Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura – do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.
A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos “virtuais” que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim – mesmo numa sala de cinema – sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.
E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias – tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.
De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.
E não abdiquemos também do direito de pensar – arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. “O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos – é não termos já mesmo perguntas”, escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.
Tentemos que o nosso 2013 não seja assim.


mas também Os Grão-Capitães,as Antigas e Novas Andanças do Demónio,o Físico Prodigioso,da poesia As Metamorfoses,os inomináveis prefácios e post-fácios…
Julgo que este comentário se destina à estimada inquilina do andar abaixo deste…
Foi lapso,aquela caixa “comentar”engana-me por vezes.No entanto,tratando-se de boas leituras nunca é demais mencionar as obras do expatriado(por todos os partidos pós-25Abril e a maioria dos literatos)Jorge de Sena,aqui também não ficam deslocadas,a não ser que o Pedro Correia também o abomine pelos célebres prefácios onde ele contava as manobras da canalhice nacional.
Tenha um bom Ano Novo.
José
De forma alguma, José. Também gosto muito do Sena, sobre quem já tive o gosto de escrever neste blogue. E ele há-de aparecer na série dos escritores que mereciam ter recebido o Nobel.
Votos de bom ano também para si.
Não foram sempre os mesmos escritores, mas na generalidade o meu 2012 teve muitas semelhanças e espero que 2013 também possibilite muitas leituras, silêncios e reflexões.
Espero que sim, Carlos. Isso tem um valor inestimável.
Sábias palavras as tuas, Pedro. Curiosamente e por tua “culpa” acabei por ler e reler alguns dos velhos clássicos.
Eu planeei para 2012 ler um clássico (em sentido lato) por mês. Quase consegui – e digo clássico porque fui intercalando com diversas outras leituras. Mantenho esse plano para 2013, meu caro.
Bons conselhos e bons votos, Pedro. Precisamos mesmo de parar para pensar, e ler é uma excelente forma de pensar. Desejo-te o mesmo para este ano novo tão cheio de sombras, mesmo sabendo como é difícil para ti encontrares tempo para ler.
Aproveitemos a sugestão do último dos teus candidatos a Nobel, que poderia bem ser o meu lema de vida: «Contra o pessimismo da razão, o optimismo da vontade». Sem vontade é que nada se conquista.
Isso mesmo, Ana. Também gosto muito desta frase. E precisamos cada vez mais dela a servir-nos de lema.