Ou não sabe ou sabe e cala


Pedro Correia,

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Joacine Katar Moreira, deputada portuguesa sem inscrição partidária natural da Guiné-Bissau, está preocupada com o seu país natal.

Nada mais compreensível.

O balanço de 45 anos de independência é calamitoso.

Golpes de estado, presidentes assassinados, líderes militares abatidos em ajustes de contas, uma dilacerante guerra civil.

A Guiné-Bissau figura hoje no topo das listas de várias organizações internacionais pelos piores motivos. Desde logo pela permanente ameaça às liberdades políticas e civis no seu território.

Segundo a Liga Guineense dos Direitos Humanos, o sistema nacional de saúde do país está doente. Por incúria, rapina, corrupção. Os doentes são forçados a comprar até fios de sutura.

Faltam hospitais, escolas, tribunais. As aulas são interrompidas a qualquer momento, o sistema judicial está minado por práticas corruptas.

Segundo a Transparência Internacional, ocupa o 168.º lugar entre 176 nações no índice mundial de percepções de corrupção.

Figura entre os 20 países mais pobres do mundo, com um PIB per capita de apenas 646 euros anuais. Cerca de 70% da população vive abaixo do limiar da pobreza.

As crianças, em diversas zonas do país, estão sujeitas à mendicidade forçada, a castigos físicos e a abusos sexuais.

A excisão genital continua a fazer parte do quotidiano.

Esperança de vida à nascença, para as mulheres: apenas 50,6 anos. Para os homens, ainda pior: 48,6 anos.

Há quem não hesite em usar a expressão “estado falhado” , referindo-se à Guiné-Bissau. O Nobel da Paz José Ramos-Horta, por exemplo.

Na imprensa de referência, a ex-colónia portuguesa é hoje mencionada como o “primeiro narco-estado” do planeta. Onde quem manda são os barões internacionais da droga.

 

Mas a preocupação da senhora deputada, guineense de nascimento, não se centra em nada disto: a prioridade dela é que algumas obras de arte (não especificadas) oriundas da Guiné-Bissau estejam em museus ou outras instituições públicas de Portugal.

Eu esperaria dela que abordasse sem temor os factos chocantes que menciono nos parágrafos iniciais. Denunciá-los, torná-los públicos, partilhar com todos os portugueses a imensa dor do comum cidadão guineense. Afinal, com uma chocante indiferença pelos problemas concretos da Guiné-Bissau, a deputada Katar Moreira prefere exigir a criação em Portugal de uma «comissão multidisciplinar composta por museólogos, curadores, investigadores científicos e activistas anti-racistas» com a missão de «descolonizar a cultura».

Demonstrando assim até que ponto está divorciada da situação real do seu país de origem.

Ou não sabe, o que é incompreensível. Ou sabe e cala, o que é intolerável.

48 comentários em “Ou não sabe ou sabe e cala”

  1. Dir-se-ia que a senhora procura assegurar o seu futuro como deputada da (desta) nação. Ela parece até ter afirmado com exaltação, muito recentemente, ter descoberto que nasceu para o ser. Teve enfim a sua epifania. Ou estamos perante um messias no feminino, uma missionária disposta a um heróico martírio, espalhando incansável a Verdade naquele antro (o parlamento) de selvagens machistas, homofóbicos, xenófobos, racistas, colonizadores e neo-liberais, ou estamos apenas perante alguém que tendo descoberto um belíssimo emprego vai muito naturalmente lutar por mantê-lo.

    Ora esse futuro, essa missão, esse emprego, parecem passar por erguer-se em defesa de questões ditas fracturantes. É, digamos, o seu (dela) mercado e há que assegurar a clientela. E a missão. Ou o emprego.

    Desgraçadamente povos africanos em absoluta miséria, condenando a mulher à mais repugnante submissão, guiados por hábitos puramente tribais e guerreando-se interminavelmente entre si, dissipando uma e outra e outra vez ajuda internacional, que sempre reclamam de insuficiente, e colocando-se sistematicamente nas mãos de gente (negra, não é de ignorar) de insaciável venalidade e descarado nepotismo, não são questão fracturante. Não constituirão tema que dê especial robustez a uma carreira parlamentar ainda incipiente. A menos, claro, que surjam em frágeis embarcações, nas nossas costas, reclamando asilo. É que então passam a potencial mercado. Mas isso ainda não chega, isso não é negócio com retorno imediato e uma legislatura é coisa breve.

    O que parece que dá tal robustez, entre outras peculiares questões, é olhar e vergastar inflamadamente acções de há centenas de anos pelos olhos de hoje. E achar isso muito bem. Os que assim pensam já valem, pelo menos, um representante no parlamento (valem mais do que um, como se sabe).

