Fim de tarde em Berlim. Junto à Gedächtniskirche grupos de turistas passeiam-se pelas bancas de postais, contemplando a Igreja e o que ficou dela.. Ao fundo o Kurfürstendam, sem a elegância de outrora, ainda assim imponente, árvores que se erguem de um lado e de outro. Dou uma volta, deito o olho aos postais, cumprindo parcialmente a minha existência de turista na mais emblemática do século XX e do outro lado da praça avisto a desgraça das desgraças, a tentação das tentações, mesmo com poucas horas de sono pelo voo madrugador aquilo a que resisto jamais: uma livraria. Do outro lado e em rebordo redondo ladeando a praça, as parangonas anunciavam o espaço, ainda mais evidenciado pelas bancas de saldos ou livros de ocasião no passeio. Faço um desvio. O Kurfürstendam pode esperar, dez dias seriam. Entro, como sempre, na senda das novidades e tendo em conta que já não visitava solo germânico há uns anos acorro fazendo mentalmente as contas do que perdi naqueles anos de ausência. No escaparate do lado esquerdo as novidades, nada pior para uma alma geminiana, a novidade, e deparo com um livro que havia de trazer na bagagem, um dos muitos. O título sugestivo, Generation Doof, é uma réplica a um outro livro que apareceu há uns anos na Alemanha intitulado Generation Golf, o retrato de uma geração que cresceu com o famoso carro. Mas doof marcaria toda a diferença, porque doof em alemão significa parvo. Estaríamos pois perante a Geração Parva, embora o título soe pessimamente em português, pelo que arriscaria antes, Geração Cretina ou Geração Idiota, Imbecil também não iria mal. No recato do lar, há livros que deixo a marinar durante uns tempos, pego no livro, enfastiada com as letras lusas e cansada das anglófonas num desses dias de Primavera serôdia. O episódio inicial revela um conteúdo promissor. Num concurso de beleza, foi pedido às candidatas que identificassem no mapa do seu país alguns Estados Federais e até cidades. A outra concorrente foi pedido que indicasse onde ficava a ex-RDA ao que a prestável beleza teutónica desenhou um risco longitudinal e arrumou a Baviera para a ex-Alemanha de Leste. E o disparate continuou: a Polónia no meio da Alemanha, Berlim logo ao lado. A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis. O livro é profusamente ilustrado com exemplos. A estupidificação em frente do LCD de última geração, esparramados no sofá entre snacks hipercalóricos, algures entre o DVD e a XBox e um sem número de gadgets. Teria já lido cerca de metade do livro quando fui tomada por um assomo de provincianismo e dei por mim a pensar que afinal, cá no nosso cantinho luso, não estávamos assim tão mal, já que os alemães sofriam da mesma ignorância e imbecilidade. Foi tudo isto antes de me aperceber – dêem-me o desconto, afinal estou quase no limite de idade para fazer parte da imbecil geração – que também os alemães, os ingleses, talvez os franceses, quiçá os espanhóis. Asnos e imbecis. A globalização no seu esplendor. Uma pandemia para a qual se desconhece vacina.
Também n’ A Curva da Estrada


Muito interessante. Claro que com o mal dos outros podemos nós bem, mas apercebo-me, aterrorizado, de que sinto um certo conforte.
Óptimo texto.
Foi o que me aconteceu, João. Ainda ontem a propósito do 9 de Novembro deram uma série de entrevistas com gente nova que não sabia que o Muro tinha caído a 9 de Novembro, por exemplo. É a globalização da ignorância.
Desgraça das desgraças, dizes bem. E é pandémico, de facto. Será esta uma das poucas razões que me fazem agradecer aos céus a idade que tenho. Parece que me safei, à pele, de pertencer à geração idiota… 🙂
Belo texto.
Detestei o post! O tom é absolutamente pedante
E eu detesto falar com anónimos que nem sequer têm a hombridade de ter um nome e se escondem no anonimato para exprimir uma opinião. É capaz de ser pedantismo , assumido neste caso.
Muito bem, incluindo o apontamento ‘à vol d’oiseau’ sobre as almas geminianas.
As novidades dão cabo deles…
Há um exercício interessante para testar os conhecimentos em geografia, que fazem nos EUA. Consiste em desenhar um mapa dos EUA e, dentro dele, as fronteiras de cada um dos 48 estados, identificando portanto o tamanho aproximado e as posições relativas deles todos. Escusado é dizer que pouquíssimos americanos são capazes de passar este teste (eu quando vivi nos EUA fiz este exercício uma vez com uma alta taxa de sucesso – desenhei corretamente para aí uns 35 estados).
Este exercício pode ser adaptado a diversos países. Portugal tem 18 distritos, a Alemanha 16 estados, etc.
O problema é que parte d”eles” também são nossos filhos. E dessa parte da culpa eu não consigo fugir. Leonor tem carradas de razão. O que eu não consigo é explicações seguras…
:))
Acho que nós, pais e professores lhes facilitamos muito a vida e os fazemos um bocadito preguiçosos. Mesmo que não queiramos acabamos por fazê-lo. Mas para além disso tem de haver outra explicação. O meu mal é que também estou abrangida pela Generation Doof 😉