Parte da solução, não do problema


Pedro Correia,

Os gregos falaram. Da única forma aceitável em democracia: através do voto. Na hora da decisão crucial, prevaleceu a resposta à pergunta que ontem aqui resumi desta forma: “Votar para quê? Para produzir novo impasse destinado a tornar ainda mais profundo o atoleiro ou procurar que o voto se torne parte da solução e não parte do problema?”

Após as legislativas de 6 de Maio, as forças políticas gregas, confundindo cálculo partidário com interesse nacional, foram incapazes de formar um governo de coligação. Julgo que agora não sucederá assim. Por um motivo muito simples: a Grécia precisa de 2 mil milhões de dólares para evitar a bancarrota, que tem já data marcada: 20 de Julho.

Não há nada como o inevitável para inspirar os políticos. A Grécia europeísta é hoje mais frágil do que ontem, mas continua europeísta. Também neste aspecto os gregos foram claros: esta eleição funcionou como referendo ao euro num país que tem registado por estes dias uma corrida dramática aos depósitos bancários. 

Permanecer no euro é um direito da Grécia, que precisa como nunca da solidariedade europeia. Ora não há direitos sem deveres. O primeiro dever dos gregos é saberem ajudar-se a si próprios. O povo já cumpriu a sua parte. Falta agora os políticos cumprirem a sua.

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4 comentários em “Parte da solução, não do problema”

  1. a única forma aceitável em democracia: através do voto

    Em democracia existem também outras formas aceitáveis, nomeadamente os direitos de expressão, de reunião, de manifestação, de petição, etc.

  2. Permanecer no euro é um direito da Grécia

    Não vejo por quê.

    Se os direitos, como é bem dito no post, só existem com os concomitantes deveres, então não há “direito” absoluto.

  3. Por vezes penso, espero que de forma errada, que tantos anos de paz e desenvolvimento, nos levou a perder o medo. A União europeia deu-nos a prosperidade, que não existe sem paz, e nós, europeus, perdemos o medo. Ao perder o medo, fomos desleixados com a nossa democracia, tudo foi sendo permitido, todos os abusos, todas as corrupções foram sendo, silenciosamente, aceites. Acreditámos, e acreditamos, que a democracia é um status imutável. Com esta crença caminhamos, passo a passo, decisão a decisão, de forma semelhante como o fizemos na década de 30 do século passado. As eleições gregas são, à príori, uma boa notícia, mas falta todo o caminho para manter esta união e assegurar a paz. Porque é pela paz que estamos a lutar. E como o Pedro escreve, aqui ou noutro post, da Alemanha so vemos chegar sinais de arrogância. Escudados numa falsa ética protestante, onde o erro e perdão não são sequer admitidos como opções, guiam esta Europa sabe-se lá para onde.

    1. Tiago, devemos ter sempre a noção muito clara que a democracia é um bem precioso mas extremamente frágil. E há quem se aproveite dela, a todo o momento, para a exterminar. O populismo, a demagogia, os nacionalismos, a xenofobia são instrumentos políticos de que se usa e abusa – à esquerda e à direita – para estrangular a democracia. Não devemos perder de vista as lições da história. Em 1900, na chegada ao século XX, muitos pensadores e um número incontável de políticos embriagados de “optimismo” e “modernidade”, vaticinaram um mundo de imparável progresso. Ninguém imaginava então que esse seria o século dos maiores morticínios registados desde sempre e das mais tenebrosas ditaduras. Ninguém supunha que nesse mesmo século então emergente seria inventada a mais terrível das palavras: totalitarismo.
      Nada mais ilusório do que o optimismo histórico, nada mais enganador do que a noção de que existe necessariamente um “final feliz” e redentor na História.

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