    A senhora conhece a sua audiência. O seu mercado. E sabe bem o que está a fazer e porquê.

    Costa

  2. A Joacine está-se nas tintas para a Guiné Bissau porque tal não aumentaria o seu lucro social-político dentro da sua cultura racial-marxista que está desenhada para criticar a Civilização Ocidental em qualquer circunstância.

    lucklucky

  3. Talvez seja o texto mais profundo escrito sobre Katar Moreira. Eu não penso que o facto de ser oriunda da Guiné-Bissau (e provavelmente de também ter a nacionalidade guineense) a obrigaria a ficar centrada nos assuntos daquele país, ou dos assuntos daquela região africana. Afirmar isso será um pouco como referir que um daqueles lusodescendentes que singram na política americana deveria estar centrado nas questões portuguesas, o que não costuma acontecer, como bem sabemos. Mais, se ela se centrasse nas questões da G-B muitos viriam criticá-la por ser deputada portuguesa e estar a olhar para o “seu país”.

    Mas, mesmo assim, o facto da situação na GB ser aquela que descreves, o facto de haver um conjunto de instrumentos institucionais bilaterais e multilaterais de ajuda pública ao desenvolvimento (CPLP, UE, etc.) e da deputada nestes meses todos não ter aludido, uma vez que fosse, a isso, mostra bem a estreiteza da agenda – radicalizada e um pouco desequilibrada, até – que a move. Mas, acima de tudo, a incultura.

    O que é interessante é ver alguma esquerda intelectual, académica, sempre com prosápias cosmopolitas perseguir neste, de facto, paroquialismo.

    1. A insensibilidade social da senhora deputada, em sede de debate orçamental, revelou-se chocante.

      Quando se esperaria dela uma intervenção firme junto do Governo para o reforço das verbas destinadas à assistência às regiões mais deprimidas e às populações mais carenciadas do continente africano – nomeadamente no país onde ela própria nasceu, infelizmente um dos mais miseráveis do mundo – concedeu afinal toda a prioridade a uma questão que não existe, acerca de algo que ninguém na África lusófona reclama, sobre um putativo “património cultural” que nem ela sabe indicar qual é.

      Qualquer dos amigos lisboetas da senhora, pertencentes à tal nata (branquinha…) cá do burgo, seria capaz de uma iniciativa semelhante, do alto do pedantismo e da soberba que os caracteriza.
      Mas esses têm pelo menos a desculpa de nunca terem posto um pé em África.

      1. Pois. Tendo passado anos, e bastantes, qu’isto vai para velho, a estudar “cooperação” e a trabalhar em “cooperação” (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) e ainda mais anos com esse labor também em casa, compreenderás que recebi (senti) este teu texto com particular ênfase. Insisto no que acima disse, o facto de ser africana não a obriga a pensar nisto. Mas é muito elucidativo que nada disto lhe interesse. E aos intelectuais de “esquerda” (que encheram as redes sociais com apelos à radicalização da “causa”). E a única coisa que nos chamarão (eles, pois Katar Moreira reduz-nos logo a “extrema-direitistas, fascistas, racistas”) é lusotropicalistas. É um ambiente patético, esta Lisboa.

        1. Muitas das arrogantes luminárias que medram nestas capelinhas lisboetas são dum paroquialismo inultrapassável. Gente que jamais zarpou daqui e que se limitou gerir carreira e vidinha entre repartições do Paço e uns botecos do eixo Chiado-Príncipe Real perora sobre o mundo que não conhece a partir do buraco da fechadura ideológica.

  4. O Pedro Correia utiliza neste post o argumento rasca que os partidos de direita (PSD e CDS) costumam utilizar quando rejeitam uma qualquer proposta mas não têm argumentos genuínos contra ela: para que havemos de discutir isso, quando há problemas muitíssimo mais importantes para resolver? Não se debate a liberalização do aborto quando o país tem um défice enorme, não se permite o casamento homossexual quando a corrupção grassa, não se despenaliza a eutanásia quando a saúde está num caos, não se retorna obras de arte a África quando há muita fome nesse continente, etc etc etc. É sempre a mesma rasquice de argumentação de quem nada mais tem para argumentar.

  5. A Joacine nem o caminho para a Guiné já deve saber.
    De qualquer modo, ela é deputada de Portugal, eleita por portugueses, portanto não representa a Guiné nem os guineenses.
    Essa proposta do património é apenas e só mais um acerto de contas com o passado, uma necessidade de reescrever a História. Como sabemos, isso dá sempre bom resultado.

    1. Sendo deputada de Portugal, eleita por portugueses, deveria reclamar a restituição imediata do património cultural pilhado pelos franceses, durante as invasões napoleónicas, de norte a sul do País. E também do património que nos foi esbulhado e jamais restituído pelos espanhóis, igualmente em sucessivas invasões.

