Todos pensamos em deixar um planeta melhor para os nossos filhos. Quando é que pensaremos em deixar filhos melhores para o nosso planeta?
23 comentários em “Para a Leonor (e não só)”
Obrigada, João. O que me tem feito pensar bastante nos últimos tempos é a capacidade que alguns pais adquiriram de acreditar em tudo o que os filhos dizem como se fosse dogma ou uma verdade acima de qualquer suspeita. Naturalmente os pais devem confiar nos filhos, mas como adultos deviam ser mais atentos. Estou a generalizar, nem todos são assim e nem todos os adolescentes mentem ou distorcem os factos à sua maneira. Quanto à avaliação, acho que deve haver rigor, justiça e lealdade. Se assim for tudo correrá bem, mais conselho de turma menos conselho de turma.
Fossem todos os educadores assim e o mundo seria outro. Especialmente nestas três últimas semanas em que o mundo mudou, como assinalou o nosso primeiro-ministro… :o)
João Carvalho, gande pergunta! Aqui há dias soube que um professor foi condenado por ter dito não sei o quê a um aluno. Será que o juiz pensou no que o dito aluno diria constantemente, para o prof. chegar a ese ponto? Nada disso: condenação e indemnização em 1000 euros. Parece pouquíssimo, eu sei. Mas para um prof? E de resto, nem que fossem 200 euros…
Pelo que li, Chloé, o professor chamou “preto” ao aluno. Concordo inteiramente que tenha sido condenado. Por experiência própria sei que há alturas em que os alunos nos desesperam mas, em momento algum, o professor pode perder o Norte e partir para a ofensa. Além de ser um péssimo exemplo, uma ofensa ao indíviduo indepentemente de ser aluno ou não, é abrir a porta a ofensas crescentes. Quando se perde o respeito, perde-se tudo, em qualquer relação. Admito que estou numa fase com total ausência de corporativismo, nunca foi o meu forte, e sem compaixão alguma para professores que não cumprem o seu dever, são maus profissionais e fazem com que todos nós sejamos metidos no mesmo saco.
Bom, se foi mesmo assim… azar, devia ter ficado calada 🙂 Ainda bem que clarificou. E tb percebo que não sinta impulsos corporativistas: pelo que ouço de pessoas muito próximas, enfiadas até ao pescoço na escola há mais de 30 anos, o impulso surge, mas desvanece-se em 3 tempos. O que me confunde mais é que de facto a avaliação – a célebre e complicadíssima avaliação -, não ser feita de forma prática e o mais justa possível. Por que diabo um professor – novo ou veterano – que dá provas de total negligência numa escola, não é penalizado? Para que outros, dedicados e vocacionados, pudessem ter lugar na “corporação”? Já agora, um episódio eloquente, que posso afirmar ser absolutamente verídico: certa escola do secundário, muito cotada, acolheu este ano um prof . na casa dos 30 e tais, para substituir uma lendária prof ª de Português que se tinha reformado. A coordenadora de grupo (ou coisa assim) entregou-lhe a necessária documentação e discutiu com ele o programa em vigor, guidelines , leituras obrigatórias, etc. A páginas tantas, quando mencionava o Memorial do Convento, ele interrompeu para dizer: “Nunca li”. Entupida, a colega levou-o de imediato à biblioteca para fazer a requisição do livro. Mas quando o professor de Português (sublinho) percebeu que a intenção era que levasse a obra com ele, atalhou de imediato que não queria, porque já levava muito material A4 para ler… Mas o melhor, o melhor, foi que quando chegou a altura de leccionar essa parte da matéria e, portanto, falar do livro. “Leiam, isto é suposto ser para lerem. Mas já aviso que não passei da pág. 13″… Alguns alunos queixaram-se e foi por isso que a direcção veio a saber. Isto diz tudo sobre a fragilidade e a cegueira do sistema.
Nada disso me surpreende, Chloé, cá pelo burgo até deve haver quem se tenha benzido e feito penitências por ter de ler o Memorial, mas essa é outra história dignificante de algumas mentes iluminadas que vêem em Saramago o comunista empedernido e nada mais. Andam a recozer ódios há décadas, pobrezinhos. Em relação à avaliação, a verdade é que com esta gestão fica tudo nas mãos dos Directores e de uma Comissão do Conselho Pedagógico que na minha escola foi nomeada pelo Director. Isto para esclarecer que o Director e a dita comissão fazem o que querem e avaliam como lhes apetece. Se lhe disser que eu, por exemplo, não sei como é que fui avaliada, ou seja, quais os critérios que levaram ao número que consta na minha avaliação, ficaria admirada, mas é assim. Casos como os que relata não são filhos únicos mas ficam impunes a maior parte das vezes.
«Se lhe disser que eu, por exemplo, não sei como é que fui avaliada, ou seja, quais os critérios que levaram ao número que consta na minha avaliação, ficaria admirada, mas é assim.»
