Parem as máquinas: há calor no Verão


Pedro Correia,

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Está cientificamente demonstrado: o medo é dos ingredientes que colam mais as pessoas aos ecrãs. E nada suscita tanto medo como as catástrofes naturais. Isto reflecte-se nos telediários portugueses, quase despojados de notícias fora do perímetro nacional. O que sucede no resto do mundo só nos aparece à frente quando ocorrem cheias, ciclones, sismos, maremotos, avalanches, erupções, tufões, trovoadas, secas extremas. Sobretudo se ocorrer nos EUA. Nos últimos dias, algumas horas de chuva intensa em Nova Iorque mereceram mais destaque nos noticiários cá do burgo do que o assassínio do Presidente do Haiti.

O alarmismo fomenta audiências. E nada melhor – ou pior – para ampliar o alarmismo do que falar do clima. Vivemos apavorados pelas condições atmosféricas. É um medo irracional, fomentado pelo pensamento mágico de pseudo-cientistas com lugar cativo nos meios de comunicação. O tema recebe prioridade absoluta na hierarquia informativa, chegando a inverter o paradigma da notícia: em vez de ser o homem a morder o cão, aqui é mesmo o cão a morder o homem. Destaca-se o mais banal, conferindo-lhe aura de sensação.

Há frio no Inverno e calor no Verão? Isso acontece nos Estados Unidos, pátria suprema das teorias da conspiração? É garantido que terá destaque, o Presidente assassinado no Haiti pode ser empurrado para o fim da linha. Noutros tempos, mais serenos e com menos histeria à solta, só seria novidade se fosse ao contrário: Inverno tórrido e Verão gelado.

 

À nossa escala, com o tépido estio que nos vai calhando, para desespero dos alarmistas de turno, não há notícia climática digna desse nome. Mas se for preciso dá-se um jeito: é preciso manter os espectadores grudados ao rectângulo televisivo.

Aconteceu quarta-feira da semana passada, à hora do almoço, na RTP. Às 13.23, surgiu o aviso, proclamado em voz solene: “Prepare-se para o calor. O Verão chega em força esta semana. Em algumas regiões do país as temperaturas podem chegar aos 40 graus.” Se o Artur Albarran ainda pontificasse em antena acrescentaria: “O drama, a tragédia, o horror!”

Era apenas um teaser – como agora se diz na gíria mediática, sempre pronta a acolher qualquer americanismo linguístico. Dezasseis minutos depois, o que parecia escaldante tornou-se temperado: “As temperaturas começam a subir hoje e podem chegar aos 40 graus no fim de semana em Évora e Beja. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera diz que não está prevista uma onda de calor, mas o tempo quente vai manter-se em todo o território continental. (…) Alguns sites de meteorologia falam de uma onda de calor, mas o IPMA garante que não.”

 

Reparem: bastou que os tais sites não especificados aludissem a uma putativa “onda de calor” para a expressão vingar, mesmo com desmentido formal da autoridade científica. E logo uma jovem repórter compareceu numa aldeia alentejana, interrogando uma senhora sobre tão magna questão. Ouviu esta resposta: “Toda a vida apanhei calor, apanhei sol. Na hora dos 30 graus, estou eu em casa.”

Não havia notícia, mas havia sabedoria antiga. A repórter ficou a ganhar. E nós também.

 

Texto publicado no semanário Novo

36 comentários em “Parem as máquinas: há calor no Verão”

  1. Os “pés de microfone” de hoje, licenciados em universidades de vão de escada, não chegam aos calcanhares dos jornalistas com a quarta classe de ontem.

  2. Está noite esteve frio. Eu pelo menos senti frio.
    As parangonas de abertura dos serviços informativos, se não forem chocantes qb, não prendem o espectador até ao fim e sem audiência não há anunciantes e sem anunciantes não há dinheiro, que afinal é a força motriz por detrás de toda e qualquer informação. A posição na grelha é influenciada por quão sumarenta é a desgraça e se não for chocante o suficiente, aumenta-se-lhe meia dúzia de graus. É o que temos.

