Na política, na economia, no convívio social, nos relacionamentos amorosos, nas relações laborais e até nos media, nunca a verdade foi tão irrelevante como hoje.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Na política, na economia, no convívio social, nos relacionamentos amorosos, nas relações laborais e até nos media, nunca a verdade foi tão irrelevante como hoje.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Correndo o risco de não ser entendido, por usar o que passou a ser um arcaísmo, eu diria que, mais do que a irrelevância da verdade, o que mais nos afeta é a irrelevância da honradez.
João de Brito
Absolutamente. Pode juntar-se à falta de carácter .
A verdade também não é única ou sequer absoluta.
Sim, Maria Dulce, a verdade não é única. Mas falo de outra coisa. De uma cultura que incentiva a hipérbole, o eufemismo, a elipse, em quase todas as facetas das nossas vidas. Dizer a nossa verdade sem rodeios é visto hoje, mais que nunca, como uma coisa rude, estranha até.
Percebo a sua hesitação, João de Brito. “Honra”? que conceito antigo!!
A honradez é que coisa…?
Obrigada…
Está out
“e até nos media” ?!…ou sobretudo nos média, com especial ênfase no mau uso da ‘caixinha mágica’ …!!!
Os media, como sempre, amplificam e ajudam a consolidar o l’air du temps
Em todas as épocas houve quem fizesse comentários desanimadores como os que estão acima. Em todas as épocas houve quem dissesse: dantes é que era bom. O melhor é não fazer caso e continuar a viver alegremente e com optimismo.
Não sei que idade o Senhor tem.
Mas, se tem mais de sessenta, não deixará de concordar comigo, da mesma forma que eu concordo consigo no que diz respeito à generalização.
De facto, há muitos aspetos em que a sociedade é agora muito melhor que antes.
Mas não é certamente no que diz respeito à confiança nas pessoas e nas instituições.
Infelizmente!
João de Brito
Não fazer caso, assobiar para o lado, deixar andar é sempre uma opção, pois é…
É muito mais do que a verdade, é uma completa falta de valores! Vivemos num mundo de falsidade, de hipocrisia, de manipulação, de aparências e de estupidificação em massa.
E os media são o principal responsável pela estupidificação em massa.
Essa é muito velha!
Os media não são a génese destas mudanças de cultura, mas claro, ajudam a consolidar, a difundir…
O homem que prega moral é usualmente um hipócrita, a mulher moralizadora é invariavelmente feia. Oscar Wilde
Caro anónimo, a frase é demodée. Hoje o politicamente correcto exige mais sofisticação na forma como se expressa a misoginia.
Fora de moda, sempre e felizmente. Se há coisa que me encanita é a infantilidade de querer estar dentro da moda. E suficientemente feia para dizer a frase sem me sobressaltar (ah, céus!).
Mas se não gosta da frase, explico-a melhor. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que gente verdadeira, honrada e de carácter perde muito pouco do seu tempo a apontar o dedo ou a atirar pedras. A estes – gente decente – sobra pouco tempo e disponibilidade mental para a pregação. Além disso, qualquer pessoa com alguma experiência de vida, sabe que as más surpresas vêm normalmente do lado dos pregadores.
“Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que gente verdadeira, honrada e de carácter perde muito pouco do seu tempo a apontar o dedo ou a atirar pedras. A estes – gente decente – sobra pouco tempo e disponibilidade mental para a pregação. Além disso, qualquer pessoa com alguma experiência de vida, sabe que as más surpresas vêm normalmente do lado dos pregadores”, disse a anónima com duas pedras na mão.
Ou seriam duas flores? Desejo-lhe as maiores felicidades.
Pregar NÃO é atirar pedras ou apontar o dedo !
Quanto ao pensamento em destaque esta dou-lhe inteira razão pela experiência de vida que tenho.
A verdade é cada vez mais um conceito abstrato.
WW
La donna è mobile
Qual piuma al vento,
muta d’accento
e di pensiero.
Sempre un amabile,
leggiadro viso,
in pianto o in riso,
è menzognero.
La donna è mobil’.
Qual piuma al vento,
muta d’accento
e di pensier’!
È sempre misero
chi a lei s’affida,
chi le confida
mal cauto il cuore!
Pur mai non sentesi
felice appieno
chi su quel seno
non liba amore!
é mais “sofisticado” 🙂
A verdade depende da perspectiva pois, sendo os factos exactos, muito depende da sua recepção ou da sua interpretação, e geralmente de ambas. Quanto mais o ponto de visão se aproxima do umbigo, mais bem definidas ficam as vistas desse ponto. O que, tristemente, não faz da verdade um valor umbilical.
Sarin, em resposta à Maria Dulce, aqui em cima, já esclareci esse ponto.
Percebido o ponto, reformulo sem tirar validade à anterior, pois que uma das vantagens de um debate em torno de um pensamento é também o fluir dos muitos horizontes que este convoca. As tais perspectivas 🙂
Ser mais fácil ou mais difícil suster e sustentar a nossa verdade depende da sensibilidade que tenhamos perante as sensibilidades dos outros. Ser mais fácil ou mais difícil perceber as verdades dos outros é um exercício de acuidade visual e mental. Resistência e perfuração: a verdade é o novo ouro.
Sarin, o que comento é o manifesto desinteresse que observo nas pessoas em exporem a verdade nas várias facetas da sua vida. Por falta, justamente, de uma audiência que revele a sensibilidade de que fala para perceber as razões do outro e também porque hoje o discurso se reveste de roupagens que não compaginam com a nudez de uma exposição transparente e honesta.
