
Na pressa do metro, um indivíduo já com idade para ter boas maneiras cavalga, atropelando quem vê à frente, na ânsia de ser o primeiro a passar os torniquetes. De caminho, carimba uma senhora com uma violenta patada e mal ouve um protesto dela riposta em voz bem alta: «Se não fosse mulher, partia-lhe a cara.»
Não contava com o marido da senhora, que do lado de lá do torniquete o desafia: «Eu sou homem. Anda cá partir-me a cara.»
Não foi. Deixou-se estar. Até se diluir na multidão que desembarcou do metro seguinte. A pressa deu em vagar para este “herói” do subsolo, com cascos em lugar dos pés.

«recua para marrar»
O típico jovem liberal borra-botas que quando enfrentado por um senhor provavelmente com idade para ser seu pai se amedronta com medo de levar um par de galhetas no seu trombil juvenil mal educado.
O “Herói das Patadas”, que há segundos tinha a agilidade de um cavalo puro-sangue a fugir de um incêndio, subitamente transformou-se numa estátua de sal — ou talvez de banha, dada a consistência ética da criatura.
A multidão, que normalmente só se une para odiar o atraso da Linha Amarela, sentiu o cheiro a sangue (metafórico, infelizmente) e resolveu participar no debate civilizacional.
Uma Velhota (com um saco do Pingo Doce cheio de latas de atum, batendo-lhe no ombro): — “Ó senhor valentão, então agora a pressa deu em reumatismo? Vá lá, parta a cara ao senhor. Nós abrimos ala para o senhor passar, ó garanhão da linha amarela!”
Um Estudante (com auriculares e um sorriso sádico): — “Vou meter no YouTube! ‘O Domador de Torniquetes vs. A Realidade’. O gajo está tão pálido que se encostar à parede a gente perde-o de vista.”
O Marido: — “Anda cá, ó fura-vidas. Foste tão valente com a perna da minha mulher, agora parece que os cascos ganharam raízes? Estás à espera que o metro te venha buscar ao colo?”
O “Herói” (murmurando para os botões do casaco): — “Isto é um país de selvagens. Não se pode ter um desabafo que saltam logo todos… a senhora é que parecia uma barata tonta…”
A Multidão (em coro, quase coreografado): — “Porrada! Porrada! Porrada!
O “Herói”: — “Eu… já não me estou a sentir bem. Acho que é a tensão…”
O Marido: — “Anda cá então que eu dou-te um Ben-u-ron para te baixar a tensão, ouviste ó minha besta?”
O nosso herói, com a espinha dorsal transformada em gelatina de morango, deixou-se ficar. Ali, encostado a um cartaz publicitário sobre férias nas Maldivas, a aguardar que o mundo se esquecesse que ele existia.
Este jovem não merece água que bebe. É de certeza algum menino do papa que se estreou nos bordeis finos de Lisboa e pensa que pode tratar mal as mulheres. Uma ameaça não pode ser nunca desconsiderada num país de violência doméstica e de alcoólicos.
O que se passou numa exploração de suínos em Santarém merecia aqui ser falado. Pois, enquanto Português fico com vergonha de tanta maldade e indignidade para com os animais como mostrou uma reportagem de televisão a poucos dias. Isto, sim era matéria digna de debate, pois num país evoluído isto não só não pode acontecer como também não podemos ser indiferentes ao sofrimento animal. Do Presidente da Republica, do primeiro ministro nem uma palavra, mas para recebem e ouvirem o Rui Costa, o Varandas e o Villas-Boas para conversas de café é logo a correr. A gravidade é grande com a saúde pública e os maus tratos aos animais e tudo o que está em causa… mas não se dá importância nenhuma. O problema de Portugal são mesmo os Portugueses.
Esse jovem do metro diz muito sobre a juventude de hoje que não respeita nada nem ninguém tirando da equação é claro algumas e poucas exceções.
O agá entrou em greve?
“Esta turma está violenta demais”, como canta o Gabriel.
É a turma do metro, dos blogs, do futebol, da política nacional e internacional, da religião, das estradas, das gasolinas, dos gases, e de tudo o mais de que se puder fazer turmas, muitas só de um indivíduo.
Deve estar na hora de dar uma oportunidade ao cachimbo da paz, se a lei não estiver contra a paz e a paz contra a lei.
Gostava de conseguir entender o que está a inebriar o espírito e a tirar o foco da razão ao ser humano?
Será algo que anda no ar? Será intencionalmente provocado por alguém? Estaremos a ser manietados sem saber.
Só dúvidas ainda sem resposta.
Boa sorte e fortuna a todos.
Talvez se deva às poeiras de Marrocos que infestam o ar.
Elas andam aí outra vez.
Se é coisa de “inebriar o espírito” eu ia mais para os fumos de Marrocos do que para as poeiras.