PCPês


Tiago Mota Saraiva,

 

É sabido que o PCP, na linguagem usada por quem o representa, tem uma forma de expressão muito própria que não encontra paralelo noutros partidos. Termos como “governo patriótico e de esquerda” são repetidos pelos seus dirigentes de uma forma exacta pelo facto de serem o produto da discussão colectiva e o seu significado estar perfeitamente definido no seio do partido. Todas as palavras contam: “preparar o país para a saída do euro” não quer dizer “saída do euro”.

O que perde em eficácia na comunicação com o seu exterior e na ambiguidade de que tantas vezes se faz a política, ganha na seriedade dos limites e objectivos do que se diz e das palavras que se empregam. Dando mais um exemplo, o PCP não aceita ou utiliza o termo “geringonça”, tanto por ter uma conotação negativa como por o englobar num mecanismo de governo do país do qual, objectivamente, não faz parte. Só por lapso, algum dirigente do PCP referirá a palavra.

Há três semanas foi publicado o projecto de resolução política proposto pelo Comité Central, resultado da discussão ocorrida dentro do partido nos últimos seis meses, e que será debatido e discutido em todas as suas organizações até ao XX Congresso no mês de Dezembro. Em PCPês: “As Teses”.

O documento não é de leitura fácil mas exigia-se que lhe fosse dado maior atenção no espaço público. Afinal, uma qualificada interpretação do que o PCP foi declarando antes das últimas legislativas, quando se referia que tudo faria para “derrotar o governo de direita”, já prenunciava muito do que se veio a passar. Não existindo, em 95 anos da sua história, muitos momentos em que a acção do PCP vá muito além do que está escrito nas suas Teses – e, repito, ainda que o actual documento vá sofrer alterações até ao último dia de Congresso -, ali estão bem claras a forma como caracteriza a actual situação governativa e as iniciativas que deverão ter o seu apoio parlamentar.

 

(publicado a 10/10 no i)

4 comentários em “PCPês”

  1. No dia em que o «serralheiro» devolva o PCP a «doutores» é o fim do Partido.

    A cassete do Jerónimo tem mais provérbios populares do que a dos doutores.

    Impecável!

  2. o PCP tem uma forma de expressão muito própria que não encontra paralelo noutros partidos

    Enquanto que os dirigentes dos outros partidos exprimem em geral as suas opiniões e usam as suas próprias palavras, os dirigentes do PCP exprimem sempre a opinião do “coletivo” e usam as palavras escolhidas para esse efeito pelo “coletivo”.
    Por isso se diz que são umas cassetes.

  3. Uma elite, freneticamente, com óbvio deleite, sempre, em “luta”. E uma militância à altura.

    A capa da última edição do Avante tem 3 vezes a palavra “luta” a vermelho.

    Rara é a capa do Avante aonde essa sintomática palavra, “luta”, não apareça a vermelho.

    Hufff!.

  4. “…ali estão bem claras a forma como caracteriza a actual situação governativa e as iniciativas que deverão ter o seu apoio parlamentar.”

    Aproveitando estas palavras e correndo o risco de fugir ao tema, tal qual o autor o terá concebido, não posso deixar de comentar o que acabo de ver e ouvir nos media.
    Somos, de facto, um povo que pensa pequenino!
    Não somos capazes de sair dos mínimos, com o pavor de não sermos capazes de os não atingir.
    Refiro-me aos objetivos/metas mínimos para o ensino.
    E não é só uma falta de ambição: é também um atávico erro de perspetiva.
    Colocamos a referência numa tabela exterior e abstrata, em vez de a colocar no único sítio adequado: no aluno.
    Deste modo, os mínimos traçados continuarão inatingíveis para muitos. E todos os que poderiam ultrapassá-los ficarão inevitável e definitivamente castrados.
    Para quando os objetivos/metas máximos?
    Os máximos de cada um?
    De cada aluno… e de cada professor?
    João de Brito
    Nota: A experiência de 40 anos redondos de ensino e vivência de avô de seis netos provou-me que as famílias e as escolas subvalorizam as capacidades das crianças e adolescentes, o que conduz à generalizada falta de exigência e à consequente mediocridade.

    João de Brito

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