Os tugas (28)


Pedro Correia,

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«Uma pessoa sai em mangas de camisa cá para fora, para fumar, e por vezes apanha uma gripezinha.»

“Popular” preocupado com a saúde, no Telejornal da RTP

10 comentários em “Os tugas (28)”

  1. Repórter: Boa noite. Estamos aqui em direto, na rua, onde o frio aperta. Encontrámos o senhor… desculpe, como se chama?

    Popular: (A tremer, abraçado a si próprio, com os lábios roxos e um cigarro a trepidar na boca) Vítor. Vítor Manuel.

    Repórter: Senhor Vítor, notamos que está em mangas de camisa com dois graus negativos. Disse-nos há pouco que “uma pessoa sai cá para fora para fumar e apanha uma gripezinha”. É o preço a pagar pelo vício?

    Popular: Uma gripezinha, sim. É a forma simpática de dizer que fui expulso de casa. É que a D. Esmeralda, a minha mulher, diz que o fumo se entranha nos naperons da televisão.

    Repórter: Mas não podia, pelo menos, vestir um casaco?

    Popular: É pá você não percebe nada de relações domésticas, pois não? Se eu vestir o casaco, o casaco fica a cheirar a SG Gigante. Se o casaco ficar a cheirar a SG Gigante, a Esmeralda pendura-o na varanda a arejar durante três dias. Se eu ficar sem casaco três dias, tenho de vir fumar nu. É pura logística amigo.

    Repórter: Portanto, prefere arriscar uma pneumonia dupla?

    Popular: O meu sistema imunitário já entregou a alma ao criador, mas a casa está um brinco. Se eu morrer aqui na valeta, a Esmeralda só chora se o cangalheiro deixar cair cinza no tapete da entrada.

    Repórter: E nunca ponderou, face a estas contrariedades, pura e simplesmente deixar de fumar?

    Popular: (Ri-se, engasga-se e tosse violentamente) Deixar de fumar?! O amigo é louco. Se eu deixar de fumar, que desculpa é que eu tenho para sair da sala quando a Esmeralda começa a asnar. Aqui fora, pelo menos, o único som que oiço é o ranger dos meus próprios dentes e, de vez em quando, a sirene do INEM.

    Repórter: Compreendo… É uma questão de sobrevivência.

    Popular: Exatamente. Olhe, não se importa de me acender o cigarro? É que já não sinto os dedos da mão direita desde as oito da noite e não consigo rodar a pedra do isqueiro.

    Repórter: Com certeza. Muito obrigado pelo seu testemunho. Devolvemos a emissão ao estúdio, com a certeza de que a saúde pública em Portugal vale menos que um naperon.

    1. Peso! O óbice é o peso: fumador tem em média menos 15 kg de peso. Gordo morre em média o mesmo que o 15 kg menos pesado. Todos morrem, afinal.
      Mas os gordos morrem mais cedo do que os tabagista. E, os seus cuidados de saúde não são mais económicos do que o do tabagista.
      Não macem:
      _ Deixem o pobre do homem não morrer gordo: com uma pneumonia dupla.
      E, elegante.

  2. Confirmo que, às vezes, se sente um friozinho à custa do cigarrito… E, já agora, no tempo dele, um calorzito também…

    1. Por acaso era mesmo ridículo. Era baixar a máscara para fumar, e baixar a máscara para comer. Agora é que se vê bem a triste figura que faziam…

  3. Houve tempos em que cheguei a sair de casa à meia-noite para ir à estação de serviço comprar cigarros pois já só tinha um ou dois no maço. Podia chover e trovejar, a ânsia era tal que enfrentar intempéries valia o sacrifício para repor o stock dos cigarritos. Foi talvez numa destas incursões que contraí uma valente gripe, o cigarrito deixou de me consolar, aproveitei a boleia e nunca mais lhes toquei. Os meus pulmões agradeceram mas o guarda-roupa teve que ser renovado à conta dos 10 Kg que se seguiram, acumulando-se sobretudo na cintura. Abdicar de um vício pode ter custos.

    1. 10 Kg? Cheio de sorte… Eu nem digo quantos foram, ia achar que exagero para ganhar no concurso, eheheh.
      Depois de conseguir deixar de fumar, foi outra luta, abater as banhas. Não tão difícil nem tão longa, mas nada fácil. Mas valeu muito, muitíssimo, a pena.

    2. 10 Kg? Cheio de sorte… Eu nem digo quantos foram, ia achar que exagero para ganhar no concurso, eheheh.
      Depois de conseguir deixar de fumar, foi outra luta, abater as banhas. Não tão difícil nem tão longa, mas nada fácil. Mas valeu muito, muitíssimo, a pena. Nem que mais não fosse pelo fim dessa “escravidão” que nos obriga a sair de casa para comprar uma porcaria que só nos faz mal à saúde e à carteira. Além de dentes pretos, um hálito horrível e a roupa toda empestada.

      1. Engraçado como hoje identifico um(a) fumador(a) só pelo cheiro, que agora me incomoda, num contacto mais próximo, esquecendo o que de mim devia emanar quando queimava dois maços por dia. Lembro-me de quando vivi no Reino Unido e ia ao cinema, do mini filme publicitário sempre projectado antes do filme em cartaz, em que dois amigos sentados ao balcão de um Pub discutiam os encantos de uma donzela sentada a alguns bancos de distância, de cigarro em riste, em que um deles dizia ao outro, em intensa pestanada com a dita, que era escusado o esforço pois seria como beijar um cinzeiro. Não foi tal advertência que me levou a largar o vício, mas a idéia calou fundo. Uma boa semana para si, vamos conversando por aqui.

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