Palavra de ordem: Apertar


Diogo Novo,

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Há pouco menos de um mês o Centre d’Estudis d’Opinió, um instituto de estudos sociais na dependência da Generalitat (Governo autonómico da Catalunha), inquiriu os catalães sobre sentimentos de pertença nacional. Insuspeita de ser uma maquinação españolista, a sondagem ofereceu resultados claros: 41.2% sentem-se tão catalães como espanhóis e 20.1% apenas catalães – dividindo-se os restantes em ‘apenas espanhol’, ‘maioritariamente espanhol’ ou ‘maioritariamente catalão’.

Entre outros méritos, estes resultados demonstram que a violência urbana em curso na Catalunha é sobretudo o reflexo de um conflito entre catalães. Não é Espanha que se está a romper, mas sim a Catalunha.

 

Os tumultos dos últimos dias têm como causa imediata a sentença do Tribunal Supremo que condenou 12 líderes independentistas a penas de prisão que vão de 13 anos a 1 ano e 8 meses. Sobre esta sentença muito há a dizer, mas são dois os pontos essenciais. Primeiro, as condenações eram inescapáveis. No seu conjunto, estes indivíduos violaram deliberadamente a Constituição, violaram deliberadamente o estatuto de autonomia da Catalunha, ignoraram com dolo sentenças de vários tribunais, e ignoraram advertências dos técnicos do próprio parlamento catalão. Para cometer os crimes recorreram a dinheiro público, o que constitui em si mesmo um crime. Em Espanha, como em qualquer Estado de Direito, as condenações eram uma inevitabilidade.

Segundo, a sentença é leve. As penas definidas pelo Tribunal são consideravelmente inferiores às pedidas pela Fiscalía (Ministério Público) e, mais importante, o crime de Rebelião, o mais gravoso de todos, foi descartado. Além do mais, o Tribunal deixou a porta aberta à aplicação do regime penitenciário de tercer grado, que na prática significa que os condenados apenas terão de pernoitar na prisão de segunda-feira a quinta-feira. A decisão sobre a aplicação deste regime não depende das instituições espanholas, mas sim das instituições catalãs que estão na dependência da Generalitat. Sentença mais leve era impossível.

 

Se a sentença é leve, qual a razão da violência nas ruas? São duas. Por um lado, unir uma família desavinda. Desde o alegado referendo de 1 de Outubro de 2017 que os partidos e movimentos independentistas vivem em ambiente de tensão e desconfiança mútuas. Mais grave, perderam influência sobre os seus eleitores, que se sentem manipulados (prometeram-lhes uma independência que, sabemos hoje, os líderes partidários nunca tiveram real capacidade e intenção de cumprir). A sentença do Tribunal Supremo ofereceu aos partidos e movimentos separatistas um expediente ideal para mobilizar e reunir as hostes. Não foi por acaso que Quim Torra, presidente da Generalitat, homem favorável a teses étnicas sobre a nação catalã, disse aos manifestantes que é preciso “apertar”.

Por outro lado, o radicalismo catalão aposta numa repetição do passado. Os dois últimos anos de tensão na Catalunha mostram que o único momento em que o separatismo foi capaz de suscitar simpatias internacionais ocorreu na sequência da intervenção policial destinada a impedir o suposto referendo. A reacção de Espanha pagou dividendos ao nacionalismo radical. Assim, é preciso provocar – e provocar muito – uma nova reacção policial que permita ao nacionalismo catalão remendar os rasgões internos e potenciar a sua causa além-fronteiras. Logo, e mais uma vez, é preciso “apertar”.

Resta saber quem mais sofrerá com tantos apertos.

24 comentários em “Palavra de ordem: Apertar”

  1. “Assim, é preciso provocar – e provocar muito – uma nova reacção policial que permita ao nacionalismo catalão remendar os rasgões internos e potenciar a sua causa além-fronteiras.”
    As manifestações são bastante concorridas. Ou há um exército pago para provocar ações de rua ou os catalães são tontos e alinham nisso.
    Ou talvez esta análise seja mais um caso daqueles em que se diz que há manipulação para desvalorizar. Afinal a existência de manifestações contradiz a tese de que todos os catalães estão satisfeitos com a sentença.

    Não sou catalão mas penso que se fosse o que me incomodava não era não ser independente, era que a simples procura de soluções para clarificar se a Catalunha deve ser ou não independente dá direito a prisão.

    1. ” As manifestações são bastante concorridas. Ou há um exército pago para provocar ações de rua ou os catalães são tontos e alinham nisso.”

      Outra hipótese é haver uns mais gamberros, ou ruidosos que outros. Um exemplo cá do burgo é o PCP. São capazes de um estrilho desproporcional à representação política.

