Lá fora há um dia de sol que me cumprimenta pela janela da sala. Melros que se penduram na vedação ou rasam a relva depenicando aqui e ali. A gata deitada a meus pés no tapete e a quietude que me retempera dos dias de alma gelada, acontecem esses dias, têm acontecido muito dias desses. E os cães ladram. Um ladrar díspar subitamente insistente. Vem aí gente, gente desconhecida. A gata inquieta-se como se cão fosse. Vem gente. Eu sei que eles hão-de vir. A campainha estridente. Vêm aí. Apuro o ouvido enquanto caminho para a porta. São eles. Em escadinha e de rostos sorridentes aparecem-me ao portão e olham com curiosidade quem os chama da porta de casa Venham cá! E vêm. Abrem os sacos de pano para onde vou depositando rebuçados, chupa-chupas, moedas de chocolate e línguas de gato, irmãmente distribuídos para cada um dos sacos e atentamente supervisionado pelos olhinhos brilhantes e bochechas rosadas. E lá vão arrastando os pés, chilreando como só eles e verificando a safra Já tenho muitas coisas ou Obrigada ou soltando verbalizações impensadas de que só as crianças são capazes Esta casa é muito engraçada, Finalmente alguém que nos abre a porta e um lamento Senhora, seja boazinha para nós que este é o último ano. Regressam os que no ano anterior vinham com as mães e tias, agora em bandos chilreantes, outros que assumiram o papel dos progenitores e orientam os mais pequenos na tradição. Alguns mais afoitos dão-me um beijinho e relembro-os Para o ano há mais! Tradição cumprida. Para o ano há mais. Lá fora há um dia de sol que me cumprimentou pela janela da sala. Cá dentro faz sol.
Pão-por-Deus
cronicasnofeminino,

Excelente crónica, Leonor. Excelente filigrana da vida real. Do melhor que tenho lido na blogosfera. Um raio de sol não só no teu dia mas também no dia de quem te lê.
Obrigada, Pedro. Gosto muito de receber as crianças cá em casa. Eles sabem e quando entram na rua vêm direitinhos à minha porta.
Oh saudade…íamos pelo pão-por-Deus,e ao fim do dia contávamos as castanhas, alguns biscoitos e os tostões que encheriam o mealheiro…
“… ¡Ah, cuando yo era niño
soñaba con los héroes de la Ilíada!
Áyax era más fuerte que Diomedes,
Héctor, más fuerte que Ayax,
y Aquiles el más fuerte; porque era
el más fuerte…¡Inocencias de la infancia!
¡Ah, cuando yo era niño
soñaba con los héroes de la Ilíada! …”
( com a amável permissão de D. António Machado )
Faço minhas as palavras do Pedro. Guardas-me umas moedas de chocolate?
As moedas são as preferidas da criançada. Já só tenho meia dúzia de rebuçados. Pode ser? 🙂
hbkjqoij&$#!!!!
😀
Lindo, Leonor.
Eu tinha-me esquecido destas “visitas” que me acordaram bem cedo.
Felizmente não foi muito cedo, Ivone. Gosto muito que cá venham.
Luminoso, Leonor. Parabéns.
Obrigada, Rui. Acho piada que cá venham 🙂
Luminoso é, sem sombra de dúvida, o adjectivo certo para este texto. Gostei muito, Leonor 🙂
Obrigada, Cristina. Ainda não esqueci as bolachas. Quando fizer, digo. Beijinhos
:))
Mt bom, porque simples, porque autêntico, porque as crianças ainda são o melhor do mundo. E porque a sensibilidade e a ternura podem e devem coexistir com a audácia, combatividade e humor de alguém como a Leonor (vista de longe, e só para dizer o geral:)). Gostei muito. ****
Muito obrigada, as suas palavras deixam-me muito sensibilizada.
Bolinhos & Bolinhós, por aqui… É um feitiço destes dias. Para o ano meto a clientela mini da minha rua no carro e já sei onde os levo, Leonor… ;))
Vem, Laura :))))