Não sei o que lhes passa pela cabeça, mas os patos têm claramente um comportamento diferente das outras aves de capoeira. Os patos andam sempre juntos, enquanto as galinhas são muito mais autónomas. Estas, tanto podem orquestrar uma formação em linha a penicar chão, lado a lado, para de repente se afastarem e andarem o resto do dia sozinhas, quase que ignorando as demais.
Os patos, como disse, andam sempre juntos ao ponto de não existir a entidade “um pato”, mas apenas “os patos”.
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Os primeiros que criámos, andaram por aqui uns seis meses. Quando foram para abate tinham demasiada gordura. Depois soube que três meses são suficientes para ficam compostos. Além desse tempo só acumulam gordura e produzem sujidade, e bastante sujidade. Os patos são umas aves que sujam muito a capoeira. Quando o bebedouro é usado exclusivamente por galinhas, precisa de ser limpo uma vez por mês, e apenas por rotina. Quando os patos entram em cena, o bebedouro passa a ficar entupido quase diariamente. A fisionomia do seu bico explica parte do fenómeno. O seu formato largo e achatado facilita a acumulação de comida e lama. A lama é provocada por eles, ao sacudirem a água para fora da concha do bebedouro. O chão enlameia-se e eles gostam de mastigar aquela papa de terra molhada, de a misturar com ração e de levar tudo novamente para dentro do bebedouro. Fica tudo um bocado emporcalhado, a barrica da água esvazia-se muito mais rapidamente, mas é assim que eles andam satisfeitos.
As galinhas lidam com eles com altivez. A primeira ninhada de patos que aqui tivemos foi recebida com muita bicada por parte das galinhas. Felizmente nenhum deles sabia o que é bullying e acabaram por se entender. Os patos esperavam que as galinhas comessem e se fossem embora, para então avançarem para o comedouro. Nas ninhadas seguintes, tudo passou a ser ainda mais pacífico.
Em conversa com uma criadora entendida soube que se um deles morrer, todos ficam afectados. Perdem o apetite e a ninhada fica toda em causa. Sabendo isso, e chegada a hora, faz sentido avançar para o abate de todos de uma vez.
Os patos chegam aqui com duas ou três semanas e sempre aos quatro de cada vez. Normalmente criamos oito patos por ano, o que equivale a duas ninhadas e a oito tabuleiros de arroz de pato por ano, distribuídos por oito dias de celebração especial.
A receita que fazemos foi herdada e corre sempre bem.
Para quem quiser tomar nota aqui vai ela:
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Bom apetite!

Espetacular: o Paulo queixa-se de que os primeiros patos que teve eram muito gordos, tinham gordura a mais. Mas depois confeciona os patos adicionando uma montanha de banha de porco, azeite, chouriço e toucinho, ou seja, gordura e mais gordura.
Sim a receita tem essas gorduras, mas não gordura de pato. Daí ser necessário que eles engordem tanto.
A minha avó também criava patos. Eles passavam todo o dia fora, a nadar nas marinhas de arroz que ficavam (e ficam) 100 metros à frente da casa. De manhã, punham-se em fila indiana, o pato à frente e as patas atrás, atravessavam a rua sozinhos e dirigiam-se, sempre sozinhos, para as marinhas. À noite, voltavam para casa, sempre sob a liderança do pato e em fila indiana. Ninguém precisava de os ir levar nem buscar, nem de os guardar durante o dia (andavam por lá a nadar e ninguém os poderia caçar).
Eles em grupo acabam por ser independentes. Mas sempre em grupo.
Nunca criámos os patos juntamente com as galinhas, até porque os da membrana interdigital gostam de nadar e tínhamo-los separados e com tanque privativo. E quanto gostávamos de vê-los nadar enquanto cresciam.
A receita do arroz de pato parece-me boa, mas demorada e consegue ser ainda mais opulenta em matéria gorda que a minha, cuja também aprecio (não frito o pato antes de cozê-lo e nem lhe junto presunto).
Obrigada:).
Uma vez também escavei um cova do tamanho aproxima uma banheira grande e forrei-a com tela plástica. Enquanto durou foi uma alegria para os bichos mas quando deixou de vedar acabou por se tornar apenas num buraco enlameado.
A receita é um bocado trabalhosa e tem de se preparar de véspera, mas vale o trabalho também por nos lembrar das refeições de há muitos anos, com familiares que já partiram. Esse é um valor da receita que vai além da vertente gastronómica.