      1. Eles que são brancos que se entendam.
        É tudo uma questão de revanchismo, de dívida histórica, de retribuição, ou de culpa. O que as Joacines querem é que peçamos perdão, e compramos a penitência.
        Maldita a hora em fomos cristianizar África.

  6. A proposta de Joacine referia-se ao país de onda ela é cidadã e deputada. A devolução, a ser feita, seria feita por Portugal.

    Não queria com certeza que um deputado português fosse assumir culpa ou propor soluções para o estado das coisas na Guiné Bissau.

    Há outra coisa que me custa a compreender:
    Uma deputada sozinha aventa uma hipótese de ação. Desde esse momento até a ação se refletir numa lei aprovada pela AR ou pelo Governo, é evidente que há um grande caminho, que incluirá sempre um debate e a aprovação de muita gente.
    No entanto temos a nossa direita assumida a mandar a deputada para África e a direita envergonhada a procurar justificar o injustificável. Dir-se-ia que é um problema de má consciência. O então é mesmo racismo.

    1. “O então é mesmo racismo.”
      A mim parece-me que o discurso de Joacine só tem como efeito exacerbar o racismo. É ela que cava e aprofunda a dicotomia brancos versus pretos e até homem mulher. Não gosto do discurso dela, não sei se se pode chamar discurso de ódio mas, para quem a ouve, parece mesmo. Indispõe.

      1. Tem razão. Se cada um ficasse no seu lugarzinho e não viessem propor coisas para as assembleias dos países civilizados, não havia racismo.

      2. «A mim parece-me que o discurso de Joacine só tem como efeito exacerbar o racismo. É ela que cava e aprofunda a dicotomia brancos versus pretos e até homem mulher.»
        Ela só pode “exacerbar” o que existe mas que vem sendo minimizado, diminuído: é isso, caro “Anónimo”, o que afinal significa exacerbado…

        «Não gosto do discurso dela, não sei se se pode chamar discurso de ódio mas, para quem a ouve, parece mesmo.»
        Não, o discurso dela apenas visa, precisamente, o oposto do que V. descobre nele: apenas visa reclamar a aplicação do já legislado, entre nós, não só sobre o “discurso de ódio” mas essencialmente as “práticas de ódio”; sobre as abordagens brandas, anti-fracturantes, das questões do racismo e da misoginia; sobre a realidade das práticas racistas e misóginas.

        «Indispõe.»
        Ainda bem!

      3. Mas é esse o objectivo da Marxismo-racial. Cravar mais classes, neste caso as raciais para explorar. Por isso é que a Esquerda racial dos Jo e Antonio Vaz ataca os brancos por serem brancos.

        Por isso é a que a Joacine, o Livre e boa parte da Esquerda quer destruir as pontes entre raças. Pontes não são coisas positivas para quem vive da separação maniqueísta necessária ao Supremacismo Social.

        lucklucky

    2. Se for racismo é seu Jo. É você que vê cores.

      Foi a deputada que argumentou sobre o regresso “à origem” e “à terra”
      sabendo muito bem que já se perdeu na história como foi obtida.

      Se Portugal tivesse estado no território da Ucrânia no século XV e um deputado de origem ucraniana tivesse dito o mesmo a resposta de chofre não poderia ter sido a mesma?

      O facto de não existirem deputados de origem ucraniana em Portugal dado o número de imigrantes é um sinal de xenofobia anti branco? e Brasileiros?
      Uma eminência da esquerda até disse que os brasileiros deveriam voltar à sua terra…

      lucklucky

      1. “Foi a deputada que argumentou sobre o regresso “à origem” e “à terra”
        sabendo muito bem que já se perdeu na história como foi obtida.”

        Ora aí está um argumento para a discussão. Pena que o único argumento que a nossa direita conheça e aplique (incluindo a direita parlamentar) é o “vai pr’á tua terra”. Temos que os perdoar, não dão para mais.

        “Se Portugal tivesse estado no território da Ucrânia no século XV e um deputado de origem ucraniana tivesse dito o mesmo a resposta de chofre não poderia ter sido a mesma?”

        Sem sombra de dúvida que poderia, é até muito provável. E continuava a ser racismo. O que evidentemente não desculpa nenhum deles.

    3. Com certeza.
      É exactamente assim.
      Eu acrescentava ao alarido, não apenas por nascido na Guiné mas o ser mulher e preta.
      Nunca haveria tal alarido, se o acontecimento fosse com Assunção Cristas que nasceu em Angola.

