Partido bacteriologicamente puro


Pedro Correia,

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O PSD acaba de dar mais um passo rumo a uma existência quase vegetativa. Em 2018, havia 70.692 eleitores inscritos – e, destes, votaram 42.655. Rui Rio, nesse confronto contra Santana Lopes, foi eleito por 22.728 militantes, enquanto o seu opositor recebia 19.244 votos.

Já era poucochinho, para usar uma expressão popularizada por António Costa, que em 2014 venceu as primárias do PS com 118.454 dos 174.516 boletins depositados por militantes e simpatizantes do partido nas urnas. Mas o presidente do PSD parecia achar muito: ordenou novo estreitamento de via, condicionando ainda mais o direito de voto. O resultado emerge da eleição directa ocorrida sábado: havia apenas 40.604 eleitores (menos 30 mil do que há dois ano) e só 31.306 foram às urnas (menos 11 mil). Daqui a cinco dias haverá novo escrutínio, com a realização de uma inédita segunda volta: Rio sai deste com 15.301 votos, cabendo 12.767 ao seu principal antagonista, Luís Montenegro, e 2.870 ao terceiro candidato, Miguel Pinto Luz.

 

Um cenário mais polarizado talvez incentive maior participação no sábado que vem, embora a recusa do presidente laranja em debater com Montenegro num frente-a-frente televisivo – como se os debates entre candidatos não fossem fundamentais em democracia – possa afastar ainda mais eleitores. Para já, Rio obteve menos 7.427 votos do que há dois anos. Pior: ficou 3.743 votos abaixo dos recolhidos por Santana Lopes em 2018.

O homem que detesta confrontar opiniões com os rivais internos, que retira capacidade eleitoral aos militantes (só na Madeira, feudo eleitoral laranja, ficaram reduzidos a 104) e transforma durante o processo eleitoral a página oficial do partido numa monolítica glorificação à sua imagem, apagando os adversários da fotografia, só pode dar-se por satisfeito. Com a depuração em curso, o PSD está mais bacteriologicamente puro que nunca. E na fase mais irrelevante de sempre.

39 comentários em “Partido bacteriologicamente puro”

  1. “Em 2018, havia 70.692 eleitores inscritos – e, destes, votaram 42.655.”

    https://observador.pt/especiais/angariacao-de-votos-em-lar-de-idosos-e-uso-de-meios-publicos-a-guerra-de-caciques-no-psd-aveiro-a-quatro-dias-das-diretas/

    https://www.google.com/amp/s/www.dn.pt/poder/amp/rui-rio-diz-que-nao-vai-facilitar-vigarices-no-pagamento-de-quotas–11486809.html

    Pois….entendo, agora.

    Sobre Rui Rio recusar novo debate talvez se justifique pelo receio que, para benefício do candidato com menos vergonha, se prejudique o Partido. Rio como homem sério poderia “metralhar” Montenegro e sua entourage mas, por uma questão de decoro e de natureza, nunca iria usar essa estratégia pois o Partido sairia comatoso.

    Eu próprio sei de coisas, realizadas, no Norte, por adeptos de Montenegro, que prometi guardar segredo. Não vale a pena insistir.

    1. Caramba, é então forçoso concluir que Rio só foi eleito devido a profundas irregularidades nos anteriores cadernos eleitorais.
      Talvez isso explique ele ter angariado agora menos 7.427 votos do que há dois anos.

      1. Voltei lá hoje, três dias depois: só Rio e mais Rio.
        Como se não houvesse uma campanha eleitoral interna no partido.
        Montenegro não existe para a página oficial do partido. Cortado da fotografia, como o Zé dos Bigodes fez ao que levou com a picareta.

  2. Impressiona a resistência a quem se propõe (e já provou de que é capaz) priorizar o interesse nacional e ser claro, transparente e assertivo.
    Impressiona, mas compreende-se:
    – mais do que diferente, é uma forma de estar na política diametralmente oposta à dominante.

    João de Brito

    1. O que me impressiona mim é alguém que você diz ser «claro, transparente e assertivo» fugir dos debates como o diabo da cruz, manipular a página oficial do partido, enchendo-a com o seu retrato e omitindo qualquer referência aos adversários internos, e fazer desaparecer por despacho administrativo quase dez mil militantes da Madeira dos cadernos eleitorais. Ainda por cima tratando-se da única parcela do País onde o PSD ganhou sempre eleições.

      Caramba, o que faria se o homem não fosse «claro, transparente e assertivo».

      1. fazer desaparecer por despacho administrativo quase dez mil militantes da Madeira

        Mas como pode o Pedro afirmar que esses militantes existem mesmo, se eles não pagam as quotas?

        Não é lícito suspeitar que esses militantes não existem, que não passam de nomes numa lista inventada ou fabricada por alguém?

        1. Em Dezembro de 2014, quando ocorreu a eleição destinada a escolher o sucessor de Alberto João Jardim – o actual presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque – havia 7.136 militantes do PSD na Madeira.
          https://expresso.pt/politica/mais-de-7000-militantes-do-psd-madeira-escolhem-hoje-o-sucessor-de-jardim=f903433

          Admito que tenham falecido quase todos de então para cá. Ou abandonado a militância.
          Ficaram só os 104 reconhecidos pela actual direcção nacional do PSD.

          1. Em Dezembro de 2014 havia 7.136 militantes do PSD na Madeira.

            Como é que sabe? Havia esses nomes todos numa lista de militantes. Mas – essas pessoas existiam mesmo? Estavam vivas? Viviam na Madeira? E – acima de tudo – pagavam, elas mesmas, através de contas bancárias em seu nome, as quotas?