      Quanto ao resto julgo que o post é claro

      1. Quando há uma movimentação com muito apoio de que não gostamos dizemos que são os comunistas que estão a manipular. Um discurso com barbas.

        Claro que os comunistas conseguem manipular pessoas para virem para a praça pública mas não conseguem que eles votem neles.

        Quanto ao facto de serem muitos ou poucos, é questão de contá-los. Que tal com um referendo?

        1. A Espanha é considerada pelas instituições internacionais uma democracia ao estilo ocidental? A Constituição permite a realização de um referendo desse tipo? Existe um Parlamento que permita uma revisão constitucional? Existe representação partidária em Espanha?

          A Espanha com a independência, ou o separatismo, catalão desaparecia como país, levando ao sacrifício, à catástrofe social e económica de várias regiões autonómicas (ex:Andaluzia, Galiza ), pois a Espanha teve, ao longo de séculos, um modelo de desenvolvimento que não contemplou, contempla, a divisão do país. Em termos práticos as consequências da independência catalã, seriam semelhantes, para a Espanha, àquelas que Portugal enfrentaria com o fim da UE.

          Tal como sou contra o desaparecimento da UE, defendendo o seu Federalismo, e portanto uma maior participação dos europeus na condução dos destinos da Europa (ex: portugueses com a possibilidade de votar num governo europeu, em partidos europeus), não posso secundar os objectivos catalães, pelo amor e amizade que tenho com o país vizinho . Na Galiza, nas Astúrias sinto – me em casa.

          1. “A Espanha com a independência, ou o separatismo, catalão desaparecia como país, levando ao sacrifício, à catástrofe social e económica de várias regiões autonómicas (ex:Andaluzia, Galiza ), pois a Espanha teve, ao longo de séculos, um modelo de desenvolvimento que não contemplou, contempla, a divisão do país. Em termos práticos as consequências da independência catalã, seriam semelhantes, para a Espanha, àquelas que Portugal enfrentaria com o fim da UE.”

            Bem, se vem o fim do mundo em cuecas por causa de um referendo dentro de um Estado, então é melhor não. Mas se calhar é melhor explicar isso aos catalães, porque para eles não parece fazer muito sentido. É deles que estamos a falar e não são as nossas crianças para decidirmos por eles.

    2. Eu também não sou Espanhol, sou Portugues! E digo-lhe que se um conjunto de usurpadores empregassem os recursos públicos, a força pública, de todos os portugueses, e sobre os portugueses exercessem a ameaça e a violência para clarificar se uma qualquer parte do nosso território deveria ou não permanecer como Português, acho que a prisão seria o mínimo dos seus problemas!! Não sei o que será que no universo encantado do jo vence prisão!!

      1. Não é português mas é democrata. Os que não pensam como si são logicamente usurpadores antidemocratas sobre os quais é legítimo empregar a violência. E sendo o representante legítimo de todos os portugueses é dono de todos os meios do Estado Português e o único que determina para que fins eles são usados.

        Com este raciocínio estamos sempre certos. Lembra a velha máxima:

        1 – O chefe tem sempre razão
        2 – Em caso de dúvida aplica-se o artigo 1

  2. Uma vista de olhos pela História de Espanha, a partir da Guerra da Sucessão para não cansar muito, deve esclarecer um pouco o comentador Jo.
    E, claro, não esquecer a omnipresença da Guerra Civil, ( que, aqui para nós que ninguém nos ouve, se iniciou verdadeiramente no Outono de 34, graças à Esquerra e PSOE) , ressuscitada após a passagem por Moncloa da imbecilidade criminosa que foi/ é o bambi zapatero…

    JSP

    1. Está a dizer que a história de Espanha é imutável e que a pertença da Catalunha a Espanha é de tal modo evidente e irrefutável que nem pode ser referendada?

      Por essa ordem de ideias devíamos ser parte do Reino de Leão. Ou do Império Romano.

