Como é o teu mundo no dia que lês estas palavras?
No meu tempo, no tempo em que te escrevo estas linhas, os pobres têm menos liberdade. Têm muita dificuldade em conseguir cuidados de saúde, tem falta de professores, as casas são-lhes inacessíveis e isso acontece mesmo quando pagamos os impostos mais altos de sempre. Onde é que isto nos irá levar? Estas minhas dúvidas serão para ti apenas um nota histórica dos idos dos terceira década dos século XXI. Como dizia, os pobres vivem com uma liberdade condicionada. A carestia condiciona as escolhas e a busca pelo retorno imediato de quem ambiciona uma refeição farta, de alimento, de prazer, de alívio ou de simples alegria, leva a que as escolhas sejam diferentes das de quem se pode dar ao luxo de decidir com os olhos postos para além das próximas curvas. Por tudo isto, importa criar riqueza. É claro que, os ex-pobres, ou recém-abastados, continuam a querer consumir como se não houvesse amanhã, e isso provavelmente ir-lhes-á consumir a saúde e a vida. Lá dizem os ingleses que para educar um Lorde são necessárias três gerações. Só quem se desligar dos deliciosos e tentadores prazeres terrenos, daqueles que garantem retorno instantâneo, pode decidir friamente sobre as melhores escolhas a prazo. Essa será a eterna luta entre as camadas inferiores do nosso sistema nervoso, das mais antigas relíquias da nossa existência animalesca, daquelas que partilhamos com os répteis, e as mais recentes capacidades que nos permitem (?) contrariar esses impulsos instantâneos. Se um dia vieres a ler os clássicos, coisa que te recomendo e que eu próprio tento ir fazendo, vais descobrir que a verdadeira nobreza não resulta da linhagem, mas sim do carácter. E digo isto sem qualquer desprezo pelas linhagens.
Comecei este texto quando nascente e, entretanto, já estás quase com um ano.
Queria nesse dia falar-te da liberdade, dos homens livres que um dia entenderam que o estado era uma coisa boa e por isso quiseram criá-lo, mas que nunca poderão aceitar que a sua liberdade seja uma concessão desse estado, exactamente por esta lhe ser anterior.
Gostaria de saber se, quando leres isto, a ciência já conseguiu lapidar o diamante em bruto que a fusão nuclear, nestes dias, parece ser. Será que as petromonarquias ditatoriais do golfo já regressaram à vida nómada no deserto e que, no teu tempo, já voltaram a pastorear cabras no deserto, agora entre os arranha-céus em ruínas? É pouco provável.
E os regimes autoritários, como estão? Quando era novo gostava de filmes de ficção científica, que antecipavam o futuro, e em nenhum deles o mundo era regulado por democracias. O que é que achas da democracia? Gostava de falar de poder de democracia contigo.
E a medicina? Como é que vocês lidam com as doenças que vitimaram tantos milhões neste tempo que te escrevo? Olham vocês para o cancro com a indiferença que nós dedicamos ao sarampo, que matou tantos milhões, e que já nem sequer é do meu tempo?
E a Direcção Geral de Saúde ainda recomenda que cada um se agasalhe no inverno e que beba líquidos no Verão? O estado é no teu tempo, tão paternalista como agora? Ou já passou a maternalista? No meu tempo de miúdo ouvia a tua avó dizer, não vás só com essa camisolinha para o café, olha que está frio, não vais de bicicleta a cortar a aragem, olha que isso é só uma casquinha de batata, agasalha-te. Agora, nestes dias que te escrevo, é o estado que nos diz isso. Há alguma coisa parecida com isso no teu tempo?
No texto que comecei a escrever naquela semana em que nascente, e que depois deixei encostado, anotei alguns destes pontos que agora desenvolvi. O que me fez hoje regressar a este escrito, foi um artigo do Henrique Monteiro, um jornalista do jornal Expresso. E o Jornal Expresso ainda existe? E os outros jornais, como é que funcionam? Gosto de ler o Henrique Monteiro porque acho que ele sabe lidar, com espessura e honestidade, com o muito conhecimento que tem acumulado ao longo da vida. Vale a pena lê-lo. O que ele hoje publicou parece mesmo que foi escrito para ser lido no futuro e, por isso, vou deixar-te aqui um excerto do artigo dele.
“Há em cada geração, sobretudo nas idades mais jovens, a ideia de que se faz parte de um grupo especial, de um conjunto de pessoas que trazem algo ao mundo, que o melhoram ou impedem de se afundar. Esta ideia é tão velha como o próprio mundo e, não por acaso, a frase de que não há nada de novo debaixo do sol terá sido proferida pelo mais sábio dos reis descritos na Bíblia — Salomão.
