se questiona. É ciência.”

      Na sua essência, não é o método científico um questionar permanente?

      1. Não! A ciência diz e não se fala mais no assunto.
        Questionável é o aparecimento de tudo vindo do nada. Pelo menos é o que eu me pergunto.
        Mas também não atribuo esse enigma à providência divina, no sentido em que a Igreja me quer mostrar, que Deus construiu tudo em seis dias e descansou ao sétimo. Interrogo-me, apenas, e não aceito que venha a ciência dizer-me que era uma bola no espaço que explodiu e espalhou tudo, sem que me diga de onde veio a tal bolinha e como e quem meteu todo o universo dentro dela. Já para não perguntar aonde se foi buscar o universo para o meter dentro da bolinha.
        Outros aceitarão, e não tenho nada a contraditar. Cada um na sua e bons vizinhos na mesma.
        Saudações e resto de uma excelente noite.

  9. Não tenho certezas absolutas em relação ao divino, mas julgo que num Deus se tem fé e não certeza. Manter a esperança impossível é um acto de fé.

  10. Onde alguns viram neste texto do João um apontamento ateu eu vi uma nota agnóstica – a de um deus que recua perante a sede de conhecimento que faz do Homem um eterno curioso. Excepto num pequeno pedaço em que ele, com uma graça que, quanto a mim, lhe fugiu ao controle, trocou deus pelo lodo primordial. Muito interessante. Pondo de lado a negação pura e simples dos deuses, e evitando assim ter que provar o que os crentes também não podem, o João avança para o facto morte como a última fronteira assumindo que, sobre o que está para lá dela, ninguém sabe. E jamais saberá enquanto ninguém vier de lá para contar o que viu. Vá, lá, comamos a maçã sem nos engasgarmos. É este o grande problema: a soberba do conhecimento. Há que evitar a pôr a ciência de um lado e deus do outro numa dicotomia absolutamente pueril. Que nunca leva a lado nenhum. Quem gosta de pensar não vai nestes dualismos. Porque isso fecha a porta à hipótese por exemplo de a ciência ter sido dada pelos deuses ao homem para que o descobrissem e um dia se juntassem a ele. Um pouco na linha de Chardin, porque não? Enfim, há que pensar em deus se não acessível por meio da ciência pelo menos alcançável pela fé, que é outra forma de conhecimento. Aliás, o pensamento desta semana é a meu ver um exercício de fé. Porque mostra claramente que enquanto houver perguntas, e respostas a esperar, há lugar para se acreditar no que muito bem se quiser.

    1. Exactamente! Acreditar e conjecturar no e sobre o que se quiser.
      O planeta continua a girar, as pessoas só têm de se equilibrar como lhes der mais jeito, continua-se a respirar enquanto Ela não disser que as férias acabaram e ninguém fica mais rico nem menos pobre por isso.
      Se possível façamos todos por coabitar sem grandes ondas nem desmedidas ambições a fim de não destruir aquilo que indesvendável criou.

      Quem és tu, estranha criatura,
      que semeias tamanha devastação.
      Serás tu, porventura,
      o Anjo da aniquilação?

      Dobra o teu orgulho, meu filho.
      Por cima de ti está Ela.
      Nunca terminarás teu trilho.
      A mesma Foice pelos outros te nivela.

    2. Por acaso cheguei a este texto por um caminho completamente diferente, mas na essência é mais ou menos isto. Como bem dizes, a dicotomia ciência/fé é ingénua, e para ser franco interessa-me pouco. Mas.tem sido curioso seguir os comentários e reparar na força gravítica do buraco negro…

    3. Fernando, se me permite. O problema a meu ver é a inadequação da ideia do deus abraâmico – barbudo, olhando cá para baixo para os seus “filhos predilectos”, ouvindo-lhes as rezas, avaliando-lhes as acções – à contemporaneidade. Segundo os estudiosos a Ideia de Deus evoluiu ao longo dos séculos, tal como a Biblia com as suas diversas fontes ( a sacerdotal , a q, e outras que não me lembro). Não consigo conceber, entender o deus semitico, mas consigo entender, consigo venerar o Panteismo dos Estóicos, a ideia de Edgar Morin de tudo estar em todos e de em todos acharmos tudo. Como num processo que se repete eternamente, em circulo, ( Eterno Retorno)….um dia seremos flores, no outro estrelas….há nesta ideia uma harmonia, um respeito (“eu fui aquele, eu fui aquela pedra, serei aquela árvore, eu nasci daquela Estrela – “sou pó das estrelas”) pelo Todo que é inexistente na Religião Abraâmica, que coloca o Homem no Centro de Tudo. Sou profundamente espiritual, emociono-me perante a Beleza do firmamento, mas detesto a ideia de um deus que tudo sabe, “se preocupa com as acções dos seus filhos” e nada faz. Se assim fosse, se existisse esse deus abraâmico ele seria imoral, uma aberração moral.

