Dois pesos, duas medidas. A 8 de Março, por unanimidade, a Assembleia da República aprovou quatro – repito: quatro – votos de pesar pela morte de Hugo Chávez. Unanimidade que não se repetiu, longe disso, na sessão parlamentar de ontem, ao ser aprovado um voto de pesar pelo falecimento de Margaret Thatcher: os comunistas votaram contra, o PEV naturalmente também, o Bloco de Esquerda idem aspas. O sectarismo destes partidos em relação a quem não professa a mesma cor política não ocorre só em vida: evidencia-se também na fase post mortem.
Mas o mais espantoso, na votação de ontem, foi verificar que 13 deputados socialistas, depois de terem lamentado a morte de Chávez, não foram capazes de fazer o mesmo por Thatcher, abstendo-se na votação. Tratando-se da primeira mulher que ascendeu à chefia de um Governo ocidental, tratando-se de uma líder política que foi sufragada pelos eleitores britânicos em três eleições sucessivas, tratando-se de uma figura com inegável relevância histórica, nem assim mereceu um gesto de cortesia parlamentar destes socialistas, quase equiparados em sectarismo a comunistas, verdes e bloquistas.
Como se estivessem sentados na bancada errada.

Parece-me mais do que razoável que socialistas se abstenham no voto de pesar pela morte de uma pessoa que lutou contra todas as formas de socialismo.
A mim faz-me impressão que se prefira a Venezuela de Chávez ao Reino Unido de Thatcher, inclinando a cabeça em sinal de respeito num caso mas não no outro. E faz-me mais impressão verificar que certas forças partidárias, arrumadas num sectarismo militante, só sejam capazes de reconhecer mérito aos da sua facção política, encarnando na perfeição o espírito de trincheira.
Gostam mais da Venezuela do que de Inglaterra porque gostam muito de barracas. Lembra-se das que Sócrates construiu na Guarda?
🙂
Não ligue. Sabe como são os adolescentes. Sempre a quererem fazer-se notados.
Fizeram-se notar, certamente. Pena terem sido só 13 – uma clara minoria na bancada do PS. E se algum deles for supersticioso, ainda pensa que isso dará azar.
Não são adolescentes e pior que isso têm demasiado poder.
Já agora lembrar para o Diário Negro da Assembleia da Republica e do Regime, o voto de pesar pelo sheik Yassine do Hamas – um movimento racista anti ocidental. Anto tudo o que a Assembleia diz representar.
Isso aconteceu? Em que ano? Em que dia? Por unanimidade? Não me lembro e até tenho alguma dificuldade em acreditar.
Quem não respeita os adversários não se respeita a si próprio .
Até na guerra própriamente dita os inimigos se respeitam .
Ainda aparecer tanta gente a achar normal isto diz muito do que vai na cabeça das pessoas , habitualmente as que exigem mais respeito pelas suas próprias pessoas ou por aqueles que apoiam .
Há quem transforme cada adversário em inimigo e só se sinta bem agindo dessa forma.
Estão mesmo na bancada errada. Boa parte dos 13 referidos, como João Galamba, Isabel Moreira e Pedro Nuno Santos, pertencem à facção trotskista do PS, em diversas matérias. Estão no PS meramente por táctica política; em termos ideológicos pertencem à extrema-esquerda.
Abraço amigo!
Sem tirar nem pôr.
Bingo!
Eu já desconfiava disso mesmo, meus caros.
Bom, agora que todos os três concordámos em algo – mais não seja ideologia alheia, e reticentes influências -, sinto-me na obrigação de afirmar ao José que a questão “trotskista” é mera casualidade/obrigação. Direi até que concordando com a questão ideológica de uma extra-esquerda (infiltrada no socialismo – per se), me baralha a fuga ao critério cliché sindicalista-demagogo-populista-irrespon savél da grande maioria da esquerda extremista.
… vai na volta, fazem por aí a diferença ideológica entre uma esquerda centrada e uma ‘extremista’.
vocês gostam é disto…
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?art icle=643617&tm=9&layout=121&visual=49
Você gosta é de chutar a bola para canto.
Eu tenho uma sugestão: parem com os votos de pesar. O Presidente da Republica que mande pois não tem mais nada para fazer.