    1. Sou igorante em temas de “ambiente” alterações climáticas” e em muitas outras coisas……..!
      Mas.. quando oiço devido às alterações climaticas houve uma grande “desgraça” como não havia à mais de 100…ou 50 anos (depende do emissor) fico cheia de dúvidas…as causas não serão as mesmas…??? será o “aquecimento” ??? Ou será “simplesmente uma evolução natural e periódica do clima do planeta??? Também penso que o que estamos a fazer ao planeta (desflorestação,alteração dos percursos dos rios, o lixo no mar, etc) deve “ajudar ” .

          1. No Rio Ahr foi onde ocorreu a recente tragédia na Alemanha. Foi bastante localizado. e mostrar o que ocorreu em 1804, 1910 ajuda a inserir um pouco de História do Clima algo que a narrativa dominante no jornalismo foge como diabo da cruz.

            Atendendo à escolha da baixa qualidade e manipulações pela ciência do clima até posso dizer com a mesma baixa qualidade baseado apenas em 3 datas que temos uma potencial situação cíclica no Ahr a cada pouco mais de 100 anos.

    2. Este Verão, em Portugal, tem registado temperaturas abaixo da média. Mas, claro, isso não é notícia.
      Mas em Maio não faltavam as vozes alarmistas do costume a profetizar desgraças.
      https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/verao-vai-ser-mais-quente-do-que-o-normal-temperaturas-vao-ultrapassar-os-40-graus-13721918.html
      https://www.sabado.pt/ciencia—saude/detalhe/no-verao-de-2021-espere-temperaturas-a-rondar-os-40-c

      É o costume.
      Nunca falha, ano após ano.

  3. Apenas para o louvar, caro Pedro Correia!
    Decompor o ridículo e o grotesco da media de referencia é sempre louvável. Hoje em dia é imperioso por razões de higiene mental!
    Como saberá melhor do que eu, esta senda não lhe trará muitos amigos!! E já se lhe deve ter colado o epíteto de negacionista!
    Um grande bem haja,

  4. Em todos os Invernos, as televisões vão à Serra da Estrela noticiar o estranho fenómeno de flocos de água congelada a cairem do céu. Porque haveriam de não noticiar, durante os Verões, o estranho fenómeno de temperaturas altas em dias com quinze horas de sol sem nuvens?

  5. A RTL, RAI, BBC e outras televisões europeias também se atiram aos dramas, às tragédias e aos horrores. É o que está a dar, como se fosse a primeira página dum jornal em papel com fotografias das cheias na Alemanha e dos fogos nos EUA, o assassinato do Presidente do Haiti meteu pouco sangue ou não se fala mais nisso está em envestigação.
    Já a ideia de chamar a RTP com ‘preparem-se para o calor’ é um aviso desnecessário tão ou igual ao aviso diário da meteorologia diário com um ‘vamos ter um dias de calor’.

    1. Pior é usarem sempre a bengala verbal “bom tempo” em dias de sol, mesmo quando há seca, e aludirem a “mau tempo” como sinónimo de chuva, mesmo quando ela é muito necessária.

  6. PIC – Processo de Infantilização em Curso…
    Nem “o tempo” escapa…quanto mais o sentido do ridículo…
    JSP

  7. Quando ouço falar em 40 graus em Lisboa e ficar tudo alvoroçado,lembro os Verões da minha infância passados no Alentejo. Os primos todos a dormir a “sexta”,depois os banhos no lago,que hoje são praias fluviais. Levar o farnel e chegar a casa perto do jantar,sair á noite e o alcatrão ainda estar quente! Bons tempos. Saudades. 💚🌞

    1. Aquela senhora alentejana que apareceu na RTP é que sabe muito bem o que é o calor – e o que deve ser feito quando o calor aperta.
      E sabe também que calor no Verão, sobretudo no Alentejo, não é notícia.

  8. Esta é uma das razões pelas quais deixei de ver noticiários. Aliás, deixei de ter televisão de todo. Só voltei a comprar o aparelho (tendo o cuidado de não sintonizar) com o aparecimento das plataformas de streaming.
    Em tempos saudosos via religiosamente as notícias da RTP2. Até que mudaram o formato, fazendo suspense com as notícias importantes e empatando. E ainda me lembro que último noticiário que vi passaram 10 minutos a falar sobre um cão que tinha andado não sei quantos quilómetros à procura do dono.