  3. A Generalitat está politicamente esgotada! Não passa disto, ora porque se esgotou no mito da independência e na provocação, ora porque é a única forma discursiva, política, que têm de não desmobilizarem os seus adeptos e perderem o poder na Catalunha (actualmente a relação é de simbiose, a generalitat paga à manifestação profissional. O caso dos CDR, com explosivos, protegidos e subvencionados pela Generalitat, os mil e um grupos de manifestantes subvencionados pela Generalitat)! O Governo de Espanha com a sua habitual tibieza e condescendência em relação à Generalitat vai sendo cúmplice do sequestro a que estão sujeitos milhões de Espanhóis Catalães. A condescendência tíbia contagiou o Supremo Tribunal! E os bárbaros subvencionados patrulham as ruas (A Catalunha, hoje, se fosse independente, estaria em guerra, guerra civil)! A tudo isto mantêm os poderes públicos (e o consenso PSOE PP) a velha doutrina da condescendência tida por apaziguamento!!
    O resultado, em crescendo, é, inevitavelmente, sempre pior!
    As autonomias, em Espanha, são um fenómeno extraordinário. Se necessário for, para aprofundar o orçamento e satisfazer as clientelas mais influentes, mimetizam-se as especificidades dos exemplos históricos que ofereceram proveito como o da Catalunha e do País Basco! Até o PP, com o Feijoó,(e a sua Academia da Galiza de Língua Portuguesa, uma coisa subversiva para Galegos e Portugueses desatentos – acho que até um flaviense tem dificuldades em ler aquilo), afina a mesma escala (tal como já o havia feito em Valencia, o PP). Dai-lhes mais 40 anos da mesma receita e teremos a mesmíssima coisa na Galiza, em Valencia e em Navarra!
    Há um consenso enfermo em Espanha! Um consenso que parte das elites da Academia, segue meio ruminada para os modorrentos mitómanos deslumbrados pela sua magnífica estupidez na media e é embalada em doses individuais com sabores variados para consumo de incautos!! O consenso é a negação da Espanha!

  4. Não é necessário saber tanto de história como os preclaros comentadores, para concluir que o estado espanhol se sustenta em alicerces imperialistas.
    Quando este tipo de coisas acontecem com a Rússia, somos todos contra…

    João de Brito

    1. Exacto!
      Noto que nunca se menciona o estatuto de autonomia que os catalaes queriam e foi aprovado politicamente por ambas as partes em meados da década passada para depois ser frustrado num tribunal imperial de Madrid. A meu ver a razão de tanto sarilho.
      Em que século viverá uma federaçao que nos dias de hoje ainda pretende fazer presos políticos pelo crime de sedição…?

  5. Caro Diogo, o Sanchez sentir-se-ia mais à vontade para aplicar o 155, ou outro mecanismo equivalente, em Madrid, se um levantamento de indignação o quisesse impedir de exumar a múmia de Franco do Vale dos Caídos!!
    É como está Espanha! Um espelho dos Espanhóis.
    Em Portugal pastamos com o mesmo calibre de indigentes sem a mesma dimensão de problemas! E como não temos a mesma dimensão de problemas urge criá-los!! Um espelho dos Portugueses.

    1. Justiniano ainda não se lembraram do Carlos V…. Se eles sabem, que a mando dele, Pizarro deu cabo dos incas, o Imperador está tramado. Ainda lhe queimam as ossadas como ao Garcia d’Horta… Fale baixinho, ou diminua o número da letra… Como é que isso se faz, camandro… Espumante de Vila Verde é um espetáculo

  6. Não sei qual foi a pergunta da sondagem. Mas dá pano para mangas.

    1– Se me perguntarem se me sinto MINHOTO ou PORTUGUÊS, eu responderia que me sinto tanto MINHOTO como PORTUGUÊS. Isso não quer dizer que quero a independência do Minho.
    Já pensei até que prefiro a independência de Lisboa e que deixe o resto do país em paz.
    É talvez a única cidade de Portugal que verdadeiramente detesto pelos maneirismos, arrogância e falta de civismo. Para além de saírem de lá todas os contratos governamentais descarada e impunemente corruptos.

    2º A violência das ruas resulta da “tolerância” típica de activistas esquerdóides. Basta haverem uns 100 activistas acéfalos numa cidade com muitos milhares de habitantes para haver pancadaria.
    Como temos uma comunicação social que por regra é também de esquerdóide, as imagens e os comentários são de um “sofrimento terrível da população pacífica que se manifesta perante as forças policiais fascistas e neo-nazis”.
    Mesmo, como vimos em 2017, um idiota esquerdóide, tenha avançado contra a polícia tendo por escudo o seu próprio filho menor.

    Os meus cumprimentos.
    José Menezes
    Tuga da província

    1. Toda a corrupção e violência saem de Lisboa. No Minho desde que morreram o cónego Melo e o Avelino Ferreira Torres que não há disso.

  7. Em Espanha, como em qualquer Estado de Direito, as condenações eram uma inevitabilidade.

    Resta saber o que dirá sobre o assunto, quando ele lá chegar, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Suspeito que a “inevitabilidade” será deitada para o lixo.

    As penas definidas pelo Tribunal são consideravelmente inferiores às pedidas pela Fiscalía (Ministério Público)

    Isso não é argumento válido, uma vez que, por definição e em princípio, o Tribunal nada tem a ver com o Ministério Público, nem tem que ligar pevas àquilo que este diz ou pede.

    É claro que isto é uma questão de princípio, na prática em países de tradição inquisitorial, como Espanha e Portugal, as coisas passam-se de forma bem diferente…

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