Em criança percebi que os adultos nunca usavam a palavra Pátria e que nas raras vezes em que a pronunciavam era com desdém, por isso aprendi a dizê-la apenas em tom de mofa. Mais tarde descobri que era conotada com a direita mais extremista, o que explicava a sua parcimoniosa e peculiar utilização. Noutros países, notei, não provocava o mesmo embaraço, uma diferença que sempre me fascinou.
Pátria, que é o nome que se dá à terra onde se nasceu, em português só fica bem nos livros de História, nos poemas épicos ou satíricos. Também se usa nos discursos políticos, mas neste caso trata-se de jargão profissional. “Servir a pátria”, é uma expressão que soa a ridículo a não ser que seja usada em contexto militar, como eufemismo para “ir para a guerra”.
Esta reserva cultural relativa à palavra deve explicar a relação instrumental que os governantes mantêm com o país. Incapazes de o pensar, de passar por uma vez, além da Taprobana, que é como quem diz além dos seus pátrios, sérios e vetustos umbigos.


Penso o mesmo, especialmente ao assistir em França ao 14 de Julho, ou ao ver na televisão o 4 de Julho nos EUA. Enquanto outros povos — americanos, ingleses, russos… deliram com os seus dias nacionais e eventos que os unem enquanto povos e nações, nós apenas conseguimos escarnecer deles. Este ano, o 10 de Junho serviu para apupar o governo, como se faltassem outras ocasiões. Não se trata de ser de direita ou de esquerda, chavões de conveniência, muito úteis para evitar o pensamento crítico. Trata-se da nossa incultura, da mentalidade rasca, do deita-abaixo permanente porque ninguém é tão esperto como nós.
Temos uma relação tão tortuosa com este país, José Catarino. Não seremos caso único, mas quando nos comparo com outros povos lembro-me invariavelmente dos exemplos que deu e sinto que é uma tristeza privarmo-nos desse saudável orgulho que observamos nesses lugares. Depois, quando concluo que as nossas elites políticas são fatalmente forjadas nesta cultura do bota-abaixo percebo como lhes deve ser fácil não levar nada demasiado a sério.
Esta peculiaridade afecta o nosso espírito de cidadania e isso é uma tragédia.
Gosto da palavra pátria, Teresa. Como gosto de outras palavras aparentemente em desuso. Se calhar é também por isso que gosto delas.
Eu é como escrevi, habituei-me a estranhá-la. Não consigo usá-la, como acontece com a maioria dos portugueses. Mas é tão estrahna esta faceta da nossa portugalidade. E nefasta.
Podemos agradecer aos revisionistas de serviço a vergonha das palavras e a vergonha pela história.
Não só, mas também.
É interessante, num post sobre a pátria, ver uma ilustração com caravelas com a cruz de Cristo. É que essas caravelas não estavam, contrariamente ao que muita gente julga, ao serviço da pátria – elas estavam ao serviço da Ordem de Cristo. Quem encomendava as explorações efetuadas por essas caravelas era a Ordem de Cristo, não era o rei de Portugal. Como tal, elas não representavam a pátria. Tratava-se de um empreendimento privado.
Então e o escudo com as quinas não lhe serve de símbolo pátrio porquê?
… no máximo, pode falar em PPP, seria uma parceria público-privada. De qualquer forma, essa afirmação carece de melhor sustentação, identificando os “privados” envolvidos, sem ser a ligação óbvia à Igreja Católica, etc…
Tem ainda que me explicar qual foi o território “descoberto” que a Ordem de Cristo administrou directamente, após a morte do Infante D. Henrique.
Para uma afirmação dessas não basta mandar bocas, Luís.
A afirmação não é minha, li-a no livro Portugal: A primeira aldeia global, de um autor inglês, que está aí à venda nas livrarias.
O Algarve nesse tempo era inacessível ao resto de Portugal a não ser por mar, e era integalmente pertença da Ordem de Cristo. Foi ela que, explorando os recursos (nomedamente em madeira) do Algarve, montou as primeiras expedições. Note-se que o infante D. Henrique era o chefe da Ordem de Cristo.
É claro que depois da morte do infante a coisa se alterou, aliás no tempo de D. Afonso 5º a exploração da costa africana até foi concessionada a um privado. Mas também, nesse tempo já não se usavam caravelas, já se usavam barcos mais elaborados. E, é claro, já não se usava a Cruz da Ordem de Cristo.
Agora, o que eu pretendo salientar é que, se a Cruz de Cristo estava nas caravelas, isso é precisamente porque essas caravelas pertenciam à Ordem de Cristo – não pertenciam ao rei de Portugal.
Pois, mas repare essa afirmação tem um sentido limitado, mesmo no tempo do Infante D. Henrique.
Por um lado, isso resulta da força dos ducados então criados, no caso o Ducado de Viseu, por outro lado havia interesse estratégico em reclamar Lanzarote-Canárias para a Ordem de Cristo, porque havia mais interessados nas Canárias, nomeadamente os Duques de Medina-Sidónia. E ainda, o poder após a morte de D. Duarte teve um balanço delicado na regência do Infante D. Pedro.
Nada disso tem a ver com a Ordem de Cristo, tem a ver com uma questão de poder ducal. Um dos vários motivos para a batalha de Alfarrobeira é uma recusa de passagem por terras do Duque de Coimbra ao Duque de Bragança.
Sim, a Fernão Gomes foi cedido o comércio em troca de avanço na descoberta, mas não a administração, nem nenhum controlo, apenas financiamento.
Quanto ao resto, dizer que as caravelas e naus seguintes não tinham a cruz da Ordem de Cristo, é mesmo não olhar para nada. Basta lembrar as inúmeras ilustrações das Armadas de Pedro Álvares Cabral, de Vasco da Gama, que foram feitas sob ordem directa do Rei D. Manuel. al_armada_of_1500_(Livro_de_Lisuarte_de_ Abreu).jpg
Tem gravuras da época no livro de Lisuarte de Abreu:
http://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Cabr
Portanto, não se fie só no que lê num livrinho escrito por um inglês. Dá para ter a primeira ideia, mas não dá para fazer afirmações categóricas, que estão essencialmente erradas.
As velas da Ordem de Cristo serviam para legitimar o revelar no seio católico do poder papal.
Note que revelar significa colocar nova vela, novo véu.
Não confundir com desvelar que significa tirar o véu… mas imagino que você saiba isso, porque acha que a tradição linguística não tem nada para lhe ensinar.
Por um lado houve descobertas, que tiraram o que estava coberto para comércio, mas houve muito mais “recobertas”, pois serviram para encobrir, destruindo o registo de uma outra história que a população não deve conhecer.
Mas deixe lá, não se preocupe, que aos inocentes de espírito foi prometido o reino dos céus…
É o incómodo ridículo na utilização da palavra. Mesmo sendo uma palavra com carácter, poderosa, tão bem utilizada pelo poeta no épico…
Posso falar da minha – com a orthographia de outrora?
—
A Pátria
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Creança! não verás nenhum paiz como este!
Olha que céo! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insectos!
Vê que grande extensão de mattas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o tecto que agazalha…
Quem com o seu suor a fecunda e humedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Creança! não verás paiz nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
(Olavo Bilac, Poesias Infantis)
Claro que pode. Tem boas razões para se orgulhar dela.
Agora que a Esquerda domina o Estado obviamente que a palavra Pátria volta a ser boa.
Digo mais, Lucky. Agora com o comuna do Portas na liderança da reforma administrativa tudo pode acontecer.