Paralelismos


Luís Menezes Leitão,

 

As lágrimas da Ministra do Trabalho italiana são bem elucidativas da tragédia que o novo Governo italiano vai impor aos seus cidadãos. Trata-se de um governo sem qualquer legitimidade eleitoral, que foi para o poder por ter a confiança dos mercados. E a sua tarefa vai ser igualmente arrasar completamente a Itália para esta estar de rastos quando se verificar a inevitável implosão do euro. Claro que neste quadro não deixarão de ocorrer medidas simbólicas ridículas, como a de o Primeiro-Ministro italiano abdicar do seu salário, porque tem fortuna pessoal ou recebe uma pensão de luxo. O gesto tem precedentes históricos elucidativos: Hitler também abdicou do seu salário de chanceler da Alemanha. Não precisava dele, uma vez que estava milionário devido aos direitos de autor que recebia da venda de Mein Kampf em todo o mundo. E ao contrário do que julgam os especialistas de spin este é um gesto que afasta completamente os governantes dos cidadãos comuns. É que estes não podem abdicar do seu salário, e sofrem profundamente quando o mesmo é cortado.

 

Cá em Portugal também tivemos medidas simbólicas ridículas, como pôr os governantes a viajar em classe turística, ao mesmo tempo que se mantêm compras de automóveis de luxo. Mas pelo menos os nossos governantes não choram, até se riem quando discutem medidas de austeridade. Vamos para o abismo, mas vamos de cara alegre.

 

18 comentários em “Paralelismos”

    1. Não sei. Esse jornal eu não leio. A notícia retirei-a do Público e, como é óbvio, não gostei dela. Assim como não tenho gostado daquilo a que tenho assistido nos últimos tempos. E com base nisso formei a minha opinião, que me limito a transmitir. Como diz a canção, tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado.

        1. Acho que o contexto era o mesmo: discussão de medidas de austeridade. Ainda não vi este Governo anunciar nenhuma campanha alegre :). E as intenções das medidas de austeridade são exactamente iguais, em Portugal ou na Itália.

          1. Eu referia-me ao ‘instantâneo’: os risos vs. as lágrimas. Não é por aí… E além disso acredito bem que não seja nada fácil vestir a pele de carrasco quando se pertence a uma geração que promoveu e acreditou no estado social (embora qualquer estudante de humanidades soubesse, desde os anos 80, que o estado-providência estava condenado, e não propriamente por questões de falta de bondade ideológica). As lágrimas comoventes da ministra são tão circunstanciais quanto o riso dos governantes em S. Bento. Será das senhoras, a sensiblerie ? Não vejo mal algum nisso, mas a mim, por exemplo, não me apanhavam numa cena dessas.

  1. Lá vem o Hitler, serve para tudo. Gostas de crianças, de flores e animais? O Hitler também. Não bebes bebidas alcoolicas? O Hitler também não. Auto-estradas? Pois, pois, os nacional socialistas também as construiram e vejam o que eles fizeram (juro que já vi estas todas).
    Pronto, fora isso, não percebo porque é que a medida do PM italiano afasta os cidadãos dos governantes. Suponho então que se aumentassem o ordenado do PM, os governados se sentiriam mais representados. E se o PM em vez de gastar por mês 500 euros em flores para o seu gabinete, cortasse a despesa, haveria tumultos na rua. Se enchesse o gabinete de orquídeas raras e frescas todos os dias, os cidadãos já sentiriam que os seus sacríficios não seriam em vão :).
    O que o Luis Meneses Leitão parece não perceber é que desse ponto de vista, qualquer medida de contenção de despesas que tomem os ministros em relação a si e ao seu próprio gabinete, seriam consideradas ridiculas, precisamente porque simbólicas, atento o impacto relativamente reduzido no orçamento geral do Estado.

    1. As verdadeiras medidas de contenção de despesa não são simbólicas nem ridículas. E não se anunciam, fazem-se. É fácil comprar bilhetes em classe turística, mandar tirar gravatas, ou prescindir de salários de que não se necessita. Difícil é extinguir autarquias ou empresas públicas. Há que distinguir o que são verdadeiras medidas da pura propaganda. E nessa Hitler era de facto exímio.