  9. Claro que há exagero porque é preciso vender.
    Mas os incêndios na Costa Oeste dos Estados Unidos, os incêndios na Sibéria e Escandinávia, as inundações no Centro da Europa e as vagas de calor no Canadá, no Norte dos Estados Unidos e no Norte da Europa não são ocorrências correntes. Acontecem raramente com esta dimensão e neste momento aconteceram todas no mesmo ano.
    Seria o mesmo que dizer que os fogos de 2017 em Portugal não tiveram importância porque sempre houve fogos florestais.
    Já matarem um presidente do Haiti dificilmente é notícia por falta de novidade. O homem não era comunista e esta é uma ilha das Caraíbas que sempre que foi preciso foi posta no bom caminho ideológico pelo vizinho do Norte. Se aquilo descambar para o comunismo, há quem lhe acuda, se não descambar, estão no seu direito de governarem como entenderem,

    1. Exatamente, então consideramos ridículo o Serviço Meteorológico anunciar no verão ‘hoje vamos ter um dia de calor’ ou no inverno ‘hoje vai estar um dia frio’, por ser sempre assim todos os anos.

    2. “Acontecem raramente com esta dimensão e neste momento aconteceram todas no mesmo ano.”
      Vá ler a história do clima – uma disciplina que faz muita falta.
      E pense em todos os países que não incluiu na lista.

    3. Também a vaga de frio que se registou em meados de Fevereiro deste ano nos EUA, México e Canadá e que atingiu particularmente o Texas não é uma ocorrência comum. No entanto, ninguém falou nela. Porque será? Porque não encaixa numa certa narrativa. E, já agora, este foi o terceiro ano consecutivo em que bateram recordes de temperaturas negativas nos EUA, o que é estatísticamente anormal, mas como não encaixa na narrativa, ninguém fala nisso.

  10. Nao se fala no presidente do Haiti porque a maioria das pessoas nem sabe onde isso fica, ou quer saber.
    O assassínio de um luso-descendente na África do Sul seria diferente.
    Entao se fosse o Biden… Ou mesmo o Orban.
    Entretanto, começaram os Jogos Olpimpicos e na CS ninguém deu por isso.

    1. A neve de Inverno em Nova Iorque é notícia, calor abrasador no Verão em Novo México é notícia.
      Qualquer chuvinha nos EUA é notícia.
      Como se nada mais existisse no globo terrestre.
      E tudo quanto vem de lá chega sempre embrulhado em teorias da conspiração. Não por acaso, os EUA são a pátria dos ovnis. Nem existem ovnis noutras partes do mundo. Os extraterrestres sentem uma predilecção muito especial pelos Estados Unidos da América. Devem adorar hamburgers.

  11. Há todo um propósito nestas e noutras notícias. O documentário “Planet of the Humans” do agora caído em desgraça Michael Moore explica alguns dos detalhes. Não sei é se ainda pode ser visto no Youtube…
    Toda a ideologia reinante sobre o clima assenta em duas mentiras e um truque.
    a) os registos no gelo indicam que o CO2 segue a evolução da temperatura com um atraso de algumas centenas de anos; a correlação entre ambos existe, mas é a temperatura que precede a variação do CO2 (a causa precede sempre o efeito e é fácil de explicar porquê e comprovar com os dados actuais que temos);
    b) os períodos quentes romano e da idade média e o período designado por pequena idade do gelo, só para citar os mais próximos, comprovam que as alterações climáticas são uma constante e não uma excepção;
    c) o truque consiste em colocar a origem do referencial no final da pequena idade do gelo (~1850) que coincide com o início da revolução industrial e com o início actual do aumento da concentração de CO2.

    Verificar que os valores médios mensais de concentração de CO2 diminuem de Março/Abril até Setembro/Outubro todos os anos (NOAA, Mauna Loa, registos desde 1958 disponíveis na net) é um bom começo para se começar a colocar questões. E nem os confinamentos alteraram o padrão.

  12. A qualquer pessoa com o mínimo de decência preocupa-lhe bem mais as alterações climáticas do que o falecimento do presidente do Haiti. Mas suponho por aqui se pense como Estaline, “uma morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística”.

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