Páscoa


Pedro Correia,

 

«E era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, gozando todos de grande simpatia. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse.» (Actos dos Apóstolos, 4: 34-35)

 

O dia que hoje celebramos no mundo de matriz cristã tem um significado que ultrapassa a letra da liturgia, podendo ser assimilado por todos os seres humanos de boa vontade. Simboliza desde logo a supremacia absoluta da espiritualidade sobre o materialismo. Simboliza o resgate de todos os injustiçados à face da terra – aqueles que, como Jesus, também sobrevivem à traição, à calúnia, à humilhação e à tortura. Simboliza enfim o triunfo dos justos contra a iniquidade política (personificada em Pôncio Pilatos, que sabia estar a permitir a condenação de um inocente) ou religiosa (personificada em Caifás, sumo sacerdote da Judeia). Cristo, ao transcender o plano da morte física após sucumbir sob intenso sofrimento, demonstra que todos os filhos de Deus são revestidos da mesma dignidade essencial. “Nenhum poder terias sobre mim se do Alto te não fosse dado”, diz a um perplexo Pilatos, segundo relata o Evangelho de João.

O cristianismo, para não trair a sua raiz nem o seu destino, jamais deve omitir a face humana de Jesus, que nasce numa gruta obscura e morre crucificado entre dois salteadores. Alheado de toda a glória mundana, despojado de todos os bens terrenos, proclama para a eternidade que nem a morte é capaz de travar a indomável essência do espírito.

Reflexão para esta Páscoa. Reflexão para qualquer Páscoa que vier.

 

Quadro: Ressurreição, de Marc Chagall (1937)

21 comentários em “Páscoa”

  1. Isso, Pedro. É esta sensibilidade (ia chamar-lhe visão, ia chamar-lhe cultura…) que falta à malta pseudo-intelectual.
    À malta ‘do que faz falta’.
    Porque é sobre isto mesmo que nos faz falta avisar.
    A malta.

  2. …e no entanto as piores horas para o cristianismo – e para o mundo – deram-se quando a natureza divina de Cristo se obnubilou e se esqueceu que Jesus é Deus feito homem.
    Há uma versão católica do tallit – esqueço-me do nome, mas na tela é mesmo o tallit.
    Feliz Páscoa!

  3. Bom Dia !
    Obrigada, é um prazer enorme continuar a acompanhar o vosso delito … Desejo a todos uma Páscoa repletinha de doces afectos, aqueles que verdadeiramente nos aconchegam …hoje e para sempre !

  4. E que malta!
    … Uma bela reflexão que nos devia deixar de sobreaviso. A humanidade enferma de egoísmo, vaidade e desprezo pelo próximo, causando a muitos de nós um enorme mau estar e perturbação.
    Trilhamos um caminho perigoso e não enxergamos o horizonte digno a que temos direito. Para os homens de boa vontade, crentes ou não, resta-nos a esperança. Bom Domingo de Páscoa para todos.

  5. Pedro, antes de mais, espero que tenha tido uma Santa Páscoa.
    Penso que este é o dia do ano, ano após ano, em que fico verdadeiramente suspensa do Delito, exactamente para ler a sua reflexão.
    É sempre surpreendente, sempre maravilhosa, sempre aquela leitura que tão bem traduz a simbologia cristã da época pascal e relembra a face humana de Jesus.
    Como são belas as suas palavras!
    Junto com aquele texto único que antes escreveu, mais uma reflexão que me deixa verdadeiramente extasiada.
    Obrigada por estes momentos.

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