SE AO MUNDO PREDISSESSES TEU MORRER
Se ao mundo predissesses teu morrer
na morte a natureza ir-te-ia à frente
volvendo com mandado intransigente
no eterno esquecimento o próprio ser
O céu se rosaria docemente
por do teu corpo a roupa enfim descer
florestas tingiria o teu sofrer
de negro e a noite o mar barca silente
Luto sem nome com estrelas mede
a estela ao teu olhar no arco celeste
e a escuridão de espesso muro impede
que a luz da nova primavera preste
A estação vê nos astros que pararam
as cisternas que a morte te espelharam.
Walter Benjamin, in Sonetos
Tradução de Vasco Graça Moura


Venho aqui expressar mais uma vez (já o fiz no Fio de Prumo) as minhas sentidas condolências pelo difícil momento que a Helena Sacadura Cabral e família atravessam. Não vou acrescentar muito mais. Que o Miguel possa descansar em paz.
Nestas horas de dor as palavras sentidas nunca são de mais, Fátima.
Não temos muito mais do que palavras nestas alturas, e elas valem de tão pouco. Que sejam sublimes como este soneto, pelo menos.
Vem-me à memória aquela frase do Malraux: “Uma vida não vale nada, mas nada vale uma vida.”
Grande frase.
Uma das frase mais sábias e mais verdadeiras que conheço.