Parecida. Nada mais.


lauraramos,

Um amigo meu instalou-se no Brasil há uns tempos. Curiosamente, reparo agora que das nossas conversas nunca constou o acordo ortográfico, talvez por eu suspeitar que um engenheiro é um reformador nato, insensível  aos pruridos dos defensores da forma e da memória – esses terríveis travões do progresso.
Por isso mesmo, foi com surpresa que hoje,  no facebook, tive notícias dele, assim:

« Eu nem era, por princípio, contra o acordo ortográfico. Mas fico baralhado com algumas alterações: – Costumo vestir um fato quando vou assistir a um fato importante, ou de facto há coisas que não estão bem? É que eu, terno, só puxo quando jogo as cartas. Haveria mais exemplos mas não me apetece pensar. O que de facto acontece é que eu aqui coloco a cerveja na geladeira e quando vou a Portugal coloco-a no frigorífico. Aqui viajo de trem ou de ônibus e aí de comboio ou autocarro. Eu aí gosto de gozar com os bons amigos mas aqui sou mais selectivo. Os homens (ou omens ?) que se lembraram de fazer o acordo esqueceram-se que não é por decreto que se anula o que 500 anos fizeram. Eu aqui sinto-me muito bem pois o país é muito agradável, há gente boa e a adaptação foi fácil porque a língua é muito parecida. Isso mesmo: PARECIDA. Nada mais. A linguagem que se fala é bastante diferente. Não me parece que seja este o caminho para a uniformização das línguas ».

Boa, Filipe, eu sabia que eras um homem avisado, ou não tivesses saído na hora certa para o outro lado do Atlântico. Mas  este teu desabafo vale mais do que dez tratados.

Saravá!

31 comentários em “Parecida. Nada mais.”

  1. Não confundir reformas e progresso com mutilações e políticos de poucas letras. O progresso é não ter analfabetos nem aldrabar escandalosamente as estatisticas do assunto.
    Oficialmente, o analfabetismo em Portugal é de menos de 10%. Mas… com a divulgação do resultados do censo deste ano, 20% afirmam que não frequentaram qualquer grau de ensino. Ou há 10% de autodidactas, ou brincam com as palavras. Os 20%, embora tristes, acabam por nos ajudar a perceber um pouco a carreira do «acordo».
    No Brasil os diversos tipos de analfabetismo somados dão o resultado de 75%. Um progresso estonteante, talvez devido à ortografia.

    1. Claro que não confundo… Sugeri apenas que, em geral, as pessoas ligadas às áreas das ‘não humanidades’ são muito mais lestas na aprovação das mudanças na língua. Pode tratar-se de uma predisposição mental, que tende a ver tudo como uma ‘ferramenta’, despida de conteúdo ‘dramático’. Ou – mais recentemente – pode simplesmente tratar-se de uma ausência de referências, produto das construções curriculares utilitaristas das últimas décadas.

          1. A Laura é uma filósofa tipicamente inspirada no Penedo da Saudade… só pode 🙂

      1. Creio que não é bem asism! 🙂
        Pelo contrário, um engenheiro percebe bem as implicações de coisas aparentemente insignificantes.
        Quanto às últimas décadas a miséria é geral, infelizmente. Parece que havia uma universidade boa, a Independente, mas acabaram com ela! 🙁

  2. Sobre brasileiros e acordo ortográfico, aconselho a leitura atenta destas duas páginas (página 88 a 90. Assim se percebe o que é a loucura aliada à má fé.
    Se, a meio, a coisa lhe parecer demasiado incrível, atente que o Brasil bloqueou a entrada da Alemanha na Sociedade das Nações por não ter conseguido um lugar de membro permanente. Actualmente andam, de novo, a tentar na ONU e creio que pensaram que tinham conseguido um apoio dos EU durante a visita de Obama.
    Ah, claro que toda aquela história de actas da ONU é pura mentira: mentem como respiram. No entanto, permite que vislumbremos os altos desígnios que levam os políticos (portugueses!) a embarcarem na coisa. Bem dizia o malaca que o acordo não tinha nada a ver com linguística, que era só política. Por aqui ficamos a perceber qual. Bom fim de semana!
    http://books.google.pt/books?id=deOSIPtCoDUC&pg=PA88&lpg=PA88&dq=charles+kiefer+acordo+ortogr%C3%A1fico+atas+classica&source=bl&ots=3_1m6SZq0z&sig=T8y6baYbMyungi0Z06f5UF3WPnA&hl=en&sa=X&ei=sXTrTqqxONLt8QObqJyDCg&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

      1. Claro que é o malaca é todo a favor. E os motivos pelos quais é a favor são… políticos.
        É ele quem o diz:
        “É que isto não é uma questão linguística, é uma questão política, uma questão muito importante do ponto de vista da política de Língua no âmbito da Lusofonia”, sublinhou Malaca Casteleiro, membro da classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa.
        http://aeiou.expresso.pt/acordo-ortografico-falta-vontade-politica-para-ratificacao-malaca-casteleiro-cfoto=f254931#ixzz1gl0WSjUM
        O resto é a abjecção a que chegou a nossa vida política e a miséria intelectual e estultícia dos nossos políticos.
        Agradeço que leia mesmo as duas páginas que indiquei no outro comentário: perceberá que atingiu o coração da questão e, enfim, o porquê de tantas cumplicidades e silêncios. Sim, as alturas da política portuguesa são trovas do Bandarra, um tosco sebastianismo – acentuado agora o cunho sacrificial: a imolação da Língua Portuguesa para garantir o 5º Império… Estamos dentro de um entremez de aldeia.