  7. Que eu saiba, esta ideia de devolver a África obras culturais dela originárias não é, em Portugal, obra da deputada Joacine originária da Guiné, mas sim obra do partido Livre, o qual partido é na sua maioria composto por pessoas nascidas em Portugal e de raça branca.
    É portanto errado identificar a ideia com negros guineenses ou angolanos ou moçambicanos – trata-se de uma ideia partilhada por muitos brancos portugueses. A deputada Joacina apenas lhe dá voz na Assembleia.

  8. Ela está se borrifando para a Guiné-Bissau, quer é ser notícia.

    Infelizmente as televisões e os jornais estão a dar-lhe o tempo de antena que não devia ter (assim como ao outro do outro extremo…).

    Estão ambos nas “sete quintas”, Pedro.

  9. Este é o “post” em que o PC consegue finalmente entrar para o rol daquelas anedotas construídas a partir do mote de “Qual a diferença entre…” tendo como contraparte, o Ventura do Chega.
    A minha resposta imediata: se ambos adoram recorrer à ironia, ambos estão convencidos que ela é guineense!
    Mas lá está, essa “ironia” presente no discurso de ambos é apenas, hoje, o até novo discurso normal, a partir do exemplo do actual presidente dos EUA, o Trump: «Why don’t they go back and help fix the totally broken and crime infested places from which they came. Then come back and show us how it is done.»

  10. Há anos que vejo documentários suíços, alemães, etc sobre o modo como a economia da guiné se baseia no comercio de droga. Este é o problema.
    Que uma guinéence se naturalise portuguesa e venha pedir contas, no parlamento português, sobre bens guineenses que estariam no nosso país, já é confusão demais para a minha cabeça.
    Afinal o que quer a sra. deputada? que tudo o que é guineense volte à guiné? Admiro o seu patriotismo guineense. Mas não entendo o que faz uma patriota da ex-colonia portuguesa da Guiné na AR portuguesa?

  11. Excelente Texto !

    Quando voltam as lavouradas, quero voltar a rir dos textos desse patusco !!!!!!

    A.Vieira

  12. A Jaquina , e os seus paupérrimos números de circo, valerá ( valerão ) tanta publicidade ?
    Creio que não.

    JSP

  13. O grande problema da Guiné, é o facto de os DEPUTADOS nunca se entenderem dentro dos próprios partidos, até se matam e fazem feitiços uns contra os outros.

    Isto há 40 e tal anos.

    Lá em Bissau não se chama racismo, lá chama-se tribalismo.

    1. Tribalismo, feitiçaria, maus-tratos infantis, fome, subnutrição, mutilação genital feminina, a mais baixa esperança de vida em África…

      http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2009/4/21/Guine-Bissau-com-mais-baixa-esperanca-vida,1315dfc5-dbe7-4af4-a6ea-a3ea18a6d995.html

      Matéria inesgotável para que os deputados portugueses – atentos aos dramas dos países lusófonos, sobretudo quando lá nasceram – possam preocupar-se.

    1. Espero que a senhora deputada, agora escorraçada do partido, aproveite a onda para reclamar dos franceses e dos espanhóis o vasto património que nos pilharam, Maria Dulce.

  14. O mais chocante é que esta deputada, para além de não conhecer a realidade do seu país de origem, também não conhece a realidade do país que a acolheu. Fomos o primeiro país a abolir o comércio de escravos, abolimos a escravatura 60 anos antes do Brasil o fazer, o que é de ficar boquiaberto.
    Por isso, criar o rótulo de portugal racista é de todo injurioso para com o português.
    Sinceramente, ignoro mais depressa que me chamem fdp, do que racista.
    Que no passado criamos um problema social grave, com a criação dos bairros, tipo ghettos, nas grandes cidades, onde permitimos que ali se reunissem grupos de pessoas que nada fizeram, nem nós próprios, para impedir que se fechassem, também é verdade.
    Mas esses bairros de Lisboa também existem no Porto, com os mesmos problemas, mas com uma nuance… não são habitados quase exclusivamente por africanos. Não. São habitados por brancos, que como os africanos de Lisboa também se fecham no seu ghetto, na sua irmandade, também têm um pacto de nós contra todos, também não têm formação para se tornarem melhores pessoas, também preferem o crime ao trabalho e também recusam cumprir regras, ordens e respeito.
    O problema não é racial, é social, é de educação.

  15. Amor, ela não especificou, não mencionou a Guiné-Bissau… Faz toda a diferença, não é…

  16. Olha! Percebi agora que eu levo mais anos de vida em África (e não sou assim tão velho), do que esta Sra. que veio para Portugal aos 8 anos de idade (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joacine_Katar_Moreira). Se calhar, e apesar de todos os títulos da Sra., conheço a realidade africana, de África e não da “Amadora”, um pouco melhor que a dita.

    É caso para dizer: Ó Joacine, vai-te katar.

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