            É que, se elas não pagavam as quotas, ou então alguém pagava as quotas por elas – então quem lhe garante que elas eram mesmo militantes?

          2. Deu-se ao trabalho de ler a ligação que deixo aqui ou já está esforçadamente a trabalhar para mais uma lavourada?
            Tem muito tempo. Ainda hoje saiu uma.

          3. Dei-me ao trabalho de ler o linque, sim. E nele somente está escrito que “estão em condições de votar 7136 militantes”. Mas não diz o crucial – quais são as condições para votar. Nomeadamente, se entre essas condições se encontra o ter quotas em dia e pagas através de conta bancária do próprio militante.

          4. Ter as quotas em dia é obviamente condição para votar. Mas não no PS, onde nem é preciso ser militante. Basta ser “simpatizante”.
            Costa foi eleito assim em 2014.

          5. Ter as quotas em dia é obviamente condição para votar.

            Não basta ter as quotas em dia: é preciso que elas tenham sido pagas pelo próprio militante. Coisa que se afere verificando se o dinheiro veio de uma conta bancária em nome do militante.

            não no PS, onde nem é preciso ser militante. Basta ser “simpatizante”.

            Exatamente. O PS deu um péssimo e nefasto exemplo. Desvirtuou a noção de “partido” para se tornar numa espécie de União Nacional dos tempos modernos, na qual União Nacional todos podem votar. Espero e desejo que os outros partidos não sigam este péssimo modelo.

          6. Quer então você dizer que António Costa é um líder ilegítimo, por ter sido eleito «numa espécie de União Nacional dos tempos modernos»?

          7. Quer então você dizer que António Costa é um líder ilegítimo

            Que disparate. Claro que é um líder legítimo, foi eleito pela forma que o partido escolheu e aceitou para o eleger.

            Eu considero essa forma incorreta e indesejável, mas o PS tem todo o direito de optar por ela.

            Da mesma forma, nunca coloquei em causa a liderança de nenhum líder do PSD, embora saiba que a forma como eles foram eleitos (com caciques que pagam as quotas de falsos militantes) é extremamente criticável.

          8. Disparate é considerar que um partido onde qualquer um pode votar, mesmo sem ser militante nem ter quotas pagas, não tem caciques.
            No limite, até gajos anti-PS podem inscrever-se como “simpatizantes” e execerem direito de voto.
            Pode fazer-se cacicagem de todo o género.

  3. Questiono: alguma televisão mostrou e declarou interesse em promover um debate entre Rio e Montenegro?
    É que, nem vale a pena falar da recusa de Rio a um tal debate, se nenhuma televisão se tiver oferecido para o promover.

  4. Sr. Pedro Correia
    V.Exª não reparou na falta de cortesia de Montenegro em relação aos resultados?
    Deu a entender que caso fosse possível faria uma Geringonça.
    Do mesmo modo se poderá dizer que se poderiam juntar os votos do outro candidato perdedor aos de RRio!
    Nestes pormenores se vê a nobreza das almas.
    O que Rio levou a cabo é o correto.Chapeladas são chapeladas.
    Cumps.

    1. Do seu raciocínio se infere que Rio foi eleito há dois anos com chapelada.
      Logo, é um presidente ilegítimo.
      Logo, à luz dessa lógica, devia renunciar ao cargo.

      O mais provável, porém, é ele forçar outros a renunciar, começando por lhes retirar capacidade eleitoral.
      De depuração em depuração (agora, só na Madeira, foram uns milhares) até restar um belo grupo de quatro.
      Dá para jogar à bisca.

      Com o PSD “reconstruído”, autenticamente “social-democrata”: poucos mas convictos.
      À semelhança do que sucedia no pós-25 de Abril, em que o país se encheu de partidos “verdadeiramente comunistas”.

  5. Que interesse terá para milhões de portuguêses uma emissão televisiva que nem a 40.000 filiados, adeptos, interessa?.
    Resolvam lá as sua guerrinhas internas, esfolem-se por agradar a um chefe de fila.
    Já não basta só poder votar na escolha que meia-dúzia fizeram?.

    1. No mais recente jogo no estádio José Alvalade, o Sporting-FC Porto, estávamos 41 mil.
      Mais portanto, só nessa partida, do que os militantes com capacidade eleitoral no país inteiro reconhecidos pela direcção do PSD.

  6. Espero que desta vez se Rio vencer não apareça logo outra alma qualquer a dizer que a vitória é ilegítima.

    As eleições no PSD começam a parecer as eleições nalguns países africanos: Seja qual for o resultado a outra parte não o aceita e parte para a guerra.

    Enquanto for com o PSD é como as eleições do Benfica ou Sporting: é lá com eles. Mas os eleitores qualquer dia pensarão se um partido com este traquejo democrático pode governar um país.

    1. Excelentes são os partidos que nunca se dão ao incómodo de organizar eleições internas. Como o PCP.
      Melhores ainda são aqueles que nunca se deram ao incómodo de se sujeitarem a eleições fora da bolsa marsupial comunista. Como o PEV.

  7. A comunicação social portuguesa, ligada aos xuxas ( SIC, RTP, dn) e a ligada aos passistas ( Observador), tem mais uma semana para ver se conseguem destronar o Rui Rio…

    1. Já cá faltava a teoria da constipação… perdão, da conspiração.

      Daí a necessidade de manter o partido bacteriologicamente puro.
      Fechadinho, pequenininho, escondidinho.

      Sem debates.
      E com o senhor doutor a aparecer em todas as fotografias na página oficial. Os outros são maus, não têm direito a nada.

      A Câmara do Porto há-de voltar a ser dele outra vez.

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