      1. Percebo-o muito bem, Pedro. Não vou fora de nada do que escreveu. Apenas evito o dualismo como modo de discutir o que quer que seja. Neste caso colocando a ciência de um lado e os deuses no outro como se fossem entidades contrárias ou incompatíveis. Como escrevi atrás noutro comentário vejo isso como uma abordagem pueril. Os deuses surgiram no mundo quando o homem sentiu que conhecer não explicava tudo muito menos o seu aparecimento. E que estava eternamente condenado a fazer perguntas e a ansiar por respostas. E surgiu a fé como forma de acalmar a curiosidade e fazer festinhas à frustração. No limite como uma forma de conhecimento e de adesão. O resto, Pedro, são histórias, veja-as como histórias, umas mais giras outras menos, umas mais absurdas outras mais divertidas, umas mais ilustrativas do nosso desassossego outras menos. Também nunca gostei desse velho barbudo algures por cima de mim a ver tudo o que eu fazia, a não me deixar fazer asneiras, e a gente precisa de fazer asneiras. Mas já vejo esse tipo no piscar das estrelas. E francamente gosto disso. A par da insaciável curiosidade que tenho pela ciência, que absorvo diariamente

        1. Deixo outra perspectiva, Fernando.
          A ciência não me sacia absolutamente nada, é ela que se alimenta de mim. A sua perspectiva é de observador e não de fazedor de ciência, portanto, como refere, é só um curioso do que a ciência lhe oferece.
          Mas a ciência é um resultado limitado, porque cobre somente o que vê, O que está para além da ciência é a capacidade que o Homem tem de pensar o ainda indemonstrável, tal como fez Einstein antes mesmo da ciência o demonstrar.
          Portanto, a fé é uma série de equações em torno do que não está visível, mas que a experiência intima antecipa.
          Falar ou escrever sobre o Deus abraâmico é desconhecer que “Deus também das pedras pode suscitar filhos de Abraão”, como o Baptista afirmou. Pretende esta afirmação referir que não é pela tradição e consanguinidade que Deus se revela.
          Falar do AT e NT é perceber que a causalidade nada tem que ver nesta matéria. Concluo dizendo: O instinto religioso do Homem não é histórico, é o desenvolvimento deste instinto que constitui um excelente registo histórico. Portanto, no caso em apreço, a fé é uma contínua descoberta da Revelação última e definitiva que ocorre em Jesus.
          O resto nada mais nada menos é que pretender criar na ciência os velhos dogmas e tabus daqueles que se consideravam filhos de Abraão. O farisaísmo científico absorve as atitudes dos legalistas fariseus de outrora. A lei nunca libertou.

          1. Percebo-o, Vento, mas não consigo estar de acordo consigo. Sem a ciência ainda grunhíamos, moraríamos em cavernas e não estaríamos à procura de nada. Não há como opô-la a toda e qualquer vivência de fé. Os excessos para um lado ou para o outro desequilibram-nos as perspectivas e a própria vida. Não, não consigo concordar consigo. Conheço muitos homens de ciência que alimentam a par da sua preciosa actividade outros modos de conhecimento, incluindo a fé. E estou de acordo com o que diz o João Campos que sempre que o homem desvenda alguma coisa os deuses recuam.

          2. “Conheço muitos homens de ciência que alimentam a par da sua preciosa actividade outros modos de conhecimento, incluindo a fé.”: onde leu o contrário em meu comentário?
            “Sem a ciência ainda grunhíamos, moraríamos em cavernas e não estaríamos à procura de nada.”: É o Homem que faz a ciência ou é a ciência que faz o Homem?
            Eu não pedi concordância, demonstrei-lhe que a questão do Deus abraâmico é uma falsa interpretação sobre o conjunto.
            “sempre que o homem desvenda alguma coisa os deuses recuam.”: quais deuses? os homens que descobrem?

