Hoje é dia de lembrar o herói de Abril para toda a esquerda, e de palavreado inconsequente para a maior parte da chamada direita. As ideias que Otelo amassou para o país eram uma amálgama de guevarismos delirantes ao serviço de uma imensa vaidade, um alto grau de inconsciência e uma teimosa estupidez. Este aspecto, a estupidez, que o levava a asneirar com grande suficiência se inquirido fosse sobre o que fosse, não fará parte dos necrológios, como não fará a sua fria crueldade nem os assassinados pelas FP25, senão de forma enviesada. “Deus tenha misericórdia da sua alma”, disse o meu amigo João Távora. João é um católico fervoroso, e respeitador da convenção segundo a qual não se diz mal dos defuntos no dia do seu passamento. Eu não sou nem uma coisa nem, em se tratando de figuras históricas, a outra. Para me associar à contenção fora preciso que em algum momento este triste exemplar de homem tivesse mostrado alguma forma de arrependimento.
Há pouco tempo, saiu um livro que faz ver Otelo à luz que merece. Para quem viveu aquela época lembra factos soterrados e traz alguns novos; para quem não viveu a “gesta” do 25 de Abril e a primeira quinzena de anos que se lhe seguiu, desvenda o sinistro projecto, e as proezas criminosas, do herói que hoje figura nos ditirambos de quem tem banca na opinião oficial e oficiosa, e no comunicado da presidência da República, caracteristicamente inócuo – se um asteróide atingisse o Alentejo, causando milhares de mortos e feridos, Marcelo associar-se-ia às famílias na sua dor, indo proporcionar-lhes selfies para pôr nas salinhas de entrada, e felicitaria o SNS por ter adequados stocks de mercúrio-cromo.
Nada disto tem, para o futuro, mais importância do que a que têm as pequenas histórias. E Otelo só não se juntará à galeria dos Fuas Roupinho, Hermenegildo Capelo, ou Marcelino da Mata, porque nenhum destes, ou dos outros heróis portugueses, ficou conhecido pela sua vaidade nem por ser depositário de doutrinas dementes em nome das quais estivesse disposto a praticar crimes.
O que deve suscitar reflexão é o algodão em rama opinativo: não tanto o do dia de hoje, que se justifica pelo respeito aos costumes, mas o que se adivinha. Otelo foi condenado, num processo em que ficou abundantemente provada a sua responsabilidade num projecto terrorista que se traduziu por assassínios, assaltos e tropelias menores, num tempo em que as instituições democráticas já estavam a funcionar, e foi indultado e amnistiado muito antes do fim do cumprimento da pena.
As razões para o indulto e a amnistia que as escabiche quem tiver curiosidade de procurar nos porões da história recente. As decisões foram legais, e assentavam num desejo de “pacificação” por uma banda (isto é, a recuperação para o jogo democrático das correntes de extrema-esquerda), e prémio ao estratega do golpe militar por outro: devemos-te o regime, toma lá um perdão, e ficamos quites.
Bom negócio, sem dúvida, para quem o aprovou, o PS e o PCP, sob o patrocínio de Mário Soares. Ficou claro então, como já havia ficado antes, e viria a ficar depois, que a esquerda em Portugal, mesmo que amalgamá-la seja injusto (Mário Soares jamais se aliaria com o PCP para governar), defende os seus.
Não seria má ideia ter isso presente, começando por não pôr Otelo no altar do excesso do equilíbrio e da compreensão: o santo é de pau carunchoso, a igreja é a da esquerda, alguns dos clérigos que vão ao púlpito são terroristas que circulam com naturalidade no meio das pessoas e os fiéis de outras obediências são apenas tolerados: nós.

Morreu um supremacista social…Talvez vá ao funeral. DMI
https://www.youtube.com/watch?v=I9NifqJy
Otelo e Marcelo
Duas vias distintas para esbater sombrios complexos.
“ainda é cedo para a história o apreciar (a Otelo) com a devida distância”.
E a si Sr. Presidente Marcelo também a história o apreciará, e não será a sua omissão calculada do “Oscar” por agora, que no tempo certo impedirá avaliação feita de longe ao seu preenchido percurso.
Otelo foi um romântico. Exacerbou esse romantismo quando o convenceram que tinha feito uma revolução.
Na realidade Otelo fez uma passeata, que simplesmente demonstrou que o tal regime estava podre, desarticulado e que caiu por anafado. Não obstante os esforços de Caetano em o concertar.
Mas esta passeata teve consequências: abriu as portas a impreparados espertalhões que criaram um regime podre e anafado que conduziu à ruina a nação portuguesa e ao descalabro as nações africanas sobre as quais Portugal tinha responsabilidades.
Mais ainda, tal passeata ofereceu a oportunidade de Portugal, como gosta, poder ser submetido a mais uma ditadura, desta feita com controlo europeu, que engorda ainda mais os anafados que pretendem fazer crer que são governantes e parlamentares.
Que Deus seja brando com Otelo porque a historia não lhe é favorável.
Eu não tenho a certeza de que a aludida (pois ligada) dra. Isabel do Carmo tenha sido terrorista. Pois parece-me ter lido um recente cabeçalho de uma sua entrevista na qual a dra. confirmou ter fumado mas não inalado…
Parece que só transportou bombas mas não as colocou, um papel ancilar que diz o pior possível sobre o heteropatriarcado no seio do movimento terrorista.
..” Mário Soares jamais se aliaria com o PCP para governar).”
Caro Senhor
Relembro que Mário Soares foi o candidato, ridicularizado nos seus resultados eleitorais, a presidente da república escolhido por José Sócrates; Mário aliar-se-ia sempre, a quem fosse preciso, para ter o poder, se tal não fosse perigoso para o seu futuro.
Nasceu com ele o ADN do partido socialista; só que em 75 o PCP era mais poderoso que o PS, e Mário Soares teve que o combater para sobreviver.
Melhores cumprimentos
Vasco Silveira
Li, por aí
…Otelo é o cónego Melo da esquerda e extrema-esquerda. Sobre Melo alguém, a propósito das acções do MDLP, dizia: “Ele não teve nada a ver com os atentados, ele só benzia as bombas.”
Em Braga, fizeram-lhe estátua. Primeira peanha. Ainda vai a Venerável…