É uma data marcante para a cultura portuguesa: Agustina Bessa-Luís faz 90 anos e, embora doente, encontra-se entre nós. A melhor prenda de aniversário que lhe poderíamos dar hoje seria ler algumas das muitas páginas que nos legou em mais de meia centena de livros. Lamentavelmente, isso quase só pode acontecer recorrendo a edições antigas, em certos casos mesmo apenas junto de alfarrabistas: a nossa maior escritora viva deixou de ter uma editora à medida do seu prestígio. Não há títulos seus em livros de bolso, a preços acessíveis. E, muito pior, a assumida divulgação das suas obras completas não passou afinal de um projecto abortado.
A história, relatada com minúcia aqui, devia envergonhar quem lhe fez promessas que não cumpriu. No fundo, envergonha-nos a todos. Por ser este também, de alguma forma, um certo retrato de Portugal – um país que nunca soube apreciar devidamente os seus talentos.
Parabéns, Dona Agustina. Eu vou lê-la hoje, dê por onde der.


Ai sim? Ai vai? Então faço-lhe companhia, deste lado…
E uma aposta? Tente adivinhar que obra estou eu a
ler, juro que não faço marosca, pago-lhe um copo na
Ribeira, se acertar!
Deixo uma pista, não, uma pistinha…
Estou a ler:
– Por alguma coisa dizia o pai que eras de maçonaria do
João Pequeno! Mas eu não me deixo roubar.
Ei lá, acabo de receber uma mensagem que diz,
Abelhinha voa voa para as bandas de ……?
Estou a responder,
……para as bandas do Delito!
Mas ele insiste,
– Silencio en la noche…Ilda non habla…Galo não
cacareja…
Lol como posso ser atinadinha?
Já sabe a resposta?
Que obra está a ler? Da Agustina? Será ‘Os Meninos de Ouro’?
Ohhhh…não acertou.
As Relações Humanas (romance) era a resposta. São três, “Os Quatro Rios”, era neste, pág 85, “A Dança das
Espadas”, e “Canção diante de Uma Porta Fechada”
– Guimarães Editores
Tive sorte, passei no Via Catarina e comprei este mais
” A Quinta Essência” por €4,90 cada, ficaram lá mais,
hei-de lá voltar!
Teve sorte, Ilda. Mais sorte que eu.
Tu e eu, Pedro. Parabéns Agustina. E a falta que faz
É isso, Patrícia. E a falta que faz o acesso a grande parte da obra dela.
Sempre achei uma tragédia que aquele indivíduo sinistro que saíu do BCP tivesse comprado a Guimarães. Começou logo a notar-se pelo facto de terem abandonado a estética cuidada das capas – que era muito característica e denotava o pensamento do editor. Tudo isso se perde quando chegam os especialistas de marketing. Enfim Já a Garrett encrispavam bastante os barões… e nada mudou.
Agustina e a sua família e os seus inúmeros leitores não merecem isto.
E muitos parabéns a ABL.
Ela bem os merece, Vasco.
O que Agustina não merece é o Dona Agustina – tratamento hoje de somenos. Ou o Senhora Dona Agustina cerimonioso a que tem todo o direito e que, creio, não deixaria de estimar, ou o Agustina que não é o da informalidade, mas o do reconhecimento da fama de que apenas os grandes desfrutam.
Dona Agustina, que hoje é igualitário, possidónio e raso é que não.
…pois não devia dormir.
Aqui vai um texto retirado do seu livro Dicionário Imperfeito. São só verdades,
O País não precisa de quem diga o que está errado;
Precisa de quem saiba o que está certo.
«Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista à crise política e económica com tal poder de adaptação. Há nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito é o que eu situo – dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condição de afecto pelas coisas, pelos seus próprios delitos, que não consideram dramáticos, só ao jeito das necessidades. De resto — quem se apresenta a salvar-nos que não esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo próprios. O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo.»
(Dicionário Imperfeito)
Veio muito a propósito. Agradeço-lhe a citação que trouxe aqui. Por coincidência, ainda ontem a deixei noutro blogue onde por vezes escrevo também.