País real


Teresa Ribeiro,

 

Levantou-se de um salto, espalhando pelo chão as páginas dos anúncios classificados, e precipitou-se para a cozinha, a imaginar a panela esquecida a ferver em cachão ou, pior ainda, o lume já apagado e o gás a espalhar-se pela casa, camuflado pelo aroma inocente da sua sopa de legumes. O gato olhou-a com espanto e fastio. Quando a viu irromper na direcção do fogão, alçou o rabo e afastou-se, incomodado com aquela presença agora tão constante na sua vida.

A panela borbulhava pianinho, suspirando cenouras e brócolos. Afinal já tinha baixado o lume, pensou perplexa enquanto voltava às páginas do jornal. A seguir iria aspirar, limpar o pó, lavar a cozinha e a casa de banho, estender roupa, fazer o jantar. Tarefas que enumerou antecipando o cansaço acumulado, a unidade medida pela qual são mensuráveis e que permite atribuir-lhes um valor.

Antes pagava a uma empregada. Há licenciados que recebem menos do que ela lhe pagava. Se juntasse a essa poupança a do cabeleireiro e a da gasolina, e o que gastava todos os dias a almoçar fora, somaria algum dinheiro. Há-de fazer essas contas. Para não se esquecer  acelerou até à secretária e retirou a agenda do fundo da gaveta. Quase alegre abriu-a e escreveu a maiúsculas FAZER CONTAS AO QUE GANHO. Depois dirigiu-se à sala, para começar a aspirar. Olhou para a televisão. Àquela hora passavam os programas para as donas de casa, os doentes e os reformados. Ligou o aspirador e de costas para o ecrã apagado prometeu a si própria que mesmo que tivesse de passar anos naquilo jamais ligaria a televisão àquela hora.

12 comentários em “País real”

  1. Um país de meter medo. Uma ida (simples) ao cabeleireiro já é um luxo. Esta é a triste realidade. E desconfio que um dia deste acender a luz também vair ser.
    Muito boa abordagem, Teresa. Aquela do “levantou-se de um salto” reflecte bem o estado de alma e de nervos do pão nosso de cada dia.

  2. A personagem do seu texto deveria, avisadamente, prometer-se a si própria nunca mais prometer.
    Enredada nos “ses” e nos “mas” da Vida, esqueceu-se de um tempo em que, certamente, já foi Feliz.
    Detesto as “estórias” com uma Moral subliminar!
    Aprecio quem, em tempo útil, e Vivendo, soube repartir o pouco do seu pecúlio e parcos recursos económicos pelos gastos úteis e pelos fúteis.
    Sim, também vivemos de “futilidades necessárias”, seja o cabeleireiro em salão “in”, seja abola” em local privilegiado ou seja lá o que fôr.
    Mas, na hora do “ó tio-ó-tio” nada de ressabiamentos nem de consciências pesadas.
    Porque a Vida continua e, quem sabe, a carruagem de primeira com destino auspicioso pára numa estação próxima de nós.

  3. Nem sempre o diabo está atrás da porta.
    Há que acreditar que amanhã será aquele dia em que a oportunidade esperada, acontece!
    E que o esforço não foi em vão!
    Cumprimentos.

    ª) não esquecer de dar comer ao gato!

  4. Texto maravilhoso, Teresa. Grande verdade. E sabes que isto também acontece com certos homens?… E alguns, licenciados…
    Bj

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