        1. C: vou ler mesmo e depois comento as minhas impressões. Explico: só ainda não li porque estou numa fase nómada, mas amanhã volto a fixar arraiais.
          Ah, e cá para mim o Malaca nem o méstrado fez…

  3. “Parecida”, não, é a mesma. E é uma pena que, repetidamente, sejamos nós a proclamarmos que, sim, falamos português. Que não é menos nem mais legítimo que o português europeu. Como se os portugueses tivessem vergonha de admitirem que falamos a mesma língua. (Um inglês, no Deep South, terá ainda maior dificuldade de comunicação que um português no Brasil – mas nunca, nunca, duvidará ser a mesma língua e terá orgulho de falar esta mesma língua.)

    Não gostam? Pois mudem o nome da língua os senhores!

    1. Acho que não percebeu bem o que se quis vincar: a língua é a mesma, falamos sobretudo de ortografia e de unidade forçada.
      Uma pergunta: – Já aderiu ao acordo?
      É que o Brasil “não quer nem saber”! E faz bem.

      1. Sim, aderi. Escrevo frequente sem trema, assembleia e lampreia da mesma forma (apesar da imensa diferença da pronúncia no Brasil) e submeto-me a todas as novas regras do uso do hífen. Sou contra ortografia ditada por decreto, tratado e lei – mas “this ship has sailed”. Desde 1911, quando a República Portuguesa unilateralmente rompeu a evolução orgânica da ortografia da língua comum.

        1. Entre uns e outros venha o diabo escolher. Mas, por escrúpulo histórico, o primeiro projecto de reforma ortográfica é brasileiro de 1907 e a ortografia tem sido uma bandeira do nacionalismo brasileiro (http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5(15)58-67.html).
          Toda a ideia de «tratado» e «reforma ortográfica» tresanda a subdesenvolvimento cultural e não é por acaso que Portugal e Brasil estão na cauda dos respectivos continentes no que a literacia diz respeito.
          Trata-se de acabar de imediato com esta palermice que, em Portugal põe problemas de coesão nacional, numa altura de profunda crise. A Lingua Pátria não pode ser motivo de dissenção.

          1. Tenho a sensação contrária. C. Parece-me que os tempos estão de tal ordem que estas matérias tendem a ser relegadas para 2º plano. Infelizmente. E admitindo que, ainda assim, pudéssemos fazer alguma coisa.

          2. Pode fazer. Pelo menos obrigará à discussão da Assembleia da República e pode, mesmo, fazer cessar a vigência do «acordo»: http://ilcao.cedilha.net/?p=313

            Aliás, independentemente disso, seria interessante que algum deputado – não um lacaio ou funcionário, mas um deputado com um módico de vergonha na cara – perguntasse ao governo (como é, aliás, seu dever!) a que estudos procedeu o Ministério da Educação que contrariassem os existentes pareceres oficiais muito negativos, nomeadamente o da Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário do Ministério da Educação. Já que, supõe-se deve ter havido estudos, e sérios! Não somos uma república das bananas, ao sabor de caprichos de favoritas, mesmo que veneráveis.

    2. Há uma diferença: se alguém que fale inglês seja em que lugar do munddo for, o escrever “I saw she”, em vez do correcto “I saw her” comete um erro e corrige-o. Se um brasileiro escrever ou disser “Eu vi ela” em vez de “Eu vi-a” ou “Eu convido-lhe” por Eu convido-o” acha que não comete erro nenhum.
      Assim sendo, está em processo de criação de uma gramática diferente, o que quer dizer que o idioma falado no Brasil está a deixar de ser o Português.
      Quanto a mudar de nome, muda quem chega depois.

    3. Não se trata de vergonha ou qualquer tipo de bairrismo. Não se trata de qualquer comparação qualitativa. Há imensas diferenças no português falado de cada lado do Atlântico que não se resolve por decreto além de ir retirar o que mais bonito tem cada nas duas linguagens.

      1. Português de Portugal: duro, austero, de consoantes fortes, gramática difícil e imprevisíveis ditongos, macios e telúricos.
        Português do Brasil: leve, cúmplice, aéreo, cantado, sem contrastes, flexível, infractor.
        Em comum: o choro e o chorinho 🙂

  4. sobre a fotografia que ilustra o post:

    e pensar que foram estas caravelas estiveram na origem da designação destes “seres” marinhos:

    http://animals.nationalgeographic.com/animals/invertebrates/portuguese-man-of-war/

    “Anyone unfamiliar with the biology of the venomous Portuguese man-of-war would likely mistake it for a jellyfish. Not only is it not a jellyfish, it’s not even an “it,” but a “they.” The Portuguese man-of-war is a siphonophore, an animal made up of a colony of organisms working together”.

      1. parecida, nada mais? a caravela e o ser marinho, assim à vista? ou também seriam parecidas porque provocavam danos a quem as desafiasse?
        o conteúdo deste post é estranho. pelo critério seguido, não tarda estamos a considerar que, em portugal – continente e ilhas, os portugueses falam, nas diversas regiões do país, umas línguas muito parecidas, talvez até parecidas com o tal “português”, que segundo este critério será falado, afinal, onde?
        estranho critério.

  5. O acordo ortográfico é um tema que nunca despertou muito o meu interesse (talvez por ter a sensibilidade dirigida para outra direcção) e quando iniciei o texto comecei por dizer: “ Eu nem sou, por princípio, …” no entanto, a meio mudei de opinião e ficou como o coloquei no facebook . O português deste e desse lado do Atlântico são duas realidades diferentes, com as suas riquezas e qualquer acordo vai retirar, a cada uma, partes que lhes dão a beleza.

    1. Eu sei, Filipe, imaginei que não eras contra e por isso achei muita piada ao teu post do fb 🙂 O que só prova que por muito que a cabeça rode noutra esfera de interesses, tens uma “ferramenta” fundamental: a sensibilidade. Parece ser o que falta a todos estes reformadores…

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