Leonor, a lei contempla quer a possibilidade de contestação quer o direito ao cabal esclarecimento dos critérios. Aliás, os critérios teriam de ser previamente publicitados e a classificação da Leonor também esteve dependente de uma entrevista em que teria podido solicitar os esclarecimentos que desejasse. No caso de se sentir lesada há sempre um Tribunal Administrativo, não é?
O que acho pior é apenas os próprios tomarem conhecimento da própria classificação: afinal, se o processo fosse transparente e digno, a publicitação de todos os resultados seria natural.
Sim, eu sei, que, caso me tivesse sentido lesada, poderia ter reclamado. Não foi o caso, porque não pedi avaliação da componente científico-pedagógica. Além disso, e muito sinceramente, acho que as reclamações adiantam pouco porque o sistema está todo inquinado. Também porque não acredito minimamente neste sistema e nesta gestão não esperei um trabalho mais sério e rigoroso, já sabia que ia dar nisto. O que refere também é curioso. Ninguém sabe da avaliação uns dos outros, deve ser segredo de estado.
Quase perfeita a vinheta de 1969… no meu caso um dos pais tinha-me agarrado por uma orelha. 😉 Bem vista a (séria) nuance do planeta melhor Vs filhos melhores.
Os pais hoje sofrem de um mal generalizado da sociedade: o mal dos números instantâneos. Não interessa o que o filho realmente sabe. Interessa é que “passe”, que tenha tão boas notas como vizinho. Porque estes pais, acham que um futuro se faz só de objectivos vãos. E esquecem-se que este se constrói pelo gosto por aprender, pelo respeito pelo conhecimento e pelo cumprimento dos deveres para com a sociedade. Estes pais desprezam o tempo de construção do saber. Desprezam o alicerces do conhecimento, que tanta esforço e disciplina podem exigir. Estamos a dar ao planeta filhos que só valorizam o fácil e o divertido. E que nunca terão o prazer de descobrir quanto é divertido deslindar o difícil.
Excelente cartoon, João. Muito (tristemente) verdadeiro. Eu, que também sou do tempo do arroz carolino, lembro-me bem de passar por situações destas e de nunca me darem razão. Raramente a tinha, diga-se, e não me fez mal nenhum.
Obrigada, João. O que me tem feito pensar bastante nos últimos tempos é a capacidade que alguns pais adquiriram de acreditar em tudo o que os filhos dizem como se fosse dogma ou uma verdade acima de qualquer suspeita. Naturalmente os pais devem confiar nos filhos, mas como adultos deviam ser mais atentos. Estou a generalizar, nem todos são assim e nem todos os adolescentes mentem ou distorcem os factos à sua maneira. Quanto à avaliação, acho que deve haver rigor, justiça e lealdade. Se assim for tudo correrá bem, mais conselho de turma menos conselho de turma.
Fossem todos os educadores assim e o mundo seria outro.
Especialmente nestas três últimas semanas em que o mundo mudou, como assinalou o nosso primeiro-ministro…
:o)
Nada de mais, João. Há que ter consciência do que se faz.
O PM começa a ser assunto tabu, já não posso, é que já não posso…
Cada vez somos mais. Qualquer dia, o homem fica a falar sozinho, a dar uma entrevista ao espelho.
João Carvalho, gande pergunta!
Aqui há dias soube que um professor foi condenado por ter dito não sei o quê a um aluno. Será que o juiz pensou no que o dito aluno diria constantemente, para o prof. chegar a ese ponto?
Nada disso: condenação e indemnização em 1000 euros. Parece pouquíssimo, eu sei. Mas para um prof? E de resto, nem que fossem 200 euros…
Certíssimo. Não conhecemos o caso todo, mas com os valores distorcidos como andam, dá para ficarmos desconfiados. No mínimo.
Pelo que li, Chloé, o professor chamou “preto” ao aluno. Concordo inteiramente que tenha sido condenado. Por experiência própria sei que há alturas em que os alunos nos desesperam mas, em momento algum, o professor pode perder o Norte e partir para a ofensa. Além de ser um péssimo exemplo, uma ofensa ao indíviduo indepentemente de ser aluno ou não, é abrir a porta a ofensas crescentes. Quando se perde o respeito, perde-se tudo, em qualquer relação. Admito que estou numa fase com total ausência de corporativismo, nunca foi o meu forte, e sem compaixão alguma para professores que não cumprem o seu dever, são maus profissionais e fazem com que todos nós sejamos metidos no mesmo saco.
Bom, se foi mesmo assim… azar, devia ter ficado calada 🙂
Ainda bem que clarificou. E tb percebo que não sinta impulsos corporativistas: pelo que ouço de pessoas muito próximas, enfiadas até ao pescoço na escola há mais de 30 anos, o impulso surge, mas desvanece-se em 3 tempos.
O que me confunde mais é que de facto a avaliação – a célebre e complicadíssima avaliação -, não ser feita de forma prática e o mais justa possível. Por que diabo um professor – novo ou veterano – que dá provas de total negligência numa escola, não é penalizado? Para que outros, dedicados e vocacionados, pudessem ter lugar na “corporação”?
