A tragédia na Ucrânia é enorme, infelizmente não se limita apenas aos passageiros de um avião. Não sei se será um dia possível saber exactamente o que se passou com este caso. Provavelmente os rebeldes receberam uns mísseis terra-ar, umas instruções básicas sobre como os utilizar, e pensaram estar a abater algum avião militar ucraniano. Isto não desculpa nada, mas é importante saber aquilo que se está de facto a passar, até porque os separatistas (ou as forças armadas ucranianas) não teriam, qualquer interesse em abater um avião de passageiros.
É uma tragédia, como escrevi, mas a pior é que vai ocorrendo directamente no terreno. Os ucranianos vão sendo usados pela Rússia e Europa num combate geoestratégico pela dominância política na região sem que alguém pense nas consequências que tal tem nas pessoas em si. Como em muitos outros conflitos do género, o monstro começa a querer pensar pela sua própria cabeça e a sair do controlo do dono. Penso ser esse o caso com os separatistas e Putin, que poderá ter cada vez menos controlo sobre eles. Do lado do governo ucraniano é possível que se mantenha unido para já, a ver vamos o que sucede no futuro.
Entretanto vamos esquecendo outras consequências enquanto a Europa sua num Verão morninho. Dentro de uns meses começará o frio, ligar-se-ão os aquecedores na Europa Central e ver-se-à que não vem calor nenhum. Não haverá gás. Nos países ricos comprar-se-à gás aos EUA. Nos outros morrerão pessoas. Na Ucrânia… bom, difícil pensar. E entretanto a Rússia irá ficando sem dinheiro e cada vez mais entranhada em si mesma.
Houve no passado quem avisasse para o risco de uma balcanização da Rússia. Putin e o dinheiro do petróleo e do gás natural conseguiram impedir esse efeito – até agora. Quando passam 100 anos do início da Guerra Mundial de 1914-1945, talvez não seja má ideia lembrar nos equívocos que a iniciaram ao fim de um longo período de paz.

Nos países ricos comprar-se-à gás aos EUA.
Creio que tal ainda não é possível, dado os terminais de gás dos EUA estarem preparados para o exportar (para transformar gás liquefeito em gás gasoso) mas não para o exportar (para liquefazer o gás).
Mas sem dúvida que isso é o que se perspetiva para o futuro a médio prazo.
De facto há ainda a questão logística a resolver o que impedirá essa solução para o próximo inverno, mas não creio que esteja muito longe. Isso e o avanço do fracking em alguns países europeus.
não creio que esteja muito longe
Reconverter os terminais de gás dos EUA para que eles o possam liquefazer é coisa para demorar da ordem de 5 anos.
E fazer fracking na Europa em quantidades significativas é coisa para 10 anos.
Estes investimentos demoram muitíssimo tempo.
Lamento Luís, defeito profissional. 5 anos não é para mim assim muito tempo nos projectos em que trabalho e que envolvei projectar e executar algo de raíz. Tem razão, 5 anos ainda é coisa em excesso para quem passe frio este ano.
Não é corrente, mas faz todo o sentido usar a terminologia ‘guerra mundial 1914-1945’. Uma guerra de longa duração (três décadas) entremeada por ilusórios períodos de paz e que só terminou verdadeiramente – por macabra ironia – com o início da idade atómica.
Mesmo durante o período que se convencionou chamar paz não faltaram guerras – incluindo algumas das mais devastadoras de que há memória. A guerra russo-polaca, a guerra civil russa, a guerra greco-turca, a guerra sino-japonesa, a guerra civil espanhola.
A ilusão de que haveria uma guerra que poria fim a todas as guerras ou que seria possível alcançar uma paz perpétua semelhante à do Jardim do Éden (sem serpente…) era corrente no início do século XX e não falta literatura da época a atestá-la. Uma ilusão perigosa, pois fez baixar a guarda quando se impunha toda a precaução, em sentido inverso. O primeiro passo para fazer prevalecer a paz é nunca perder a noção de que o conflito é intrínseco à natureza humana.
Verdade. Como se costuma dizer, só os mortos viram o fim da guerra (Santayana?).
A hipótese de “acidente” – ou seja, que os separatistas russos usaram mísseis inadvertidamente contra um avião a 10 Km de altitude, tem vários problemas.
1º) Mesmo em dias de céu limpo (não era), um avião a essa altitude é um minúsculo ponto não visível.
2º) Um míssil terra-ar daqueles não se traz no ombro. Será algo sofisticado que requer base estática e coordenadas.
3º) Os separatistas não teriam autonomia ou estupidez para atacarem qualquer avião, podendo ser até um avião russo. Se entraram em contacto com os russos, eles poderiam esclarecer de que avião se tratava.
Portanto, pelo lado separatista, não vejo como se exclui uma ajuda russa directa.
Ora Putin dar ordens para abater um avião civil, faz tanto sentido quanto dar um tiro na cabeça.
Pelo lado ucraniano, já não é a primeira vez que houve aviões civis abatidos por assumida inoperância: rlines_Flight_1812
https://en.wikipedia.org/wiki/Siberia_Ai
De qualquer forma, ficará para curiosidade macabra inexplicável, o acidente ter vitimado o mesmo modelo de avião Boeing 777-200 ER, um avião com as cores da mesma companhia aérea, a Malaysia Airlines, que tinha desaparecido na altura em que a Crimeia realizava o referendo independentista.
Para já prefiro deixar de lado as coincidências. São raras e esquisitas e os espiões podem ser treinados para não acreditarem nelas mas eu, como cientista/engenheiro, sei que elas podem suceder.
Putin: concordo consigo. Teria demasiado a perder em dar ordens para que o avião fosse abatido.
Quanto aos erros, os mesmos poderiam suceder dos dois lados ucranianos. A incompetência não está limitada a um lado. Um sistema de mísseis destes terá radares que indicarão que há um avião a determinada altitude e a voar a determinada velocidade. Militares competentes saberiam identificar o avião. Militares incompetentes (ucranianos do estado) ou civis em armas (ucranianos russos separatistas) poderiam perfeitamente pensar que seria do inimigo. Ainda assim a lógica indica que seria mais fácil ser incompetência do lado separatista.
Mas parece-me que concordamos no resto: ninguém seria maluco o suficiente para intencionalmente abater o avião.
Acho que concordamos em quase tudo, excepto que me pareceria injustificado os separatistas atacarem um avião que poderia ser militar russo – certamente que eles não quereriam cometer esse erro, mais até do que se fosse civil.
Sobre as coincidências, convém não esquecer que a Ciência não é mais do que a racionalização delas, sob a forma de leis.
Depois é uma questão de probabilidades, e a probabilidade de se registarem simultaneamente um certo número de coincidências começa a ser pequena. Mas tem toda a razão, tanto podem ser vistas como eventos ligados ou separados – é só uma questão de aceitar que probabilidades abaixo de 0.001% não deixam de poder ocorrer – não há propriamente limite objectivo que diga que é ou não é coincidência – é apenas matéria de opinião.
Mas não existe o gasoduto do Báltico?
Suponho que se esteja a referir ao Nord-Stream. Existe esse e existem outros que não passam pela Ucrânia, mas não seria possível escoar pelos outros gasodutos mais volume que a capacidade deles. Aquilo que eu tenho lido dá-me a entender que os outros gasodutos não são capazes de compensar uma eventual quebra dos fornecimentos através da Ucrânia. Claro, posso estar errado, mas aqui há uns 4 anos também foi isso que se viu.