Mas a exposição pressupõe algum auto-conhecimento ou a vontade na descoberta. Conhecer-se-ão as pessoas? E, conhecendo-se, gostar-se-ão? Talvez o discurso programado seja apenas mais uma capa com que evitam olhar-se.
Desculpe voltar atrás, Teresa, mas a verdade, sendo umbiguista e não umbilical, faz com que as pessoas se conheçam pela pele… é, assim, natural que o discurso o não seja.
A Sarin desvia a discussão para o indivíduo, mas a partir do momento em que se observa um padrão, parece-me mais interessante olhar para o colectivo. A nova cultura do politicamente correcto está instalada. A coreografia mental está a fazer o seu caminho. Fala-se mas não se diz, ou diz-se o que esperam que se diga. A verdade, essa, anda a perder pontos em todos os planos da nossa existência, precisamente porque é o que é e não o que convém que seja.
Respondi ao seu notar desinteresse nas pessoas e roupagens no discurso, Teresa, pois as pessoas são, cada uma, o indivíduo. Estou habituada a olhar a causa para gerir o efeito, e aos padrões detecto-os como um todo mas analiso-os desmontando-os ao seu máximo divisor comum. Deformação profissional, talvez, mas o padrão formado nem sempre tem as mesmas causas, e por isso a desmontagem.
Se olharmos bem, provavelmente veremos, de um lado, o interesse político associado à detenção do poder por si mesmo fomentando a meia verdade; do outro, o marketing a apelar ao consumo e ao imediatismo; pelo meio, os conteúdos que se multiplicam e as ferramentas que no-los disponibilizam tornando as 24h insuficientes para um dia… a voragem e a urgência retiram tempo para a reflexão, para a análise, para a consciência fundamental a um discurso nu vindo de pessoas vestidas de si mesmas até ao tutano enquanto, despojadas de pressas, se dedicam a viver. A voragem é a causa e a consequência de tal padrão que se vê. Por isso as frases feitas colam, porque pensadas para colar; e os chamados “politicamente correctos” mais não são do que chavões. Deixemo-nos de tretas e não confundamos o politicamente correcto com o populismo; politicamente correcto é o discurso coerente com os valores que defende e com as políticas que preconiza. Mas para organizar tal discurso é preciso tempo para tentar perspectivas e construir novos padrões, tempo incompatível com a velocidade dos dias. E para aceitar tal discurso é preciso acalmar e mergulhar abaixo da espuma.
Só quando muitos o fizerem o padrão mudará.
Afinal, Sarin, parece que concordamos no essencial 🙂
Não tinha dúvidas disso, Teresa 🙂
Quid et Veritas?
Os poderosos, na esmagadora maioria dos casos , têm sempre “razão”, porque a verdade do que é dito depende mais da credibilidade, conferida pelo sucesso dos poderosos, e menos do conteúdo,veracidade, da informação veiculada. A “verdade”, para efeitos práticos, não é assim tanto uma questão de razão, como o é de credibilidade dos que falam e da credulidade dos que ouvem.
Não sendo, eu, ninguém, quem acredita em mim?
https://www.youtube.com/watch?v=7senWR9 1kQA
Pedro, mas isso acho que sempre foi assim. Agora o que noto é desinteresse em comunicar algo que se afaste do discurso politicamente correcto e essa é uma atitude transversal. Ninguém arrisca uma ideia fora da norma para não ser julgado, mal interpretado. Não interessa discutir o que realmente se pensa ou sente, mas revelar a atitude certa.
Teresa, recebo tantos miminhos por não revelar a atitude certa que tenho pena de não apontar tudo 🙂
Mas sim, vê-se muita gente entrar timidamente em tais águas e não aguentar os primeiros salpicos, deixando-se ir na corrente sem sequer testar as suas forças.
A Teresa, ainda é uma jovem. Em chegando à minha idade já não se importará com o que outros pensam, ou dizem, sobre o que pensa, ou diz…eu só não vou de pijama ao hipermercado porque ainda preciso de trabalhar… isso e porque tenho duas crianças menores
Mas podes ficar de pijama a aguardar que o supermercado te chegue a casa
Mas ficava sem o prazer de mostrar o meu desinteresse pelo interesse dos outros.
Certo, vais ao supermercado como quem folheia revistas no cabeleireiro… cuidado não te desfolhem
Mas eu não escrevi sobre mim. Acho mais interessante discorrer sobre os outros. É por isso que escrevo aqui e não nas redes sociais…
Este comentário responde a uma observação que o Pedro fez acima ( o Sapo de vez em quando troca-me as voltas, ainda não percebi como evitar)
Hoje?
Só é preciso ler a história dos revolucionários, não fim não passam de actores.
Kafka não escreveu no presente, nem Orwell.
Há sempre gente que está muito à frente, outsiders. Não é sobre esses que escrevo.
Mas retratavam a sociedade. É o resultado da hiperpolitização da sociedade – no caso de Kafka a burocracia como resultado dessa hiperpolitização.
Falo da hiperpolitização como o mecanismo sucessor da hipereligiosidade com um interregno mais ou menos liberal pelo meio, nas sociedades ocidentais. Hoje com o Politicamente Correcto que é o sinal de hiperpolitização voltámos às blasfémias, aos traidores de classe do Marxismo expandido para as classes sexuais https://www.nytimes.com/2018/10/06/opini on/lisa-murkowski-susan-collins-kavanaug h.html , raciais, etc…
Traidor de classe talvez um paralelo a quem era acusado de bruxaria.