Excelente sugestão.
Boa noite caro Pedro Correia, creio que o seu post do ponto de vista da direita é muito clara ” os malandros da esquerda (diga-se do PS) são sectários que não separam a política da diplomacia, e vejam bem nós somos tão bons que até aprovamos 4 votos de pesar pelo Chávez , somos realmente muito magnânimos “. Será que os 4 votos de pesar seriam efectivamente aprovados pela maioria de direita e até de forma unânime no caso de a Venezuela não ser um forte aliado económico de Portugal, do qual até Paulo Portas se tornou admirador não se cansando de elogiar e Chávez (apesar do mau estar gástrico), e se for assim não é esta uma atitude altamente hipócrita ainda mais condenável?
Cumprimentos.
João P. Silva
Tantos ses… tantos processos de intenção…
Eu não menciono hipóteses nem passo atestado de hipocrisia a ninguém. Limito-me a invocar factos e a interpretar esses mesmos factos. Houve 13 deputados do PS que lamentaram a morte de Chávez mas foram incapazes de lamentar a morte de Thatcher. Dois pesos, duas medidas. Ponto final.
Ainda alguém conhece a história recente de Portugal?
Não vou falar sequer da Golda Meir e da Evita Péron, porque provavelmente não estarão no clube dos “Ocidentais”
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_de_Lo urdes_Pintasilgo
A que propósito menciona Evita Perón? Sinceramente, não percebo. A esposa de um ditador argentino equivale à líder do mais democrático dos países, eleita sucessivamente em três legislativas?
Margaret Thatcher ascendeu à chefia do Governo britânico antes de Maria de Lurdes Pintasilgo ter conseguido o mesmo em Portugal, embora no mesmo ano. Thatcher iniciou funções em 4 de Maio de 1979, enquanto Pintasilgo só iniciou o mandato a 31 de Julho.
Houve, além disso, uma grande diferença: Thatcher ascendeu ao poder na sequência de eleições e Pintasilgo não ganhou qualquer eleição: esteve cinco meses à frente do Governo, por iniciativa do então PR Ramalho Eanes, especificamente para preparar eleições, tendo saído logo a seguir.
Golda Meir, naturalmente, sendo de um país do Médio Oriente, não pode ser considerada “a primeira mulher que chefiou um Governo ocidental”.
Já agora, se a pergunta me era dirigida, a resposta é sim: conheço a história recente (e menos recente) de Portugal.
Eu não vejo nisto motivo nenhum para espanto. No caso de Chávez, lamenta-se a sua morte, não por motivos ideológicos, mas sim por solidariedade para com os portugueses emigrados na Venezuela. No caso de Thatcher, lamenta-se (ou não) a sua morte por motivos estritamente ideológicos.
Desta vez não consigo mesmo alcançar o seu ponto. “Lamenta-se a morte de Chávez em solidariedade com os portugueses emigrados na Venezuela”. O que terão esses emigrantes a ver com a morte de Chávez? E, pela mesma lógica, não haverá emigrantes portugueses no Reino Unido? O pesar pela morte de Thatcher seria “ideológico” mas o de Chávez não é?
Explico.
Quando Chávez morreu, o ministro Paulo Portas exprimiu o seu pesar, porque, disse, e muito bem, que Chávez fôra um grande amigo de Portugal, um grande amigo da comunidade portuguesa na Venezuela, e tinha apoiado muito o desenvolvimento de relações bilaterais.
Paulo Portas é insuspeito de quaisquer simpatias políticas por Chávez. O seu pesar deve-se apenas às relações bilaterais.
Thatcher fez algo de análogo para com Portugal? Não.
Alguma vez Portugal manifestou especial pesar pela morte de qualquer ex-primeiro-ministro (há 20 anos atrás!) do Reino Unido, ou de qualquer outro país? Não.
Então, por que motivo manifestar pesar agora? Por motivos puramente ideológicos.
Um voto de pesar devia ser sempre um voto de pesar.
Há gente que não entende isso.
Faz-me impressão não haver consensos mínimos na hora da morte e o reconhecimento de méritos em adversários políticos, Sérgio.