Os tugas (34)


Pedro Correia,

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Viagem de comboio Faro-Lisboa, no Alfa pendular. Princípio da tarde: quatro amigos do Entroncamento, sexagenários já reformados, foram almoçar à capital do Algarve e regressam à terra.

Durante três horas, só falam de comida. E em voz bem alta: toda a gente na carruagem os escuta.

Alguns excertos:

A – Aqueles carapauzinhos e aquele arrozinho estavam de estalo!
B – E o porco preto também.
C – Só fiquei sem saber se era porco ou era porca.

(todos riem)


D – Valeu a pena virmos almoçar a Faro. Agora havemos de ir a Beja. Um gajo come lá, perto da estação, e volta. Uma açorda à alentejana, um ensopado de borrego…
A – E aviamos antes um pratinho de caracóis. Com orégãos, à alentejana.
C – Tem é de ser à sombra, para não derretermos.

(todos riem)


B – Eh, pá! Quando é que vamos almoçar à Farmácia? Dizem que é o melhor restaurante do País. E que tem um vinho branco de Amarante que é um espectáculo.

C – Onde é?
B – Em Matosinhos. O gordo do Preço Certo diz que é muito bom.
D – Ele deve ir lá muita vez!

(todos riem)


A – Então sempre se faz a sardinhada na terça-feira?
C – Claro que sim. Vamos reunir o grupo…
A – Vão o Mesquita, o Vasco Pedreiro, o Zé Maria Lavrador. Posso convidar o meu amigo Trindade e o meu compadre Canaca.
D – Eu levo vinho. Tenho lá vinho bom bom bom. Cinco estrelas.
B – Batatinha nova também é preciso levar?
C – Eu levo o café.
A – Eu combino aqui com o Pratas e vamos comprar as sardinhas ao Pingo Doce. Tenho de saber quantas são. Não convém comprar a mais, para não se estragarem.
B – Cinco a cada um chegam.
C – Eu como cinco ou seis, não mais.
A – Então compram-se cinquenta sardinhas: pode aparecer mais um voluntário… E cinco quilos de batatas.
B – Eh, pá! É melhor alugares uma camioneta.

(todos riem)


A – E para que horas se marca aquilo?
D – A sardinha é muito indigesta. É melhor ser ao meio-dia.
C – É conveniente arranjar tomate também?
A – Vou à praça comprar uma broazinha.
B – Ó Rodrigues, e um Serra da Estrela?
A – Faz-se uma sopinha também, se for preciso.
D – Para a sardinha não se leva cerveja, só vinho. Disso trato eu. Tenho lá do bom! Tira-se a rolha e parece champanhe.
C – Eu levo uns pastelinhos de bacalhau.
B – Isso pede cerveja. Eu levo umas cervejinhas.
A – A gente depois lava a loiça. Tenho lá um avental…
B – Tens lá um avental?! És algum maricão?

(todos riem)

40 comentários em “Os tugas (34)”

  1. Perante uma cena dessas, o outro comentava: “Sexagenários… já reformados…?! Continuem nessa vida que se f***… (Riam todos: ah ah ah!…)

  2. Terça-feira, 12h15. Entroncamento.

    O sol bate sem piedade na chapa ondulada do anexo do Rodrigues (o nosso “A”). Dez homens, cujas idades somadas dariam para recuar até à Batalha de Aljubarrota, reúnem-se em torno de uma mesa de plástico da Sagres.

    A atmosfera cheira a chouriço, fumo de pinho molhado e loção Brut.

    Rodrigues está à frente da grelha. Não veste o avental que prometera no comboio. A sua masculinidade não aguentaria outra piada sobre ser “maricão”. Em vez disso, tem o pólo manchado de carvão e azeite, uma medalha de honra do macho ibérico.

    B: (A olhar com nojo para um alguidar verde) «Ó Rodrigues, estas batatas estão mais duras que os calcanhares da minha sogra. Isto ferveu quanto tempo? Dois minutos?»

    A: «Ferveu o tempo que tinha de ferver! A culpa é da batata, que não é nova coisíssima nenhuma. Enganaram-me na praça.»

