Diálogo num táxi:
– Está muito calor e os vidros estão todos fechados. Não se importa que abra este?
– Olhe que as correntes d’ar fazem mal. Podem até mandar uma pessoa para o hospital. Um resfriado, uma pontada, uma pneumonia…
– Deixe lá entrar um pouco de ar para refrescar isto. Não se aguenta.
– Abra lá, abra lá! Mas depois eu é que me constipo. E quando sair não se esqueça de fechar o vidrinho outra vez. Detesto correntes d’ar.

Um gajo ir num táxi a cheirar a bacalhau e a raposinhos não é nada agradável.
Mitos em que muita gente acredita.
(Continuação…)
Finalmente, o táxi imobiliza-se. O cliente, que passou os últimos vinte minutos a ser bombardeado com um inventário detalhado de maleitas, desde a “pontada fatal” até à “pneumonia fulminante por via de uma frincha de ar”, respira fundo. Ou tenta, já que o ar no habitáculo tem o aroma de um balneário de meias usadas.
O cliente olha para o taxista com a ternura de quem acaba de sobreviver a um seminário sobre tanatologia num bunker sem ventilação. Tira a carteira, mas antes de pagar, fixa o homem, que ainda está a recompor a gola da camisa como se tivesse acabado de atravessar a Sibéria em tronco nu.
— “Pronto, senhor doutor. Chegámos. Sobrevivi. É um milagre estatístico, eu sei. Olhe para mim: apanhei dois centímetros de brisa e ainda não caí morto com um edema pulmonar fulminante. É o que dá ser jovem e inconsciente, não é?”
O cliente paga, mas deixa as moedas cair no banco com um ruído seco, evitando qualquer contacto epidérmico que possa desencadear uma septicemia imaginária no condutor.
— “Sabe o que é que eu acho? O senhor não devia conduzir um táxi. O senhor devia estar guardado numa redoma de vidro, a ser alimentado a canja de galinha e Ben-u-ron via intravenosa. É que este seu conceito de ‘corrente d’ar’ é fascinante… é a primeira vez que vejo alguém tratar a renovação do oxigénio como se fosse uma tentativa de homicídio qualificado.”
Abre a porta. O ar da rua entra, o taxista encolhe-se como se tivesse sido atingido por um morteiro. O cliente sorri, com aquele sarcasmo que corta mais do que o vento norte.
— “Não se preocupe, vou fechar o ‘vidrinho’. Não vá entrar uma partícula de pólen desgarrada e o senhor sofra um choque anafilático antes de chegar à próxima praça.”
Bate com a porta. Com força. Daquela que faz ressoar os ouvidos e, com sorte, provoca uma enxaqueca crónica ao hipocondríaco.
— “As melhoras, sim? E cuidado com a maçaneta, ouvi dizer que o metal frio causa reumatismo instantâneo nas falanges.”
E ambos cheios de razão. Taxista e passageiro.

É muito perigoso: ar a mais e ar a menos, duas situações letais.
Uns morrem por falta de ar, outros é um ar que lhes dá.
Feliz fim-de-semana
Prefiro andar de BUS do que andar com os fogareiros.