Excelente texto, Paulo.
Adoro arroz de pato, um dos meus pratos preferidos. E (modéstia à parte) também sei cozinhá-lo bem. Embora não com a sofisticação desta receita antiga que aqui trazes.
Hei-de experimentá-la, com as devidas adaptações pontuais. Depois darei nota disso.
O alourar da carne na frigideira deve ser rápido para não engordurar muito. Com alguma diferença no resultado final há ainda a opção de cortar a carne em cubos ou desfia-la. Cortada dá menos trabalho mas quando é desfiada, o prato fica valorizado.
Espero que aprecies.
Nada tem a ver com pato com arroz no forno à portuguesa – que um restaurante com imaginação chamava na ementa pato escondido – mas é uma história de patos.
Há um ror de anos, numa pequena barragem para irrigação de campos de arroz no Ribatejo, vivia o maior povoamento de patos de Portugal (creio eu). Em zona não montanhosa e sendo pequena, a albufeira, rodeada de pinhais, tinha uma área considerável formando meandros onde era agradável pescar ou fazer piqueniques familiares, sendo os bandos de patos um factor enriquecedor do ambiente.
O administrador, um agrónomo do ministério, nunca permitiu a realização de provas de motonáutica mas, na sequência de um enfarte foi substituído por um colega que as autorizou. Fizeram-se duas provas em dois anos seguintes e mais nenhuma porque a albufeira, com zonas pouco profundas, não era adequada. Os patos nunca mais voltaram.
Hoje existe um parque de estacionamento e um estabelecimento tipo restaurante de praia que “povoou” o recanto em frente com meia dúzia de patos pífios a quem os clientes atiram pedacinhos de pão. Suponho que seja o progresso.
P.S. Conheço alguma coisa de culturas de arroz que vi produzido em campos, em lezírias, em várzeas, em paúis e, na Guiné, em bolanhas, mas hoje “aprendi” que também existem “marinhas de arroz”. Suponho que os pratos com acompanhamento desse arroz não necessitem adição de sal.
Devem estar interditos a hipertensos…
“marinhas de arroz”
É assim que lhes chamam naquela zona. Acredito que não seja o melhor português, mas é a designação que lá se usa.
Eu gosto muito de arroz de pato à portuguesa. Mas, confesso, que estes parrecos pequenos e assim a dormir em conchinha atrás uns dos outros, não têm grande sabor, e que dê um bom arroz. Parecem um bocado amaricados… e andam sempre em grupo porque lá está, são uns covardes, uns cagarolas, quando andam sozinhos!
Só quem os grelhassem numa grelha como os tordos , e bem esturricados …
São ideias
PS, confesso que pouco sei sobre patos para além do mais evidente e do que a tudo aquilo a que eles até são associados, ie, a coisas do tipo mais popular, “saber a pato” ou “cair que nem um pato”, às mais refinadas, em linguagem diplomática, como a do embaixador dos EUA na Guatemala, Richard C.P. Jr., a propósito do PR daquele país, Jacobo Arbenz, que para o apresentar como comunista recorreu a uma frase, por certo, do Emil Mazey (um líder sindicalista anticomunista dos EUA) que “arrumava” os seus adversários com tiradas do género de «Não consigo provar que és comunista mas quando vejo um pássaro que grasna como um pato, que anda como um pato, que tem penas e pés palmados e se associa a patos, assumo como certo que ele é um pato.»
Confesso também que por uma série de “imprevistos” na minha vida, eu que nem gosto em especial do sabor do pato, dei comigo a cozinhar arroz do dito… e, ultimamente, até para alguns dos membros da minha família, tailandeses.
Quanto à receita que posta, é mais uma de que tomei conhecimento – qualquer uma delas, não deixa de, de algum modo, acrescentar o habitual “um ponto” à que temos como nossa. Há quem aqui fale em “gordura a mais” («depois confeciona os patos adicionando uma montanha de banha de porco, azeite, chouriço e toucinho») e eu até nem tenho em especial a dizer sobre isso … é que eu como cozinho a olho nem imagino o que serão 50gr de banha de porco ou 0,5dl de azeite mas de uma coisa tenho a certeza, é a de que quem me “obrigou” a aprender a confeccionar arroz de pato (o meu filho), até apenas se dispunha a comê-lo para aí de mês a mês.
Fantasmas não deixam de aparecer diariamente…