Outros tempos, outros costumes


Pedro Correia,

Em Dezembro de 1962, Salazar chamou o seu ministro do Ultramar – tido como uma das figuras mais reformistas do regime – e comunicou-lhe a intenção de alterar a linha de rumo seguida desde Abril de 1961 que levara, entre outras inovações, à abolição da lei do indigenato nos territórios então oficialmente designados por províncias ultramarinas.

“Nós acabamos de mudar de política”, anunciou o presidente do Conselho.

“Então acaba de mudar de ministro”, limitou-se a retorquir o interlocutor, que se chamava Adriano Moreira. Dito e feito: abandonou o Executivo e nunca mais reassumiu um posto governativo.

Hoje é possível mudar de política mantendo inalterado o elenco ministerial. Mais do que possível, é moeda corrente. Não faltam exemplos para o provar.

Imagem: Adriano Moreira em 1961, durante uma visita oficial a África como ministro do Ultramar

4 comentários em “Outros tempos, outros costumes”

  1. Há um evidente colapso do pensamento, do planeamento e da ação a longo prazo, como a conhecemos.
    O enfraquecimento das estruturas sociais leva ao desenvolvimento da sociedade como “rede”.
    A “rede” substitui a “estrutura”.
    Z. Bauman é um tradutor destas realidades.
    Ora, mundo objetivo andava mais devagar na década de 60.
    A sensação de tudo dito, de tudo redigido, de todo o “qualia” descrito (veja a “crise da literatura”) é só indício de rutura.

    Tudo isto, faz com que o substantivo dê lugar ao adjetivo, “o que” se diz é substituído por “quem” diz. É o Passos, ou a Catarina a “dizer”. E não o programa, a linha, a maturação do pensamento desfeita em palavras coerentes e concordantes.
    Por outro lado, o liberalismo aparece a “estatizar” e o socialismo a apresentar uma aventura que ninguém sabe o que é. A esquerda “libertária” (o Livre) surge como novidade numa terra que nada teve de libertário, esperando-se assim e tão só novidade. Dura pouco.

    A responsabilidade em resolver os dilemas gerados por circunstâncias voláteis e constantemente instáveis é jogada sobre os ombros dos indivíduos – dos quais se espera que sejam free-choosers e suportem plenamente as consequências de suas escolhas.
    A memória é inexistente.
    A participação pública (política) reduz-se em “salto para a frente no desconhecido” ou recuperar “o tempo perdido” da ilusão do desejo feito Direito.
    Algo é claro, já não é o Estado a fazer soberania.
    São as ligações possíveis, a “rede”.

    Ora, a “rede” pode ter os mesmos pontos de contacto…e fazer coisas diferentes, como numa empresa.
    É isto hoje. Não pode ser comparado ao ontem.

    1. Está muito bem desenvolvido o seu raciocínio. Porém existe uma falha de percepção. A rede anterior era uma intranet, dominadora, falsa e plena de palavras passe para fingir que nada se passava, e num momento foi quebrada; e hoje a rede é internet, com log in acessível, educada e pouco disposta a aceitar a escravidão e a decisão que emana de quem pensa que os circuitos de poder se devem manter segundo critérios obsoletos.
      Significa isto que a ilusão do tempo perdido faz parte do saudosismo do poder de quem nunca soube, e não sabe, o que significa isto. Implícito está nesta última afirmação que a ilusão do tempo perdido conduz a outra rede, a maior, a não perder mais tempo com ilusionistas.
      Digamos que o tempo mostra que as sementes de outros tempos, quando verdadeiras – como o é Adriano Moreira -, nunca perdem tempo a fazer o que o tempo realizará.
      E aqui estamos nós, os que queremos e cremos, para dar continuidade a esse tempo.

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