    Zé Maria Lavrador: (Que parece uma enfardadeira, já vai na sétima sardinha, obliterando a quota de “cinco a cada um”) «A batata não interessa. O que interessa é o peixe. Passa para cá mais duas que estas eram anãs.»

    D levanta-se, heroico. Vai à bagageira de um carro que esteve ao sol desde as nove da manhã e traz um garrafão de cinco litros, sem rótulo, envolto num saco do Continente. O tal vinho “bom bom bom”, o famoso néctar que “parece champanhe”.

    D tira a rolha de cortiça sebosa. Não há nenhum estouro de champanhe. Apenas um sibilar triste, e um cheiro a vinagre balsâmico e acetona. D enche os copos de plástico.

    C: «E então, a sardinha é ou não indigesta, como a gente dizia no comboio?»

    D: (A arrotar com a potência de um urso pardo que acabou de comer um campista) «Indigesta é a tua tia. A sardinha quer é “champanhe” ora deita aí…»

    Estão felizes. O pico da sua existência é este loop infinito: comer, enquanto planeiam a próxima vez que vão comer.

    E assim ficam. Sobreviventes de mais uma batalha épica contra o próprio pâncreas. Portugal, na sua forma mais pura e aterosclerótica.

    1. PIGS atualmente são a França e o Reino Unido, países que estouram todo o dinheiro em mulheres e vinho e têm o Estado crivado de dívidas. Os juros da dívida deles são cada vez mais altos mas não há maneira de aprenderem e terem juízo.

  3. Também alinho nessa equipa.
    Para mim cinco sardinhas assadas inteiras, duas bolas de pão de mistura, uma batata pequena ou média, um alvarinho fresquinho ou um tinto alentejano, e tá feito. Não me perturbem que fico bem.
    (obs) importante. Único tempero permitido, sal.

  4. antes isto do que aquilo que assisti outro dia – 2 jovens adolescentes num sítio publico com uma delas a dizer à outra que só tinha namorado com um dado rapaz por ter pena dele
    Pedro Cunha

    1. Só tive um namorado na minha vida,- dois anos, – os amassos com a Suzi não contam e acabei com ele por ele não ter pena de mim.
      Vai chamar girafa a outra, estúpido.

  5. Cinco sardinhas!!? A sério? Na minha última sardinhada comi 16 e não sou de enfarta-brutos. Desde que as sardinhas sejam maneirinho, frescas e bem assassinas, venham elas, com pão saloio e salada mista. Deixo as batatas para os envergonhados.
    Cheínhas de Ómega 3, só podem fazer bem.

    1. Vá; quem diz cinco diz seis ou sete. Dezasseis é que não porque senão depois da bela sesta, os nervos de mais um quilo adicionado o que vai obrigar a uma noite agitada a fim de voltar aos 48
      Boas e felizes sardinhadas.

    2. Bem assassinas?! Talvez assadinhas e fugiu-lhe a boquinha para a verdade…

      É o que dá o peso na consciência, ou talvez antes no estômago, que isso de 16 sardinhas seguidas, mesmo sem batatas, nem que fossem petingas quanto mais maneirinho.

      E pensa que engana quem com a desculpa do Ómega 3, prezada Maria Dulce? O Ómega 3 de 16 sardinhas maneirinho dava para encher um balde; ora, ingerir um balde mesmo de uma coisa excelente é sempre, pelo menos, quatro quintos de balde em excesso: não pode fazer bem a nada.

      Eu com cinco sardinhas (gosto delas maneirinho-XL) fico arrumada. Ah, e têm que ser acompanhadas de verde tinto, sardinha sem verde tinto para mim não existe.

      1. Assassinas é muito bom!
        As sardinhas querem-se pequenas. Há quem diga que as mulheres também, mas isso não tem sequer trambelhas. Experimente, amiga Zebra. Têm outro sabor. Quem sabe uma sardinha maneirinho-xl não equivale a três maneirinhas? Hum? Pense nisso.
        Depois há que caminhar pela Costa da Caparica até à hora do lanche!

