Estive a ver a chegada do Papa a Fátima e a procissão das velas. Mesmo o mais empedernidos dos descrentes deve ter sentido uma pontinha de comoção ao ver toda aquela alegria e devoção. Não estou em Fátima, com pena minha, mas não estou especialmente treinado para fazer longos percursos em bicicleta em pouco tempo, como me propuseram, e combinações de última hora acabaram por não surtir efeito. Por isso, assisto às cerimónias pela televisão.
Todos os anos sucedem-se as peregrinações a pé até Fátima. A esmagadora maioria dos peregrinos segue pela estrada, com todos os perigos que isso acarreta. Mas não têm necessariamente de o fazer.
Têm caminhos alternativos, por troços secundários e mais seguros, tal como acontece como os que vão para Santiago.
Os Caminhos de Fátima são um projecto do Centro Nacional de Cultura e uma ideia original de Helena Vaz da Silva. Pretendem levar os peregrinos em segurança desde o ponto de partida, seja ele qual for, até ao santuário de Fátima. Para já não há muitos albergues e pontos de descansos. Mas há indicações, muitas, que mostram a quem por eles segue a direcção do seu destino. As setas azuis, em fundo branco ou não, indicam o rumo até à Cova da Iria.
Nas últimas semanas, e com a aproximação do Centenário de Fátima, várias equipas de voluntários, entre os quais o escritor destas linhas, entretiveram-se a desenhar ou redesenhar as setas do caminho. Boa parte do traçado é dividido com o Caminho de Santiago, aproveitado para fins idênticos, indo cada uma na direcção inversa do outro. Assim, as setas azuis “esbarram” nas amarelas.
Os Caminhos de Fátima dificilmente alcançarão a importância cultural dos de Santiago. Há que recordar que os trajectos até à cidade do Apóstolo vêm desde tempos imemoriais, têm mais de mil anos, e durante séculos foram as únicas vias terrestres a servir esse importantíssimo ponto de peregrinação. Os Caminhos de Fátima nasceram na época do GPS, da net, das autoestradas e do transporte individual, e portanto nunca alcançarão a mesma notoriedade, nem são para já um “clássico” das peregrinações a pé. Mas cumprem o seu propósito, dando aos peregrinos uma segurança que não têm na estrada. Além disso, permitem-lhes conhecer melhor o país, observar mais atentamente a paisagem e descobrir pormenores singulares. No troço que coube à minha equipa, por exemplo, e que começava em Conímbriga, (a mais importante estação arqueológica romana de Portugal), passei por uma aldeia chamada Fonte Coberta que nem consta dos mapas, mas que em tempos acolheu o grão-duque da Toscana Cosme III de Médicis na sua ida para Santiago e o Marechal Soult na sua debandada da 3ª Invasão, por caminhos de floresta onde se praticava motocross, por vales de rios secos e perto de castelos no alto de penhascos aparentemente inacessíveis.
Fátima é um ponto de chegada, de fé e de devoção, mas pode ser também um caminho de esforço e de resiliência sem ser um tormento, e sobretudo sem ser um perigo latente que obrigue a caminhar na margem da estrada. Talvez os Caminhos não sejam ainda muito usados nem sejam ainda vistos como a alternativa aos mais conhecidos. Por isso mesmo, este Centenário pode significar não uma oportunidade menos aproveitada mas sim a alavanca para percursos mais seguros e interessantes e que dê a quem os use uma nova perspectiva do país, até aí escondida pelas “ruas da estrada”e pelo trânsito incessante.

O caminho português de Santiago passa em frente à minha casa na aldeia, situada entre Coimbra e Aveiro. Vejo passar por lá muitos peregrinos estrangeiros. Sempre me perguntei porque não haveria coisa similar para Fátima.
Nunca vi passar por esse caminho peregrinos em sentido contrário, indo para Fátima. Apesar de ser precisamente o mesmo caminho. (É aliás parte da antiga estrada romada que ligava Lisboa a Braga.)
É outra fauna.
Julgo que há ligeiros troços em que não coincidem. De qualquer maneira, caso o Caminho de Fátima seja o mesmo que passa em frente a sua casa, é provável que com a maior divulgação passe a ver peregrinos em sentido contrário.