Já agora, um episódio eloquente, que posso afirmar ser absolutamente verídico: certa escola do secundário, muito cotada, acolheu este ano um prof . na casa dos 30 e tais, para substituir uma lendária prof ª de Português que se tinha reformado. A coordenadora de grupo (ou coisa assim) entregou-lhe a necessária documentação e discutiu com ele o programa em vigor, guidelines , leituras obrigatórias, etc. A páginas tantas, quando mencionava o Memorial do Convento, ele interrompeu para dizer: “Nunca li”. Entupida, a colega levou-o de imediato à biblioteca para fazer a requisição do livro. Mas quando o professor de Português (sublinho) percebeu que a intenção era que levasse a obra com ele, atalhou de imediato que não queria, porque já levava muito material A4 para ler… Mas o melhor, o melhor, foi que quando chegou a altura de leccionar essa parte da matéria e, portanto, falar do livro. “Leiam, isto é suposto ser para lerem. Mas já aviso que não passei da pág. 13″…
Alguns alunos queixaram-se e foi por isso que a direcção veio a saber.
Isto diz tudo sobre a fragilidade e a cegueira do sistema.
É, Chloé, a Leonor tem razão. O sistema é que se tornou perverso.
Nada disso me surpreende, Chloé, cá pelo burgo até deve haver quem se tenha benzido e feito penitências por ter de ler o Memorial, mas essa é outra história dignificante de algumas mentes iluminadas que vêem em Saramago o comunista empedernido e nada mais. Andam a recozer ódios há décadas, pobrezinhos.
Em relação à avaliação, a verdade é que com esta gestão fica tudo nas mãos dos Directores e de uma Comissão do Conselho Pedagógico que na minha escola foi nomeada pelo Director. Isto para esclarecer que o Director e a dita comissão fazem o que querem e avaliam como lhes apetece. Se lhe disser que eu, por exemplo, não sei como é que fui avaliada, ou seja, quais os critérios que levaram ao número que consta na minha avaliação, ficaria admirada, mas é assim. Casos como os que relata não são filhos únicos mas ficam impunes a maior parte das vezes.
«Se lhe disser que eu, por exemplo, não sei como é que fui avaliada, ou seja, quais os critérios que levaram ao número que consta na minha avaliação, ficaria admirada, mas é assim.»
Leonor, a lei contempla quer a possibilidade de contestação quer o direito ao cabal esclarecimento dos critérios. Aliás, os critérios teriam de ser previamente publicitados e a classificação da Leonor também esteve dependente de uma entrevista em que teria podido solicitar os esclarecimentos que desejasse. No caso de se sentir lesada há sempre um Tribunal Administrativo, não é?
O que acho pior é apenas os próprios tomarem conhecimento da própria classificação: afinal, se o processo fosse transparente e digno, a publicitação de todos os resultados seria natural.
Sim, eu sei, que, caso me tivesse sentido lesada, poderia ter reclamado. Não foi o caso, porque não pedi avaliação da componente científico-pedagógica. Além disso, e muito sinceramente, acho que as reclamações adiantam pouco porque o sistema está todo inquinado. Também porque não acredito minimamente neste sistema e nesta gestão não esperei um trabalho mais sério e rigoroso, já sabia que ia dar nisto. O que refere também é curioso. Ninguém sabe da avaliação uns dos outros, deve ser segredo de estado.
Deve ser por isto que se chama escola inclusiva!
Às tantas, deve ser isso.
Quase perfeita a vinheta de 1969… no meu caso um dos pais tinha-me agarrado por uma orelha. 😉
Bem vista a (séria) nuance do planeta melhor Vs filhos melhores.
Em 1969, ter-me-ia acontecido o mesmo.
Os pais hoje sofrem de um mal generalizado da sociedade: o mal dos números instantâneos. Não interessa o que o filho realmente sabe. Interessa é que “passe”, que tenha tão boas notas como vizinho. Porque estes pais, acham que um futuro se faz só de objectivos vãos. E esquecem-se que este se constrói pelo gosto por aprender, pelo respeito pelo conhecimento e pelo cumprimento dos deveres para com a sociedade. Estes pais desprezam o tempo de construção do saber. Desprezam o alicerces do conhecimento, que tanta esforço e disciplina podem exigir. Estamos a dar ao planeta filhos que só valorizam o fácil e o divertido. E que nunca terão o prazer de descobrir quanto é divertido deslindar o difícil.
Enfim, nunca houve tanta aprendizagem e tão pouca preparação, tanto conhecimento e tão pouca sabedoria.
Excelente cartoon, João. Muito (tristemente) verdadeiro. Eu, que também sou do tempo do arroz carolino, lembro-me bem de passar por situações destas e de nunca me darem razão. Raramente a tinha, diga-se, e não me fez mal nenhum.
Tal e qual, Ana. Passei exactamente pelo mesmo.
João, vai ver o mail… já!
O trabalho que tu me dás.
🙂
Nem me dás tempo nenhum: só uns dias? Vou tentar tudo.
Acho bem…