        1. As mais saborosas sardinhas que comi na minha vida eram petingo-maneirinhas, tanto que vinham logo na dose (individual) 10 (dez) e marchavam sem qualquer dificuldade, caudinha e cabecinha incluídas. Falhou só o verde tinto, porque foi isto em Santoña, terrinha pesqueira muito recomendável no norte de Espanha – mas as sardinhas eram tão frescas, tão boas, que sempre abri excepção e as comi a seco.
          Já da “nossa” (marroquina…) sardinha, muito menos saborosa, prefiro-a mais avantajada, sobretudo de lombos altos onde enfiar o dente; assim obesa fica logo mais enjoativa, daí o verde tinto para “limpar” a boca…

          Falar sobre mulheres e sardinhas traz-me sempre à memória uma bela amiga de juventude, que era grande, alta e espadaúda, de “encher o olho” como diziam (entre outras piores labreguices) os labregos de então (e suponho que continuem a dizer alguns de hoje).
          E quando alguém emitia o parecer de que a mulher se queria pequenina como a sardinha, logo ela ripostava: “e alongada, como a pescada”. Era risota certa.

          Já atravessou o Estige, a minha amiga pescada…

  6. Obviamente que nunca fui, nem nunca irei, de propósito no Alfa Pendular almoçar a Faro.
    O que posso afirmar é que no Algarve (Faro/Olhão e arredores) se come muito bem e muito mais barato do que em Lisboa. Isto no Inverno/Outono, já que no Verão não me apanham por lá.
    Aí vão as minhas sugestões em Faro, sobretudo para quem gosta de comer peixe fresco e a preços que não encontro em Lisboa:
    A Taberna do Modesto
    Adega do Amável
    Volta ao Peixe
    O Chalavar

  7. Este “Os tugas” leva o 1º Prémio (e se vier outro que igual mereça, pois vão ‘ex aequo’).

    Combina muito bem o ácido com o doce, e não há sabor mais difícil de equilibrar do que o agri-doce, como qualquer aspirante a cozinheiro sabe.

    1. Com este texto encerro a série que se prolongou por dois meses.
      Outras virão, na hipótese – muito provável – de o DELITO transitar para outro endereço antes do fim deste mês, prosseguindo o rumo iniciado em Janeiro de 2009.

      1. Leva então o 1º Prémio, e não se fala mais nisso.

        Agora é que me deu uma bela esperança, sempre “vamos” então migrar?! Boa! Eu não me atrevia a perguntar, não queria ser inconveniente e sempre adiava alguma má notícia… Estupendo. Excelente. Baril.

  8. Estou, incondicionalmente, com este grupo de jovens!

    Nós, os Tugas, adoramos qualquer pretexto que sirva para nos pôr a comer, não há como negar tão flagrante evidência.
    Das comidas e “buídas” mencionadas, só não gosto de sardinhas, nem de “jola”. Mas, em compensação, adoro, por exemplo, chicharros escalados, grelhados e temperados com azeite e vinagre… E também gosto de vinho, tanto faz que seja branco, como tinto… E, já agora, não gostando de sardinhas, adoro, contudo, o pão que se põe por baixo delas e que costuma ficar empapado em azeite e no próprio molho das ditas…

      1. Fazemos, então, parte de uma minoria Tuga, mas não silenciosa, cujo “desapego por sardinhas”, faz de nós uma espécie de “desafinados”…

        Paciência, Pedro… Não conseguimos estabelecer um “vínculo afectivo” com sardinhas, podemos ser tidos como “desafinados”, mas no nosso peito também bate um coração…

        (Alusão à maravilhosa canção “Desafinado”, João Gilberto).

        1. Confesso ter uma simpatia muito especial por pessoas que não celebram sardinhadas como elemento da identidade nacional, Paula.
          “Desafinado” parece-me tema apropriadíssimo neste contexto.

  9. Que façam muitas viagens destas, e almoçaradas das boas… Saúde mental é isto: ter com quem se partilhar o normal da vida.
    Tenho pena que seja o último postal da série.

    1. “Saúde mental é isto: ter com quem se partilhar o normal da vida.”

      Grande verdade, Marta. Subscrevo inteiramente.

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