Cada fornada de jovens pensa ter a chave para as injustiças do mundo, para as iniquidades e desigualdades que vai presenciando. É normal; as nossas sociedades, por muito que se tenham aperfeiçoado, por muita miséria que tenham afastado, por muita solidariedade que tenham gerado, ainda deixam um rasto de problemas insolúveis.
Há dois mil anos esperava-se um Messias, um ungido de Deus que pusesse as coisas na ordem, e há mil anos esperava-se o mesmo; aliás, variantes do cristianismo ainda o esperam, assim como os judeus; os muçulmanos xiitas aguardam o 12º Imã talvez com a mesma fé que um bom comunista anseia por uma sociedade sem classes, desta vez a sério, sem oligarcas, burocratas e assassinos, que transformaram o chamado ‘socialismo real’ em ditaduras brutais. Do outro lado, os fascistas aguardam que a ‘raça’ se apure e que a convivência e caldeirão de culturas dê lugar a apenas uma — a deles. Aquilo que todos anseiam, como cantou José Mário Branco em ‘Inquietação’, não se sabe bem o que é, ainda; mas “essa coisa é que é linda”.
Este pensamento torna-se global. Agora vivemos com várias cangas: a terrível bomba atómica que o conflito que os russos provocaram na Ucrânia pode desencadear; os vírus que não podemos atribuir a algo específico, mas que se espalham com a superpopulação, os quase oito mil milhões de seres humanos, que, aliás, são outro problema. E depois os extremos climáticos, visíveis e sentidos por todos, cuja culpa se atribui ao Homem. Em todas estas frentes, que têm os seus arautos da desgraça, surgem as gerações mais jovens; Lenine chamava-lhes ‘tropa de choque’ da Revolução. Na verdade, perante o rol de desgraças é relativamente fácil convencer jovens que têm de agir com certa radicalidade para salvar o que é necessário ser salvo. A racionalidade não faz parte de nenhuma destas variáveis. Os pacifistas entregariam de bom grado o povo ucraniano à morte bárbara se isso impedisse uma guerra geral, ainda que depois os agressores se virassem também contra eles; os vírus, mais difíceis de entender e de justificar politicamente, começam a ser consequência das alterações climáticas e do excesso de população; ninguém o diz, mas no geral, para se ter menos poluição e doenças, o malthusianismo é uma teoria aceitável, que conduz (como conduziu) a defesas da eugenia, ou seja, o assassínio dos deficientes e o apuramento da raça; o clima justifica tudo (só me espanta que a expressão ‘apanhados do clima’ tenha precedido o fenómeno). O clima que, habilmente, é misturado com a poluição e com a generalidade dos males do mundo tornou-se a linha que divide os bons dos maus.
Só esta ideia, se entendida racionalmente, deveria fazer-nos parar. Haverá alguém que queira morrer assado, à sede ou sob uma avalancha? Não parece. No entanto, os ativistas climáticos irritam-se com as gerações anteriores — precisamente aquelas que lhes possibilitaram os meios de se indignar: do avião ao telemóvel; enfim, uma sequência de bens que vêm da Revolução Industrial e mesmo de antes. Apontam o dedo aos mais velhos e gritam-lhes para ter vergonha. Como a célebre Greta Thunberg, clamam “shame on you”, como se as gerações anteriores pretendessem o fim do mundo e, mais precisamente, o fim das gerações dos filhos e netos. Claro que para os mais novos estas palavras apenas revelam que quem as escreve não entende a gravidade das alterações climáticas; é um cavernícola — isto é, um clássico. Mas o mais perturbante é o facto de haver pessoas das gerações anteriores que alinham com estes discursos milenaristas (alguns para ganhar dinheiro, outros para ganhar votos e outros apenas porque não souberam envelhecer e chegar à idade da razão, da racionalidade, do olhar para os vários ângulos do problema).
É necessário combater a poluição e as suas fontes; é necessário alterar muita coisa, talvez mesmo o atual estilo de vida. Todos têm de estar abertos e disponíveis para essa possibilidade. Mas o mundo e a vida não acabam amanhã; não terão a glória de viver esse momento histórico. O caminho será duro, como sempre foi. A jornada do Homem nunca foi no paraíso.”
Para hoje vou ficar por aqui. Talvez um destes dias regresse a este texto para acrescentar mais linhas.
PS: É lastimável que não tenha escrito nada deste género para os teus primos. Vou ter de pensar nisso.

““Soldados, pensem que do alto dessas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam!” Com essa frase, Napoleão Bonaparte incitou seus comandados a enfrentarem as tropas de mamelucos muçulmanos durante a Batalha das Pirâmides, em 21 de julho de 1798.”
temos de enfrentar todas as batalhas sem o ‘complexo de matar o pai’
UNESCO, 1996
Los cuatro pilares de la educación
Aprender a conocer 96
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La«desmstetislízeaon» del trabajo y lasactividades
deservicios enel sector asalariado 101
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