Manhã muito cedo, já o pescador veio aviado. Traz um carregamento de peixe que vai amanhando e atirando para um grande balde. Com gestos mecânicos e expeditos, serve-se da faca para lhes retirar as vísceras, que deposita ali, nas águas plácidas da ria. As incisões são feitas a bom ritmo e com precisão cirúrgica: não tarda, o balde vai enchendo.
O homem prossegue a tarefa, imperturbável. Está descalço, de pés plantados na ria, calças de ganga arregaçadas. Esquarteja ferreiras e besugos que daqui a poucas horas estarão estendidos nas grelhas.
O sol já se ergueu acima da linha dos telhados, o calor aumenta, a faca prossegue o seu curso na mão direita do homem, seco e tisnado. Há um frenesim de gaivotas em seu redor: disputam as vísceras dos peixes numa atmosfera de solene algazarra. As mais possantes afastam a concorrência à força de bicadas, o alarido de umas depressa atrai as atenções de outras que logo se aproximam.
Mas não parece haver necessidade de lutas: o petisco chega para todas.
Da marginal de Cabanas, uma senhora pergunta ao pescador a como lhe vende o peixe. O homem informa-a sem sequer a olhar nem abrandar o ritmo: extrai as entranhas, lava o peixe e atira-o para o balde.
A senhora aproxima-se, interessada, já de nota na mão.
“Eu quero aquele maior para encher a barriga”, diz-lhe, apontando com o dedo. O peixe recém-pescado salta do balde para um saco de plástico em poucos segundos. O homem prossegue o seu labor, imperturbável. As gaivotas navegam à sua volta, como se fossem patos num inquieto alvoroço. A senhora regressa à marginal em passo pausado por força conjugada da idade e do calor.
Espreita o saco: o peixe é grande. O almoço de hoje está garantido, amanhã logo se vê.


Dois postais espectaculares, Pedro. Um pintando todas as cores da Ria Formosa ao amanhecer e um outro plano conseguido com a nitidez objectiva de um observador arguto, que com palavras simples oferece um retrato de vida magnífico.
Bom Domingo. 🙂
Duplamente agradecido pelas suas palavras, Dulce.
Gostei da aguarela. Na perplexidade de ver “senhoras” (mulheres que possuem) em marginais de cabanas comprando peixe que encham a barriga pergunto que mal têm as mulheres? Já bastam as esposas!
Senhora, neste caso, é uma expressão respeitosa atendendo à idade bastante avançada da pessoa em causa.
Excelente crónica, Pedro. Devo dizer que é uma das coisas que me falta em Londres, o nosso magnífico peixe fresco.
Um abraço.
E este magnífico sol também, Carlos. E esta luz esplendorosa. I presume.
You presume well.
E factura para ganhar um topo de gama Audi?
Audi vê-la… por um canudo.
Caríssimo,
Cenário familiar: Boas ferias… Setembro será a minha vez. Aproveite bem e descanse.
Forte abraço
Gosto ainda mais desta região em Setembro, meu caro. Voltarei nessa altura. Um abraço.
Tubarão?
Às vezes também aparece. Mas muito ao longe.
Belo post(al), Pedro. Mais um!
Também por aí estive – mais por Santa Luzia – na semana passada…
Um abraço, e boas férias!
Obrigado, caro Eduardo. Amanhã lá estarei em Santa Luzia. A comer polvo, um dos meus petiscos predilectos.
Um abraço algarvio.
Suado. No Alcatruz… Bom apetite!
Um abraço, Pedro.
Outro para si, Eduardo (o polvo, confirmei hoje, recomenda-se).