      1. Portanto, medidas fáceis não devem ser tomadas porque são ridículas? Volto ao mesmo: num certo gabinete de um ministro, ou numa direcção geral ou câmara municipal, o responsável não se deve abster de revestir a casa de banho de mármore, porque é… uma medida fácil? Isto terá alguma lógica. O que fazer quanto à extinção de uma empresa ou instituto público, ou a sua fusão, com a poupança de ordenados de gestores e administradores, se revela fácil? Não se faz, porque é propaganda. E lá vem o Hitler.

  2. Curiosamente já por aqui não passava há uns tempos e o sr. Leitão era uma das causas dessa falta de interesse crescente por este blog.
    Valha a verdade, continua na mesma linha. Continua a pensar como certa esquerda utopista, anacrónica e deslocada, que a riqueza dos povos nasce por aí sobre as secretárias bolorentas da quarta ou quinta geração de funcionários públicos, que tão bem descritos eram por Eça, no início do século passado.
    A Itália e Portugal estão em crise porque andaram alegremente a gastar o que não tinham nem souberam produzir, anos e anos a fio. Não é preciso ser alemão ou sueco para entender isso. Basta ser transmontano e ter vivido sempre de costas voltadas para esta espelunca fina que é uma “certa” Lisboa, para entender isso.
    O sr. Leitão não quer entender que é preciso mesmo dar os nossos subsídios, pensões, vencimentos para que as contas do país se endireitem, provavelmente porque acha que a riqueza nasce das pedras e é um direito dos cidadãos gastá-la, à tripa forra, sem que sequer exista, só porque sim.
    Também gostei daquela parte sobre a legitimidade eleitoral do governo italiano. Nada como um Leitão nacional para dar lições de legitimidade eleitoral aos italianos. Talvez a Pintasilgo gostasse de o ter ouvido falar, há uns anos atrás…
    A legitimidade eleitoral é garantida pelo parlamento (que em Itália ou em Portugal) é a instituição que é eleita. Nem mais nem menos. Se o parlamento italiano aceitar, o governo é tão legitimo como qualquer outro.
    Haja pachorra para o ler, Sr. Leitão!!

    1. Ainda bem que não tem pachorra para me ler, mas tem tanta para me comentar. Não se esqueça de dar “os nosso subsídios, pensões e vencimentos para que as contas do país se endireitem”. E garanta que os parlamentos (em Itália ou em Portugal) têm toda a legitimidade para eleger a qualquer momento um fantoche qualquer em quem nunca ninguém votaria porque aquele em quem votaram já não agrada aos mercados. Felizmente que temos o sr. Cruz para nos ensinar a verdadeira legitimidade eleitoral.

      1. Ninguém disse que não tinha pachorra para o ler. O que eu pedi foi mais e mais pachorra… Claro que um dia se esgota.
        Quanto à legitimidade eleitoral ela é definida nos próprios termos da eleição. Se elegermos 300 deputados por 4 anos é só isso que elegemos. E esses 300 deputados têm em 4 anos toda a legitimidade para desempenharem o seu papel. Aprovar governos, orçamentos desses governos, legislação, etc, etc…
        Essa invenção mediática, bem recente, de que os governos só são legitimos quando directamente eleitos pelo povo (o que nunca aconteceu, porque um governo nunca é eleito pelo povo) é uma idiotice só lida neste país.
        Os governos são propostos ao parlamento que os aceita ou não durante a sua vigência (os tais 4 anos em que os palamentares são deputados, eles sim, eleitos pelo país).
        Não há, nunca houve, governos eleitos pelo povo, nem, por isso mesmo, primeiros-ministros eleitos pelo povo. Há presidentes da república eleitos pelo povo, presidentes de câmara eleitos pelo povo e deputados eleitos pelo povo. Estamos entendidos?
        Ou seja o Monti é tão democraticamente legítimo como a Merkel ou como o Berlusconi. Nenhum dos três foi eleito para primeiro-ministro.

        1. “O Monti é tão democraticamente legítimo como a Merkel ou como o Berlusconi”. Vamos ver quanto tempo dura… E durante o seu governo todos os dias vão quastionar a sua legitimidade democrática. Que é algo mais do que o simples observar dos formalismos constitucionais. Monti chega a primeiro-ministro sem nunca ter ganho uma eleição como líder partidário. Nesta época de crise e tumultos sociais vai ser uma situação terrível.

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