Neste outubro vou acionar esta possibilidade blogal para assinalar uma mudança direcional na minha atitude face ao acordo ortográfico de 1990, exceto se estiver a lecionar pois as mutações ainda não foram oficializadas em Moçambique. A razão para tal é um extremo cansaço diante deste furibundismo, cansativo, as constantes invetivas contra quem escreve com a grafia acordada segundo o taralhouco (sim, taralhouco) documento. A volúpia identitária, estas ereções (pois, mudou …) conseguidas através do “nós” versus “eles”, numa constante coleção de infratores, selecionando os bons (os tais “nós”) e os maus (os tais “eles”). Nada mais do que um projeto de fracionar o país Portugal ainda mais do que já está na atualidade. Deve um país ser um coletivo unânime? Nada disso, e ainda bem que se conflitua, e através de várias ações. Mas isto de se fazer uma direta associação entre inteligência e qualidade e o tipo de grafia que a expressa é um raciocínio dececionante, é essa a minha perceção. Adoto então as alterações, ainda que não as considere ótimas, e não me preocupam as suscetibilidades dos fundamentalistas ortográficos (ou quaisquer outras), sabendo que estes confundem a ética da convicção (ah, ah) pelo compacto (idem) facciocismo (aspas). Cedo, assim, de paraquedas aos mandachuvas acordistas, que creem no pós-império homógrafo, na coocorrência gráfica? Não tudo, hei de continuar resmungando contra a lusofonice tardoimperial (será assim?), cartão de visita do serôdio republicanismo colonial que, por via maçónica, amamentou o partido socialista (será assim?) até à sua tardia, até preocupante, adolescência. Mas continuo ateu, e não vejo sagrado nas letras. Ou por outra, antes as letras caídas do que a mania, de contrassenso feita, de que a regra gráfica determina a qualidade do escrito.
Nota: agradecendo a este sítio a cábula proporcionada.


É a sério isto?
Então, está farto da guerra “nós” vs. “eles”, vai daí junta-se a “eles” para ficar contra “nós”. É isto? Ai ma-schamba, que grande troca de tintas que para aqui vai…
Coitado… Passou-se! (literalmente)
Nota: As “invetivas” são o máximo.
Mais um fraco, com a conversa mole de sempre. Então Adeusinho.
Não é fraco. As pessoas têm as suas vidas.
E como explica esta linguista brasileira:
“Então, podemos perceber que a escrita não depende da língua em uso, mas de decisões tomadas por alguns estudiosos da língua, segundo interesses sócio-políticos de uma nação.”
MARCIA MEURER SANDRI
Mestre em Língua Portuguesa UERJ
Alguns idiotas chamariam a isto uma reles monstruosidade a caucionar o totalitatismo, mas não podemos cair em fundamentalismos.
as línguas mudam, algumas morrem (não tarda, só se falará chininglish), mas apesar disso os autores clássicos perdurarão, se não na língua original, se não na ortografia original, pelo menos traduzidos naquela língua que no futuro será universal.
isto a propósito do barrete que nos querem continuamente enfiar com a propalada afirmação do bernardo soares aka fernando pessoa:” a minha pátria é a língua portuguesa”…
disse então o poeta em defesa da sua orthografia e contra a ortografia que agora usa quem usa a defesa que o poeta usou para combater exactamente essa ortografia:
“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”
pois é,
Odeia a ortografia sem ípsilon – ou seja, a ortografia simplificada que diz, acima, não o incomodar.
Sobre a ortografia, o valor a defender é o da estabilidade ortográfica – que demora séculos a atingir e exige uma escolarização geral e eficaz. Por isso, a estabilização ortográfica é típica de países do 1º mundo: a língua inglesa nunca teve reformas e Alice Munro escreve na mesmíssima ortografia em que Dickens escreveu; o francês teve alterações em 1750… Pequenas alterações teve o alemão e o castelhano – que mudou umas 12 palavras (exceptuadas as mudadas por regras de hifenização – mas tudo é facultativo, por respeito com os utentes – sic!).
A mudança de milhares de palavras, sem qualquer justificação, é um acto totalitário inédito na história do mundo – exceptuados Portugal e o Brasil – países com baixos índices de alfabetização e longos hábitos ditatoriais.
E para que não se sinta a loucura de tudo isto, chamam-se àqueles que se indignam contra este crime cultural “fundamentalistas” ou maçadores.
Sem nenhum fundamentalismo – que os detesto tanto ou mais do que a sujeição da língua às conveniências políticas e económicas – eu não cedo.
Mas leio autores que escrevem em acordês se isso for a única forma de ler quem gosto de ler, embora tropeçando constantemente nas consoantes caídas no chão das páginas.
Subscrevo inteiramente o segundo parágrafo, Ana.
Fico furiosa, triste, indignada, decepcionada, mas… há realmente autores de que muito gosto e não vou deixar de os ler!
🙂
Antonieta
Não.
O abortês continua a fascinar-me. A palavra “coocorrência”, por exemplo: faz-me lembrar o “cooco”, que põe ovo em ninho alheio. Já a “ereção” causa-me “suscetibilidade”: parece-me indício de pouca “ação”. Sem facciosismo, é lógico que se “fracione”. Mas sinto-me sempre “dececionado” quando se beneficia o “infrator”.
Felizmente houve gente que, apesar do “furibundismo, cansativo, [d]as constantes invetivas” da gente do reviralho, não se voltou para a situação salazarista.
Outros estômagos.
Faz no entanto bem em aderir à ortografia novíssima. A língua portuguesa (principalmente no Brasil, mas em todas as possessões do 5º império) depois da venerável reforma (ditatorial) de 1911 tem sido a flama da Razão que guia o mundo.
Saúde e fraternidade.