![otelo[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2021/22017755_z6uD6.jpeg)
«Gosto mais de conduzir do que ser conduzido. De forma geral, desde miúdo sempre tive vocação para líder»
Estratego do 25 de Abril, caudilho da esquerda mais radical durante o processo revolucionário de 1974-1975, Otelo Saraiva de Carvalho disponibilizou-se de imediato para responder a este questionário telefónico, dando algumas respostas surpreendentes. Prefere o azul ao vermelho, adora cantar New York, New York e a sua personagem de ficção favorita é James Bond.
Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?
Ver o comportamento da classe política portuguesa. Nós, capitães de Abril, depositávamos grandes esperanças nela para elevar o País a patamares de grande nível. Infelizmente, isso não aconteceu.
Gostaria de viver num hotel?
Só em viagem gosto de viver num hotel. De forma geral, o ambiente de hotel deixa de me agradar ao fim de uma ou duas semanas.
A sua bebida preferida?
Vinho tinto.
De onde?
Sempre alentejano. Tinto de Reguengos. E branco da Vidigueira.
Que número calça?
39, 40. Tenho o pé pequeno.
Que livro anda a ler?
Acabei de ler Um Militar na Política, do general Galvão de Melo.
Gostou?
O livro é interessante por fazer algumas revelações importantes sobre a experiência militar de Carlos Galvão de Melo, que ainda antes do início da Guerra Colonial escreveu a Salazar e ao ministro da Defesa, Santos Costa, alertando-os para a necessidade de se encontrarem soluções políticas para o problema africano. Mas Salazar nunca mostrou interesse nisso.
A sua personagem de ficção preferida?
James Bond.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Gosto mais de conduzir. De forma geral, desde miúdo sempre tive vocação para líder.
É bom transgredir os limites?
É bom, sim senhor!
Qual é o seu prato favorito?
Uma boa posta de peixe grelhado, com batatas cozidas. Cherne ou garoupa, de preferência.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
Não me vejo a cometer nenhum pecado capital – nem inveja, nem luxúria, nem gula, nem preguiça. Não me reconheço em nenhum deles. Sou um santo em potência.
A sua cor preferida?
Azul.
Sempre pensei que preferisse o vermelho…
O vermelho é demasiado ostentatório. Pode ter um sublinhado ideológico, e aí agrada-me. Mas para vestir prefiro o azul.
Qual é a peça de vestuário que prefere?
Pólo.
Costuma cantar no duche?
No duche e sem ser no duche. Costumo cantar. Ando sempre com qualquer canção na boca – desde o Summertime ao New York, New York, do Frank Sinatra. Ou uma canção do José Cid, do Paulo de Carvalho ou do Zeca Afonso.
E a música da sua vida?
Há uma que trauteio muitas vezes: I never promised you a rose garden.
Sugere algum alteração ao hino nacional?
É claro que a letra está desactualizada e podia ser modificada. Mas este hino está muito arreigado na população e é muito conhecido pelos portugueses.
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013].
Qual o seu maior sonho?
Ver concretizados os ideais que nos nortearam ao fazer o 25 de Abril. Uma grande parte deles ainda não foi alcançada.
E o maior pesadelo?
A III Guerra Mundial.
O que o irrita profundamente?
A mediocridade e a estupidez.
O que faria se fosse milionário?
Procurava contribuir, de todas as maneiras possíveis, para o aumento do bem-estar, da dignidade e da felicidade do povo português.
Uma mulher bonita na política?
Talvez a Ségolène Royal.
Acredita no paraíso?
Acredito no paraíso terreno, um lugar onde uma pessoa se sinta bem, com uma paisagem magnífica. Há locais assim no nosso país.
Tem um lema?
Antecipar-me sempre à mediocridade.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (3 de Novembro de 2007)

Tolo.
Otolo.
Com temperamentalidade, bem intencionada e romântica, com laivos de generosidade.
Embora imponderada e voluntarista.
Com lugar na história, no melhor que foi.
Diabolizado, em excesso – como diabolizou outros.
Faz lembrar aquele poema, de um ficcionista famoso: “Pela calada da noite, para fugir ao escrutínio democrático de eleições, com chaimites, um golpe militar, em nome da ditadura do proletariado, e do marxismo-leninismo, escrito em todas as paredes e desenhado em todas as fachadas”…
De facto, a santidade era um indulto, concedido na Idade Média, a quem o conseguisse comprar. Sobretudo, quando faltavam poucos anos.
Gostei da entrevista.
Otelo é um pouco enigmático, pelo menos, na minha opinião. Parece razoável, em certas situações (penso que se deveu muito a ele a nossa revolução não descambar). Noutras, parece cair em extremismos.
Nos anos 1990, quando dava aulas de português a alemães, em Hamburgo, conheci um médico (naquela altura, a caminho dos quarenta) grande fã de Otelo. Não sabia falar português e, nas aulas, revelava grandes dificuldades. Mas tinha estado em Portugal, durante o PREC (com 17 anos) e ficado fã de Otelo, depois de assistir a um comício com ele, mesmo sem perceber patavina de português. Vinte anos mais tarde, ainda recordava o evento com grande entusiasmo.
Otelo foi um grande Homem!
Felizmente já todo o mundo tem paz, pão, saúde e habitação. Tudo isto graças à revolução de Abril que produziu imensos cientistas. E também conferiu o direito de ter de se pagar uma dívida que deixou a malta sem pão, sem saúde sem habitação, sem emprego. Graças a Deus foi tudo feito com muita ciência. A malta precisava mesmo de educação.
Quando ele disse que os metia a todos no campo pequeno foi muito criticado.
Mas aos dias de hoje, é um visionário. Porque se ele tivesse feito o cerco sanitário no campo pequeno, tínhamos esta pandemia de politicos perfeitamente controlada.
Que violência, ó meu!
Otelo sempre fiel a si próprio.
Desnorteou-se. Perdeu o pé e deixou a tropa descambar. E com ela caiu a sua credibilidade como o tal lider que acha que sempre foi.
Vamos na garoupa, no cherne e no vinho tinto.
Gostei. Next!
Amochou.
E foi tratando da vidinha.
Aí nunca se desorientou.
Também, retornou, em tempos, a África.
Governando-se, em modo factotum
Pensão militar, não chegava.
Ele, oficial do quadro, eu miliciano, fomos contemporâneos na Guiné.
Operacional com valor, um desastre como político, manipulado por quem lhe puxou o lustro ao ego desde sempre exacerbado.
Como criador e patrono da Pide vermelha a que chamou Copcon, não tem perdão.
Carlos Arnaut
Esqueceu um dos maiores pecados: a vaidade (vanitas), bem patente na 1ª resposta.