Tenho ideia de que o Caminho de Santiago, depois de Condeixa e para sul, desvia-se para o interior para o lado de Conímbriga, da serra do Rabaçal e de Penela, eventualmente em direcção a Tomar — enquanto que o caminho para Fátima se faz para o lado de Pombal e que os que vêem do Norte seguem sempre a direito por ali a baixo. Não faz sentido darem a volta pelas serranias porque tinham de ir por montes e vales quase até Ourém para passar para o lado de Fátima por causa das serranias que vêm desde Alvaiázere. Ou coisa do género. O caminho por ali seria mais bonito, mas também muito mais difícil.
Olhe que nesse ponto o caminho precisamente o mesmo: se olhar bem para a segunda foto, notará que aparecem as duas setas em sentido divergente. Essa imagem foi tirada entre Conímbriga e Zambujal, antes de Rabaçal.
Caro Crente
Também o sou.
Abomino a exploração “comercial” e “politica” do evento…
Pena não poder enviar-lhe uma foto d´’um postal publicitário datado de 1940 .
Imagem:
NS de Fátima e os três Pastorinhos a rezarem de joelhos ( imagem tradicional)
” Oferecido pela casa BAYER
COMPRIMIDOS DE ASPIRINA
Boa Fé
Da altura em que tudo quanto era “nacional” era aproveitado pelo comércio da altura. Apesar disso, há pior.
Eu também “Estive a ver a chegada do Papa a Fátima”.
“Todos os anos sucedem-se as peregrinações a pé até Fátima”, e eu fico sem perceber porque é que depois de tanto sacrifício, pelo menos dois ou três peregrinos não tenham passado pelo pódio.
Paradoxalmente, só os que chegam em bons automóveis, utilizando boas estradas, tem direito a ocupar lugar na tribuna de honra.
Eu gostei de ver ali o nosso Presidente da República, o Primeiro-ministro, o Presidente da A. da Republica e a maior figura da Democracia Cristã, Assunção Cristas.
Confesso que gostaria mais de vê-los a calcorrear “quilómetros” “Pelos Caminhos de Fátima” como os demais peregrinos e depois saber que em recompensa, a dívida soberana seria paga em poucos dias.
Mas um milagre destes só seria possível com a ajuda do cofre do santuário e não de Nossa Senhora.
Na realidade toca em um ponto essencial. Infelizmente a Igreja dita representativa em Portugal ainda não é a Igreja de Francisco e de João XXIII. Mas a Igreja do Povo de Deus também não o é, porque circunda demasiado em torno das vestes sacerdotais.
Todavia tenho constatado um novo fenómeno, que é os nossos irmãos e irmãs de outras paragens cristãs cada vez mais se socorreram da dita autoridade dos consagrados católicos, de alguns, para tentar legitimar suas teses.
Os mimetismos desta Igreja Nacional revela sua secura na busca de leigos como conferencistas “acreditados”, que em nada representam a heterogeneidade do Povo de Deus. São muito colados à Igreja dita representativa, mas pouco soltos com o Povo de Deus.
A sacralização da lei e do rito ainda perdura, e perde-se o Sagrado e a Sagrada edificação do Reino.
“Buscai o reino de Deus e sua Justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Infelizmente ainda se vive de acréscimos e é natural que se perca de vista o reino.
Como disse Francisco, Fátima, isto é Maria, é uma voz para ser escutada. Mas há sempre quem queira falar em nome d´Ela sem a escutar primeiro.
Quem sabe se não o percorreram, um dia. Mas estão ali por convite das autoridades do santuário, tão simples como isso. Ali não há pódio nenhum: não se trata de uma corrida para alcançar primeiros lugares. Se o fosse, iria contra o espírito do lugar.
Caro João Pedro Pimenta,
cheguei agora de Fátima onde a minha vela foi uma entre milhares. Estar ali naquelas horas que pareceram breves minutos afagou a alma triste de pecador.
Obrigado por vir aqui neste blogue escrever sobre Fátima, de forma a que eu possa também transmitir o meu testemunho.
Quantos aos caminhos… O problema é que há diversos. Eu por exemplo partindo de Lisboa a pé já fiz três diferentes.
Abraço em Cristo e Maria Santíssima.
Todos os testemunhos são benvindos. E estar na Procissão das Velas é algo que não se explica. É daqueles casos em que as palavras são supérfluas.
Quanto aos caminhos, quantos mais houver melhor. As setas ajudam e orientam, mas desde que se chegue em segurança todos são válidos. Curioso é que há bifurcações que complicam, já que têm setas em ambas as direcções (muito embora se reencontrem mais à frente).
Já fiz os caminhos de Fátima desde Coimbra, momentos inesqueciveis, sem trânsito e sem poluição. Adorei
Então passou no troço de que a minha equipa ficou responsável e sabe exactamente do que falo.