      2. Pedro Vorph, tem uma ideia muito limitada do Deus Abrâamico…

        Suponha por momentos que esse Deus sabe que o Homem tem de ser tentado para se melhorar, por isso é que não intervém.
        Porque se interviesse deixava de ser sua criação passando a ser uma marionette nas suas mãos. Logo não haveria razão para ter sido criado….
        A obra tem de sair das mãos do seu criador senão não há criação. E a única maneira de a obra não ser permanentemente corrompida é ser sempre tentada. E ter sempre de fazer perguntas sobre essa tentação.

        O Pai que controla a vida de um Filho a todo o momento criou mesmo um Filho? Ou um animal de estimação para se autoelogiar impedindo-o de cair?

        lucklucky

        1. Primeiro leia a Biblia (sobretudo o AT), depois falamos.

          Recuperando a analogia Pai/Filho, o que pode aprender uma criança, ou o seu pai, que morre de desinteria, numa dor lancinante, no meio da imundicie? Ou outra que aos 6 anos morre de leucemia? Ou outro que aos 12 anos é eviscerado por uma explosão de um carro bomba?

          Na minha ideia um deus que seja omnisciente, omnipotente e omnipotente e que permita o mal abjecto, a dor sem fim é um canalha, muito inferior moralmente aos humanos que dão a vida, em vão, pelos que sofrem e não são seus “filhos”….e caso eu esteja enganado e ele me chame à sua presença, direi que não lhe reconheço autoridade moral para me julgar…que se foda, mais a corte celestial

          Limitado é vossa excelência que até num balde de água vê uma conspiração marxista.

          1. Omnipotente, omnisciente, omnipresente….um Bem (Melhoramento do Homem) que apenas se pode adquirir pelo Mal (sofrimento, injustiça) deixa de ser um Bem. Não há Pai que, por Amor, não evite a exposição desnecessária do seu Filho à Dor sem sentido, à Morte.

            Regra geral a exposição do Homem ao Mal, ao Sofrimento sem sentido, apenas o torna pior.

          2. Ainda vai a tempo de perceber que se existe a cultura – está construído sistema de recompensa/punição social- não é preciso conspiração alguma.

            Por exemplo o seu problema com o Deus Abrâamico é claramente Marxista. Por isso é que quer um Estado que proteja tudo – o que implica ter Poder para tudo – como julga que um Deus deve fazer.

            Se não há doenças não há ciência, não há Planeta Terra. A imundicie deu.nos perceber a importância da higiene e mais a tarde os problemas q do excesso de higiene.

          3. Qual Marxista qual carapuça. Então proteger um filho ao sofrimento é tomar a educação de um ponto de vista marxista? O quê, queria que eu largasse o meu filho, como os espartanos, no meio do mato, com uma tanga de pele e uma adaga para ele saber o que é a vida? Meu caro o Estado não me dá nada. Tenho um PPR e um seguro de saúde. Não tenho direito ao subsidio de doença nem a outros. Sou trabalhador independente, com orgulho. Ao contrário do Luck que trabalha nas OGMA.

          4. Proteger? você não quer proteger os outros, quer controlar toda a realidade à sua volta.
            Quer é proteger os seus sentimentos.

            …até inventa onde trabalho, se está com problemas em me caracterizar pode sempre me chamar um nome feio…

            lucklucky

  11. A morte é o último refúgio dos deuses, como terá sido o seu berço.

    A morte é o último refúgio dos deuses, e o último tabu dos homens.

    Em dia de Sábado Santo, os crentes abraçam Nietzsche: Gott ist tot.

    1. É verdade. Para o que lhes havia de dar.
      Então não lhes era mais proveitoso, aproveitando a quadra de amor e tolerância, abraçarem as legítimas que de há uns tempos para cá andam de pé atrás com as patifarias dos trastes?
      Até podia ser, imbuída de verdadeiro amor cristão, que bem abraçada ela condescendesse em parcialmente acreditar que o flagrante dos copos no restaurante com a periquita, fosse sim apenas uma grande amiga que ele já não via há muito tempo.

  12. 70 comentários. É obra! Épico!
    O que a religiosidade, ou falta dela não provoca.
    Ou melhor: o que ambas não ensinam.
    Venha agora um pensamento sobre o buraco negro que a coisa dispara a maior velocidade do que a luz para lá da estratosfera.
    Isso é que vai ser um espoletar de sabedoria derramada, ainda mais grandiosa do que a explosão de uma bolinha no espaço, originou.
    Uma Páscoa feliz para todos.

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